O banquete babilônico
O cativeiro babilônico é um dos temas mais profícuos em nossa tradição poética, tendo sido fixado pelas redondilhas camonianas:
Sôbolos rios que vão
Por Babylonia, me achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nella passei.
Alli o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,
Babylonia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
Alli lembranças contentes
N’alma se representárão;
E minhas cousas ausentes
Se fizerão tão presentes,
Como se nunca passárão.
Alli, despois d’acordado,
Co’o rosto banhado em ágoa,
Deste sonho imaginado,
Vi que todo o bem passado
Não he gôsto, mas he mágoa.
(…)
Mas ó tu, terra de glória.
S’eu nunca vi tua essencia,
Como me lembras na ausencia?
Não me lembras na memoria,
Senão na reminiscencia:
Que a alma he taboa rasa,
Que com a escrita doutrina
Celeste tanto imagina,
Que vôa da propria casa,
E sobe á patria divina.
Não he logo a saudade
Das terras onde nasceo
A carne, mas he do Ceo,
Daquella santa Cidade,
Donde est’alma descendeo.
E aquella humana figura,
Que cá me póde alterar,
Não he quem se ha de buscar;
He raio da formosura,
Que só se deve d’amar.
Que os olhos, e a luz que ateia
O fogo que cá sujeita,
Não do sol, nem da candeia,
He sombra daquella ideia,
Qu’em Deos está mais perfeita.
E os que cá me captivárão,
São poderosos affeitos
Qu’os corações tẽe sujeitos;
Sophistas, que m’ensinárão
Maos caminhos por direitos.
Destes o mando tyrano
M’obriga com desatino
A cantar ao som do dano
Cantares d’amor profano,
Por versos d’amor divino.
Mas eu, lustrado co’o santo
Raio, na terra de dor,
De confusões e d’espanto
Como hei de cantar o canto,
Que só se deve ao Senhor?
(…)
No grão dia singular,
Que na lyra em douto som
Hierusalem celebrar,
Lembrae-vos de castigar
Os ruins filhos de Edom.
Aquelles que tintos vão
No pobre sangue innocente,
Soberbos co’o poder vão,
Arrazá-los igualmente:
Conheção que humanos são.
E aquelle poder tão duro
Dos affectos com que venho,
Qu’encendem alma e engenho;
Que ja m’entrárão o muro
Do livre arbitrio que tenho;
Estes, que tão furiosos
Gritando vem a escalar-me,
Maos espiritos damnosos,
Que querem como forçosos
Do alicerce derribar-me;
(…)
Quem com disciplina crua
Se fere mais que huma vez;
Cuja alma, de vicios nua,
Faz nodas na carne sua,
Que ja a carne n’alma fez.
E beato quem tomar
Seus pensamentos recentes,
E em nascendo os affogar,
Por não virem a parar
Em vicios graves e urgentes:
Quem com elles logo der
Na pedra do furor santo,
E batendo os desfizer
Na Pedra, que veio a ser
Emfim cabeça do canto:
Quem logo, quando imagina
Nos vicios da carne má,
Os pensamentos declina
Áquella Carne divina,
Que na Cruz esteve ja.
Quem do vil contentamento
Cá deste mundo visibil,
Quanto ao homem for possibil,
Passar logo entendimento
Para o mundo intelligibil;
Alli achará alegria
Em tudo perfeita, e cheia
De tão suave harmonia,
Que nem por pouca recreia,
Nem por sobeja enfastia.
Alli verá tão profundo
Mysterio na summa Alteza,
Que, vencida a natureza,
Os mores faustos do mundo
Julgue por maior baixeza.
Ó tu, divino aposento,
Minha patria singular,
Se só com te imaginar,
Tanto sobe o entendimento,
Que fara se em ti se achar?
Ditoso quem se partir
Para ti, terra excellente,
Tão justo e tão penitente,
Que despois de a ti subir,
Lá descanse eternamente!
Obras completas de Luis de Camões, 1843, v. III.
Com a conquista babilônica, Nabucodonosor, embora a poupar os pobres, escravizou os judeus mais abastados, ganhando mão de obra especializada e neutralizando politicamente o país. O horror do cativeiro era também o de opressão cósmica. Comunidades arcaicas, como a babilônica, são cosmogônicas. Ou seja, elas são organizadas como centro do mundo (umbilicus mundis). E o indivíduo só existe enquanto parte dela. Não há liberdade fora da ordem cósmica. Por outro lado, temos o livre-arbítrio da tradição judaico-cristã que se efetiva no relacionamento de fidelidade e confiança entre Deus e o Homem, algo evocado tanto nos Salmos quanto nos versos de Camões. Além disso, as religiões de babilônicos e judeus diferiam radicalmente, sendo esta classificada como religião de revelação e aquela como religião de mistério.
Como exemplo, eis o caráter supersticioso de caldeus e babilônicos exposto nos versos epicúreos de Horácio.
ODE 1.11
Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.
ODE 1.11
Saber não cures (é vedado) os deuses
A ti qual termo, qual a mim marcaram,
Nem consultes, Leucônoe, os babilônios
Cálculos, por que assim melhor já sofras
Tudo quanto vier, ou te dê Jove
Muitos invernos, ou só este, que ora
O mar tirreno nas opostas rochas
Quebra. Tem siso, o vinho coa, e corta
Em vida breve as longas esperanças.
Ínvida idade foge: colhe o dia,
Do de amanhã mui pouco confiando.
Obras completas de Horácio.Tradução de Elpino Duriense. São Paulo: Edições Cultura. 1941.
Parte do cativeiro babilônico também é a narrativa de Daniel sobre o derradeiro banquete do império.
Em minha humilde imitação:
DANIEL 5:1-31
Naquela noite festiva, os archotes fumarentos enchiam o teto do palácio de fuligem. No lauto banquete, frangos nédios e gordos catetos crestados eram devorados pelos convivas com a voracidade de gafanhotos. Extenuadas, as concubinas cochichavam pela chegada da aurora. Num palco, de um lado, flautistas inflavam as bochechas para a embocadura dos longos aulos; de outro, eunucos ruflavam a pele áspera de adufes. Ao centro, à luz de chamas bruxuleantes, dançarinas lançavam os derradeiros e diáfanos véus, a balançar seios untados de suor e rotundas nádegas. Em reservado, potentados, prontos para retomar o vinho e a carne, limpavam a boca em toalhas alvas, após despejar o conteúdo estomacal no vomitório.
Espólio de conquista, quando nos vasos da Casa do Senhor remanesciam a borra e as cinzas, as inscrições na parede iluminaram os olhos do bastardo de Nabucodonosor.
Coube a Daniel a interpretação das palavras divinas. E enquanto o judeu revelava a Belsazar que o reino iria cair, ao surgir a alba, sorrateiramente, pelos aquedutos, Dario, o persa, tomava a cidade para degolar o rei.
Assim como Camões, em seu novo livro Babilônia e outros poemas, Ruy Espinheira Filho retoma esse fascinante episódio.
BABILÔNIA
Ontem não vi você em Babilônia
Num fragmento de argila, em escrita cuneiforme, cerca de 3.000 anos a.C.
Ao saber da notícia, revivi
aquela noite funda em que escrevi
(afogava-me um pântano de insônia):
Ontem não vi você em Babilônia.
Só o que restou de tudo: um fragmento
de tabuinha que escapou do vento
do Tempo. Sob o pó, pulsando, a insônia:
Ontem não vi você em Babilônia.
Foi a última vez que lhe escrevi
e nenhuma resposta recebi.
Ainda respiro o que chorei na insônia:
Ontem não vi você em Babilônia.
Os arqueólogos me decifraram
e, milênios além, se emocionaram,
por ser só amor e dor a voz da insônia:
Ontem não vi você em Babilônia.
Era o bastante. O Tempo na tabuinha
quase tudo apagou da história minha,
porém deixou o essencial da insônia:
Ontem não vi você em Babilônia.
E assim contam-se vida e seus escombros
que um dia se partiram nos meus ombros.
E na alma, desde então, só noite e insônia:
Ontem não vi você em Babilônia.
Sonetista brilhante, a ponto de compor um rimário sui generis, neste livro poderíamos elencar “Soneto do amigo morto”, “Soneto óbvio da vida”, “Soneto de certa história”, Soneto de tons para composição de poemas”, “Soneto da tarde azul”, “Soneto das águas de janeiro”, entre outros, que evocam a amizade, o amor e a memória – motivos de sua poesia dos quais já tratamos aqui; no entanto, gostaríamos de chamar a atenção do leitor para a poesia histórica de Espinheira, que marca bastante este livro.
Nesse poema Babilônia, o poeta, por meio da anamnese, insere-se na História e participa do evento luminoso. E apesar de uma lírica sutilíssima, podemos notar no uso do leixa-prem a marca de certa perplexidade diante da mudança do tempo, dos costumes e o sentimento aterrador de quem chega ao fim da festa e todos os convivas estão mortos. Tal recurso estilístico ameniza a mensagem, embora, ao saber do fatídico episódio, compartilhemos do mesmo temor. Não se trata de horror gratuito; mas de temor divino.
Se, como dizem, toda a época tem sua Babilônia, ao contemplar as nossas mais íntimas ruínas, eis que o poeta, ao lado de Horácio e Camões, oferece-nos um símbolo que marca e transcende o contingente de nossa miséria!