Um poema à consciência

Um poema à consciência

Três palavras[i] sobre a folha do caderno de notas me alertam que daí há outras mais que podem brotar através do exercício da meditação: vontade, entendimento, memória. Anotadas à véspera do sono estão aí para significar algo, para ter (ou ganhar) sentido – exigem um despertar ou uma vigia na vigília para que se tornem comunicação com o leitor.

É certo que na noite anterior, bem próximo a me entregar ao sono, havia lido Bernardo de Claraval. Rememoro que saberia aonde reencontrar as palavras do Santo de Clairvaux, e volto ao seu “Tratado da consciência” – porque não as tenho de cor (par coeur).

Emmanuel Levinas - Um poema à consciência
Filósofo francês Emmanuel Lévinas. 1906 – 1995. (Foto: Reprodução)

Por saber através de Emmanuel Lévinas que “não é por azar que a história da filosofia ocidental foi uma destruição da transcendência”, volto a Bernardo na manhã seguinte, logo que desperto e aí reencontro suas palavras.

Certamente, aí se deve confirmar que “a espiritualidade da alma incessantemente redespertada de seu estado de alma em que o próprio ´vigiar` já se fecha sobre si mesmo ou adormece para se repousar nas suas fronteiras de estado. Passividade da Inspiração ou subjetividade do sujeito desembriagado de seu ser.”

Retorno, pois, ao “Tratado” onde encontro essas palavras:

Entre as artes liberais não foi classificada aquela que certamente seria a mais liberal de todas: a de fixar o coração que é, dentre todas as coisas volúveis, a mais volúvel, entre as coisas escorregadias, a mais resvaladiça.
Com efeito: o coração, por sua natural volubilidade, se resiste em permanecer fixo e firme sobre um ponto determinado. Sua vida fundamenta-se no movimento, e o movimento é sua própria vida; e, coisa estranha, o quase imperceptível movimento vital do coração move e anima toda a massa do corpo humano.

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São Bernardo Claraval, nascido no Castelo de Fontaine em 1090, perto de Dijon (França), pertencia a uma família nobre, a qual se assustou com sua decisão radical de seguir Jesus como monge cisterciense. (Tela: Séc. XVII, no estilo de Philippe de Champaigne, atualmente em Saint-Étienne-du-Mont, em Paris.)

Com o subtítulo de “É difícil reprimir as veleidades, as divagações do coração”, Bernardo nos conduz ao reconhecimento de que diante dos “mistérios ocultos de Deus”, o melhor é reconhecermos que nada sabemos.

Parece mesmo ser esta a escolha dos santos, desde o tempo arcaico dos profetas hebreus. É bom conselho este de Bernardo. Trata-se de conhecer a sabedoria dos que tiveram a visão das obras, maravilhas e mistérios ocultos, afinal, é preciso repousar as asas, recolher-se a si mesmo e, principalmente, “não sair dos limites que lhe foram impostos”.

Na lição poética, seria como repetir esses versos de W. B. Yeats em “Rumo a Bizâncio”:

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William Butler Yeats foi um poeta, dramaturgo e místico irlandês. (Foto: Poetry Foundation/Reprodução)

Ó sábios que permaneceis no sagrado fogo de Deus
Como no dourado mosaico de um muro,
Vinde do sagrado fogo, revolteai num vórtice,
Sede os mestres cantores da minha alma.
Reduzi a cinzas este meu coração; doente de desejo,
Amarrado a um animal moribundo,
Ele não sabe ao que vem; juntai-me
Ao artifício da eternidade.

Lembre-se o querido leitor que não por acaso foi São Bernardo o último guia de Dante nos cantos finais de “O paraíso”, tarefa antes desempenhada pelo poeta Virgílio e pela musa Beatriz, na “Divina Comédia” o ponto alto da obra do florentino.  É no Empíreo que a suprema luz haveria de outro olhar ser desenvolvido pelo poeta, pois da Rosa Mística o clarão esparge sobre ele, e então ele se despede da Amada, recebendo em seu lugar a companhia (e o protagonismo) de Bernardo.

E o Santo Ancião: “Por chegares ao fim”,
disse: “do teu caminho, a quem um rogar
amoroso mandou-me, este jardim
percorre agora com o teu olhar;

o que o fará fortalecer, no aguardo
de nos raios divinos te elevar.

E a rainha do Céu, por que eu ardo
de amor, nos doará graça qualquer,
por mim, que sou o seu fiel Bernardo.

Estando diante de uma luz tão intensa, alguns versos adiante, o florentino assim reagiu: “Bernardo, me acenando, me induzia/a olhar pra cima, mas eu já fizera,/por mim, aquilo que ele me pedia;/que minha vista, pura já como era,/mais e mais penetrava no fulgor/da Luz Suprema, que por si só é vera”. E o milagre da expressão é o motivo da súplica do poeta (no Canto XXXIII do Paraíso):

Daí a minha visão foi superior
à palavra, que ao seu primor se rende,
qual a memória ante o fato maior.

“Como pessoa que o sono surpreende,
e só a paixão guarda do sonho, impressa
na mente, donde o resto se desprende,

tal eu fiquei, que, quando quase cessa
toda a visão, ainda ela me instila
no peito o doce que dela começa.

(…)

Ó Suma Luz que tanto, dos errantes
mortais, te elevas, ora à minha mente
um pouco reapareças como dantes,

e faças minha língua tão potente
que uma centelha apenas de tua glória
possa deixar para a futura gente. (…)

O que dizer depois disso? Contentemo-nos com a resposta de Heidegger que “a linguagem é a casa do ser”.

Coda.

Algumas linhas para repassar a lição de Bernardo e um engate na filosofia de Lévinas (“De Deus que vem a ideia”).

i. “A alma, que é imortal, não pode existir sem a consciência”.

ii. “A consciência, pois, morada perpétua da alma, requer ser purificada primeiro, e solidamente edificada depois. Quem a purificará? Deus e o homem: o homem, por meio de seus pensamentos e afeições. Deus, por sua misericórdia e por sua graça”.

iii. “A graça ajuda-nos a fazer o bem, a evitar o mal e ensina-nos a distinguir um do outro”.

iv. São estas as sete colunas necessárias no edifício espiritual: 1. A boa vontade; 2. A memória; 3. O coração puro; 4. O entendimento livre (de todo preconceito); 5. O espírito reto; 6. A alma devota; e 7. A razão iluminada (apud “Tratado da consciência”).

Lévinas: “A essência da linguagem a que os filósofos concedem agora uma função primordial – e que vai marcar a própria noção de cultura – consiste em fazer luzir, para além do `dado´, o ser no seu conjunto.”

“A insônia – vigília ou vigilância – longe de se definir como simples negação do fenômeno natural do sono, pertence ao categorial, condição de toda atenção e de todo embotamento antropológico. Sempre no limiar do despertar, o sono comunica com a vigília: mesmo tentando evadir-se, permanece à escuta na `obediência da vigília´ que o ameaça e chama, da vigília que ´exige`.”

Desperto-me com São Bernardo e Lévinas sobre a mesa, de olho no Outro, alerta para a espiritualidade da alma, em vigília, num “despertar à guisa de lucidez”. Outros clarões são esperança para este cronista, porque, afinal, como diz São Bernardo: “a consciência é um livro em que estão escritas todas as nossas obras”.

LEIA TAMBÉM:

[i] Referências: BERNARDO DE CLARAVAL, Santo (1090-1153). “Tratado da consciência, ou, Do conhecimento de si mesmo”, trad. Lyege Ornellas Pires Carvalho. Itapevi (SP): Nebli, 2015. LÉVINAS, Emmanuel. “De Deus que vem à ideia”; trad. Marcelo Fabri, Marcelo Luiz Pelizzoli, Evaldo Antônio Kuiava. Petrópolis (RJ): Vozes, 202. Idem, “Humanismo do outro homem”, Petrópolis (RJ): Vozes, 2012, trad. Pergentino S. Pivatto (coord) et alli. YEATS, W. B., “Poemas escolhidos”, trad. Frederico Pedreira, Lisboa: Relógio D´Água, 2017. POIRIÉ, François. “Emmanuel Lévinas: ensaio e entrevistas”, trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2007. ALIGHIERI, Dante (1265-1321). “A divina comédia: paraíso”, trad. e notas de Italo Eugenio Mauro. São Paulo, Editora 34, 1998.
Adalberto De Queiroz

Adalberto De Queiroz

Adalberto de Queiroz, 65, natural de Goiânia, é empresário e jornalista por formação (UFG), Bacharel em Comunicação Social (pela UFRGS - onde também estudou Física, sem concluir o curso). Autor de "O rio incontornável" (Poemas), Edit. Mondrongo, 2017, entre outros títulos. É membro da Academia Goiana de Letras. E-mail.: betoq55@gmail.com

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