Crítica social e (ir)realidade no filme Parasita

Crítica social e (ir)realidade no filme Parasita

O filme Parasita (KOR, 2019), de Bong Joon Hoo, surpreendeu os críticos e o público, razão pela qual tem conquistado vários títulos, nas tradicionais premiações de cinema. O longa foi destaque na mostra Perlak, do Festival de San Sebastian (2019) e conquistou a Palma de Ouro em Cannes (2019). Além disso, entre os prêmios de maior importância, estão: Melhor Filme, no Buil Film Awards (2019); Melhor Filme, no Sidney Film Festival (2019); Melhor Filme Estrangeiro, no Critics’ Choice Awards (2020); Melhor Roteiro Original e Melhor Filme em Língua não Inglesa, no BAFTA (2020); Melhor Roteiro Original, Melhor Filme Internacional, Melhor Diretor e Melhor Filme no Oscar (2020).

A história de Parasita é simples, mas contundente (pelo menos até alguns minutos antes do final). Os personagens principais fazem parte de duas famílias: a de Ki-taek é a família pobre, que reside em um porão (Fig. 1) e tenta sobreviver aplicando alguns golpes; e a do Sr. Park é a família rica e vive em uma mansão (Fig. 2), que antes pertencia a um arquiteto de renome.

Parasita Porão - Crítica social e (ir)realidade no filme Parasita
Figura 1: Os filhos de Ki-taek, buscando o sinal de wi-fi, no porão onde moram. Imagem disponível em: https://ogimg.infoglobo.com.br/in/24203267-dbb-dbd/FT1086A/652/x85569524.jpg.pagespeed.ic.1TN6OvUpe_.jpg
Parasita Retrato de família - Crítica social e (ir)realidade no filme Parasita
Figura 2: O filho de Ki-taek e o retrato da família do Sr. Park, ao fundo Imagem disponível em: https://www.diariodaregiao.com.br/_midias/jpg/2019/11/06/images__1_-2919387.jpg

A trama tem início quando o filho de Ki-taek é indicado por um amigo para ser o tutor da filha do Sr. Park. Uma vez admitido, ele passa a frequentar a mansão e inicia um plano para empregar toda a família no mesmo lugar. Ao fim de alguns meses, todos os membros da família de Ki-taek estão trabalhando na casa dos Park e, sempre que podem, aproveitam o conforto e as regalias daquela nova rotina (Fig. 3).

Parasita Cartaz - Crítica social e (ir)realidade no filme Parasita
Figura 3: Cartaz do filme Parasita Imagem disponível em: https://media.fstatic.com/rrUNymMMAxC-kJaz-XHLzkCOmqo=/fit-in/290×478/smart/media/movies/covers/2019/08/parasite-french-movie-poster_1.jpg

Com o tempo, Ki-taek descobre que, assim como ele mora em um porão, na periferia da cidade, o marido da ex-governanta dos Park também vive por anos, no porão da mansão.  Nesse momento, o parasitismo ganha destaque na história, revelando-se como um modo eficaz de sobrevivência. Diante desse contexto, o hóspede indesejado e os empregados do Sr. Park travam uma batalha, para tentar manter o que conquistaram. No parasitismo, o parasita “vive às custas do hospedeiro, caracterizando uma relação desarmônica, em que só há beneficio para um dos organismos envolvidos” (FURB, 2020). Sendo assim, a família Park foi duplamente usada: primeiro pela ex-governanta, em prol da segurança do marido dela; depois pela família de Ki-taek, que se hospedava na mansão, quando os patrões viajavam.

Além disso, tanto Ki-taek quanto a ex-governanta sabem que “o hospedeiro é indispensável” e que, “separado[s] dele”, ambos morrerão, “por falta de nutrientes” (FURB, 2020). A disputa, então, torna-se física, fazendo com que a festa do garoto Park se transforme em um verdadeiro massacre, com sangue e gritaria. Entretanto, os parasitas, antes oponentes, acabam se unindo no final, quando o Sr. Park sente, no marido da governanta, o mesmo odor desagradável, de “pano molhado” (PARASITA, 2019) e de “rabanete velho” (PARASITA, 2019), que ele também sentia em todos os membros da família de Ki-taek. Quando esse episódio ocorre, Ki-taek mata o patrão, em uma clara reação ao desequilíbrio social e à humilhação experimentados por ele, por sua família, pela ex-governanta, pelo marido dela e por muitas outras pessoas, que mal podiam se sustentar, e que também viviam espremidas ou amontoadas em porões, sem janelas e sem a luz do sol (daí o odor característico, de “pano molhado”, como o Sr. Park descreveu, certa vez). Essa sequência, em que a violência representa um grito de justiça e liberdade, pode ser relacionada a filmes importantes da cinegrafia brasileira. Enquanto assistia às cenas, foi impossível não retomar o atavismo apresentado por Sérgio Bianchi, em Quanto vale ou é por quilo? (2005). Investindo nessa comparação, podemos afirmar que o legado de Ki-taek aos seus filhos não é marcado apenas pela vida de privações, que incluía a família em uma classe social não privilegiada, mas também pela servidão e talvez até pelo parasitismo. Outro filme ao qual Parasita pode ser associado é um clássico do Cinema Novo — Deus e o diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha. Nessa produção, é relevante a iniciativa do vaqueiro Manuel, que, assim como Ki-taek, escolhe a violência para se fazer visto e ouvido, garantindo-lhe a possibilidade de redefinir seu destino, longe da opressão de seu explorador. Conforme Glauber Rocha, a violência

[…] antes de ser primitiva é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado; somente conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas, o colonizado é um escravo; foi preciso um primeiro policial morto para que o francês percebesse um argelino. (ROCHA, 2020)

Até aqui, sem dúvida, o filme Parasita é uma grata surpresa, pela coragem de tingir com sangue uma festa de aniversário infantil, de modo a expor um problema social que, embora faça parte de nosso cotidiano, hoje, parece insolúvel, porque desconhece fronteiras de tempo, cultura e espaço. Entretanto, não basta afirmar que isso “sempre foi assim e sempre será”. É preciso mostrar, questionar e tirar o espectador de cinema da alienação que impera em sua zona de conforto. Com certeza, Bong Joon Hoo faz isso, e de modo exemplar.

Porém, depois disso, o filme toma um rumo complicado, ao optar pelo tradicional happy end. Ki-taek matou o patrão e por isso passa a ser procurado pela polícia. Com o tempo, o filho descobre que ele está escondido no porão da mansão dos Park e, a partir daí, o jovem traça um novo plano: ele consegue entrar em uma universidade, obtém um diploma, conquista o emprego dos sonhos e, poucos anos depois, ele se torna o feliz proprietário  da mansão. Isso mesmo! Esse futuro brilhante é apresentado a nós nos minutos finais do filme, gerando desconfiança e, claro, incredulidade no espectador. Depois do choque de realidade do massacre em plena festa infantil, deparamo-nos com a irrealidade do final. Diante disso, é inevitável pensarmos sobre as razões para essa falência absurda de uma ideia e de uma crítica social que eram tão promissoras… A melhor hipótese que achei, para tentar entender essa reviravolta ideológica do filme de Hoo, é o desejo da produtora sul-coreana, a CJ Entertainment, de se estabelecer no mercado mundial, obedecendo à risca ao formato hollywoodiano. Prova disso é que a empresa é a distribuidora oficial de filmes da Paramount Pictures na Coreia. Esse argumento também ganha força, se compararmos o final de Parasita aos finais de alguns filmes recentes do Netflix. Embora as más línguas digam que o Netflix é o “lixo de Hollywood”, é notório o fato de que o canal de streaming é mais democrático em suas produções, as quais gozam de maior liberdade para abordar certos temas e até enveredar por experimentalismos.

Antes de falarmos dos filmes do Netflix, façamos uma rápida digressão, voltando no tempo quase vinte anos. No sucesso Cine Majestic (EUA; AUS, 2001), de Frank Darabont, há uma crítica hilária ao padrão hollywoodiano. No longa, Peter Appleton (Jim Carrey) é um roteirista, mas, ao final da história, ele abandona a carreira em Hollywood, depois de discordar da equipe de produção, que impunha um final piegas e sentimentaloide como condição para o lançamento de um filme. É essa tomada drástica de posição que nos leva, agora, a uma breve análise de algumas produções recentes do Netflix, cujos diretores, adotando a mesma postura de Peter Appleton, contribuíram para consolidar, no mercado cinematográfico e televisivo, histórias mais realistas e verossímeis, que se preocupam com questões que vão muito além do final feliz. Nesse quesito, podemos citar: Meu nome é Dolemite (EUA, 2019), de Craig Brewer — cinebiografia de Rudy Ray Moore, que produziu o primeiro filme de modo independente, apostando em um tipo de humor que contrariava totalmente o cinema burguês e branco da época; História de um casamento (EUA, 2019), de Noah Baumbach — um filme que, no final, tem a oportunidade clara de escolher o final feliz aliado à volta ao passado, mas não o faz; e O irlandês (EUA, 2019), de Martin Scorsese — cujo final também depende da escolha de Frank Sheeran (Robert De Niro). Felizmente, nesse caso, a decisão de Frank não privilegia o sentimentalismo, até porque é uma história sobre a máfia… Então, não poderia mesmo ser diferente!

Com base no retrospecto que apresentamos no início deste texto, com os principais prêmios conquistados por Parasita, percebemos que, no caso específico do Oscar 2020, a preocupação de Hoo com o formato hollywoodiano foi recompensada. Simultaneamente, as estatuetas contabilizadas pelo filme, na noite de 9 de fevereiro, apenas corroboram o argumento que opõe a indústria cinematográfica tradicional ao canal de streaming Netflix. Em outras palavras, o diretor e os produtores de Parasita traçaram uma meta, combinaram a denúncia social a um final artificial e inverossímil (mas feliz) e acertaram o alvo. Foi a primeira vez que a Coreia do Sul ganhou um Oscar e, quando isso se realizou, já rendeu quatro prêmios em uma só noite. Diante disso, uma pergunta é praticamente inevitável: “Quem consegue esse tipo de façanha?” Ora, quem vive em nosso mundo e tem a chance de concorrer em uma premiação na qual a Academia tem que ceder à pressão do público e de boa parte da classe artística, para indicar produções, atores e atrizes de culturas e etnias variadas, pois, do contrário, sabemos que haverá ausências, boicotes e discursos inflamados. A lei da oferta e da demanda pode nos ajudar a entender melhor esse intricado jogo: por um lado, o filme Parasita deu a Hollywood o final que a Academia esperava e desejava; por outro, a Academia decidiu premiar um único filme quatro vezes, para tentar mostrar, ostensivamente, que há, sim, espaço para as minorias, para os grupos não hegemônicos, em um esforço desesperado para demonstrar uma nova mentalidade, mais afeita ao que o público e a classe artística exigem, atualmente. Além disso, a premiação quádrupla pode ser vista como uma espécie de mea culpa, pela ausência de atores e atrizes negros e de diretoras mulheres na lista de indicados. Louvável? Nem tanto, pois, para tentar neutralizar os efeitos de seus próprios erros, a Academia optou por menosprezar a maestria de filmes como Era uma vez em… Hollywood (EUA, 2019) de Quentin Tarantino, O irlandês de Martin Scorsese e 1917 (EUA; ING, 2020) de Sam Mendes, que mereciam ter ganhado nas categorias de Melhor Roteiro Original, Melhor Diretor e Melhor Filme, respectivamente — isso sem falar nos fatos de que até Bong Joon Hoo mostrou-se surpreso com a avalanche de prêmios que recebeu e de que, com certeza, uma distribuição mais igualitária também privilegiaria a diversidade, mas sob outro ponto de vista…

A partir dessas associações, espero ter conseguido dar exemplos suficientes para demonstrar que o filme Parasita tinha, sim, outras escolhas para construir o final, muitas delas, aliás, mais coerentes com o projeto estético da obra e com nossa realidade social. Quando aprendi os fundamentos da crítica, há alguns anos, aprendi que sempre devemos destacar os pontos positivos e os negativos daquilo que estamos analisando. Estou convicta de que fiz isso, aqui, com Parasita. Entretanto, nesse caso, o ponto negativo (apesar de ter sido único e muito breve, considerando o tempo total do filme) superou os aspectos positivos. Por isso, encerro esta resenha com as palavras do inesquecível Leminski, nosso poeta dos pinheirais: 

Não fosse isso
e era menos
Não fosse tanto
e era quase (LEMINSKI, 2020)

REFERÊNCIAS

FURB. SIAS – Parasitologia. Disponível em: <http://www.inf.furb.br/sias/parasita/Textos/parasitologia.htm>. Acesso em: 2 fev. 2020.

LEMINSKI, P. Paulo Leminski. Disponível em: <https://www.pensador.com/frase/NjIyNjA4/>. Acesso em: 2 fev. 2020.

PARASITA. Direção de Bong Joon Hoo. Coreia do Sul: Barunson e CJ Entertainment; Pandora Filmes, 2019. 1 DVD (132 min); son.

ROCHA, G. Gauber Rocha: uma estética da fome. Disponível em: <http://www.dopropriobolso.com.br/index.php/artes-visuais/51-cinema/151-glauber-rocha-uma-estetica-da-fome-94747281>. Acesso em: 2 fev. 2020.

Verônica Daniel Kobs

Verônica Daniel Kobs

Professora do Mestrado e do Doutorado em Teoria Literária da UNIANDRADE. Professora do Curso de Graduação de Letras da FAE. Autora do blog Interartes (https://danielkobsveronica.wixsite.com/interartes). Pós-Doutorado na área de Literatura e Intermidialidade, realizado na UFPR. E-mail: danielkobs.veronica@gmail.com

4 comentários sobre “Crítica social e (ir)realidade no filme Parasita

  1. Professora: ainda não vi o filme, mas seu comentário me motivou a vê-lo — eu que não tenho paciência com a ida a cinemas — vejo filmes em casa (quando vejo!). Recentemente, voltei a me interessar por cinema.

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