Crítica: Nocturama, filme de Bertrand Bonello (Netflix)

Crítica: Nocturama, filme de Bertrand Bonello (Netflix)

A Europa vive há alguns anos dias de tensão por conta do perigo iminente do terrorismo. O que antes era mais latente nos EUA (como o atentado em Las Vegas, de segunda, dia 2 deste mês), agora invade as cidades do velho continente e causa terror não só na população, mas também na União Europeia, que fica, na maioria das vezes, sem saída para o grave problema mundial.

O filme “Nocturama” ~ disponível no Netflix, do diretor francês Bertrand Bonello (L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância), tenta abordar o tema do terrorismo de forma muito particular e inovadora. O foco das camêras está justamente nos terroristas, e não no Estado político, como comumentemente vemos nos longas produzidos.

O drama/thriller de pouco mais de duas horas é muito bem feito. Nos 20 primeiros minutos, pouquíssimas falas. O que vemos são alguns jovens articulando-se separadamente para um objetivo único, isso fica implícito no ar… Até o momento de explosões serem executadas em vários pontos da capital francesa (ao que tudo indica), e os jovens reunirem-se em uma loja de departamentos, para uma eventual fuga, ou, melhor, simplesmente se esconder das autoridades que prometem, a qualquer custo (como normalmente é dito) encontrar os responsáveis pelo crime.

 

critica nocturama filme de bertrand bonello netflix 2 - Crítica: Nocturama, filme de Bertrand Bonello (Netflix)
(Imagem: Reprodução)

 

O grande barato do filme é a forma como o diretor conduz o planejamento e a execução do filme. Esses mesmos jovens, de idades semelhantes, têm diferentes motivações, ao que tudo indica, e pertencem a grupos culturais, sociais e econômicos distintos. Uns desempregados, outro segurança da loja que virará esconderijo do grupo. O que se tem em comum é o pouco aprofundamento psicológico das personagens, o que nos possibilita esteriotiparmos a situação.

Com muitas reviravoltas na trama, a grande sacada do filme é justamente essa condição de universalizar as motivações dos transgressores. “Universalizar” aqui não se pode entender da forma de tentar justificar o crime ou até mesmo torná-lo praticável. É sabido que ele já é praticado no mundo inteiro, o que tem sido um horror para muitas nações, entretanto o ato de humanizar esses vilões é uma tarefa para poucos… Traçar o perfil dessas pessoas é árduo para um contexto social.

É louvável a forma como Bertrand Bonello nos revela o óbvio. Essas pessoas saem do meio, não são indivíduos isolados, com problemas isolados, com motivações isoladas. Ironicamente escrevo este texto enquanto, na BAND TV, o jornalista Ricardo Boechat anuncia o já citado atentado terrorista em Las Vegas, praticado por um senhor de 79 anos, branco, de classe alta e sem quaisquer antecedente criminal, logo, fora do radar da polícia americana.

Nocturama nos tira da zona de conforto e nos faz refletir nas jogadas e problemas sociais na contemporaneidade. Este filme vale muito a pena ser visto, embora não sem olhares atentos e despidos dos preconceitos que nutrimos no decorrer deste século… Esse Fla-Flu sem fim. “Nocturama” fez um golaço e justifica a boa recepção da crítica nos grandes festivais mundiais. Bom filme!

 

Leia outros artigos de Cássio de Miranda clicando aqui.
Cássio de Miranda

Cássio de Miranda

Editor da Recorte Lírico. Baiano, mas exilado no Sul do país. Jornalista: escreve sobre livros, filmes e séries. Pai, professor e escritor, não necessariamente nessa ordem. E-mail.: cassiodemiranda91@gmail.com; cassiodemiranda@recortelirico.com.br; Instagram: cassiodimiranda Twitter: cassiodemiranda

2 comentários sobre “Crítica: Nocturama, filme de Bertrand Bonello (Netflix)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.