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Crítica: Nocturama, filme de Bertrand Bonello (Netflix)

6 de outubro de 2017

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Crítica: Nocturama, filme de Bertrand Bonello (Netflix)

A Europa vive há alguns anos dias de tensão por conta do perigo iminente do terrorismo. O que antes era mais latente nos EUA (como o atentado em Las Vegas, de segunda, dia 2 deste mês), agora invade as cidades do velho continente e causa terror não só na população, mas também na União Europeia, que fica, na maioria das vezes, sem saída para o grave problema mundial.

O filme “Nocturama” ~ disponível no Netflix, do diretor francês Bertrand Bonello (L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância), tenta abordar o tema do terrorismo de forma muito particular e inovadora. O foco das camêras está justamente nos terroristas, e não no Estado político, como comumentemente vemos nos longas produzidos.

O drama/thriller de pouco mais de duas horas é muito bem feito. Nos 20 primeiros minutos, pouquíssimas falas. O que vemos são alguns jovens articulando-se separadamente para um objetivo único, isso fica implícito no ar… Até o momento de explosões serem executadas em vários pontos da capital francesa (ao que tudo indica), e os jovens reunirem-se em uma loja de departamentos, para uma eventual fuga, ou, melhor, simplesmente se esconder das autoridades que prometem, a qualquer custo (como normalmente é dito) encontrar os responsáveis pelo crime.

 

Crítica: Nocturama, filme de Bertrand Bonello (Netflix) 1
(Imagem: Reprodução)

 

O grande barato do filme é a forma como o diretor conduz o planejamento e a execução do filme. Esses mesmos jovens, de idades semelhantes, têm diferentes motivações, ao que tudo indica, e pertencem a grupos culturais, sociais e econômicos distintos. Uns desempregados, outro segurança da loja que virará esconderijo do grupo. O que se tem em comum é o pouco aprofundamento psicológico das personagens, o que nos possibilita esteriotiparmos a situação.

Com muitas reviravoltas na trama, a grande sacada do filme é justamente essa condição de universalizar as motivações dos transgressores. “Universalizar” aqui não se pode entender da forma de tentar justificar o crime ou até mesmo torná-lo praticável. É sabido que ele já é praticado no mundo inteiro, o que tem sido um horror para muitas nações, entretanto o ato de humanizar esses vilões é uma tarefa para poucos… Traçar o perfil dessas pessoas é árduo para um contexto social.

É louvável a forma como Bertrand Bonello nos revela o óbvio. Essas pessoas saem do meio, não são indivíduos isolados, com problemas isolados, com motivações isoladas. Ironicamente escrevo este texto enquanto, na BAND TV, o jornalista Ricardo Boechat anuncia o já citado atentado terrorista em Las Vegas, praticado por um senhor de 79 anos, branco, de classe alta e sem quaisquer antecedente criminal, logo, fora do radar da polícia americana.

Nocturama nos tira da zona de conforto e nos faz refletir nas jogadas e problemas sociais na contemporaneidade. Este filme vale muito a pena ser visto, embora não sem olhares atentos e despidos dos preconceitos que nutrimos no decorrer deste século… Esse Fla-Flu sem fim. “Nocturama” fez um golaço e justifica a boa recepção da crítica nos grandes festivais mundiais. Bom filme!

 

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  • Ralfe Silva

    Bacana pia, vou acabar vendo esse filme por causa desse texto.

    • Cássio Silva de Miranda

      Que massa, piá. Veja mesmo, vale a pena. Grande abraço!