A bruxaria na literatura brasileira (3): A feiticeira, de Inglês de Souza

A bruxaria na literatura brasileira (3): A feiticeira, de Inglês de Souza

1. Jules Michelet, historiador francês, é responsável pela incrementação da perseguição aos jesuítas em Florença (27 de abril de 1859), na Itália. Outro irmão de armas, na “guerre aux jesuites”, foi Edgar Quinet do Collège de France. Ambos são herdeiros dos ideais da Revolução Francesa e, portanto, da descristianização do Estado.

2. A descristianização do Estado não significava ausência de uma religião organizada e centralizada e sim sua adaptação à secularização encetada pelos maçons para os quais um ponto de vista deísta especulativo e naturalista seria entronizado. Vários papas escreveram contra a maçonaria: Clemente XII em In eminenti, 1738 e Leão XIII em Ab apostolici, 1890.

3. Em A Feiticeira, apresenta sua perspectiva sobre o demônio:

Não seria Satã um ator necessário, uma peça indispensável da grande máquina religiosa, hoje um tanto avariada? (…) O Diabo é nada menos que um dogma, que se liga a todos os outros. Tocar no eterno vencido não será tocar no vencedor? Duvidar dos atos do primeiro leva a duvidar dos atos do segundo, dos milagres que fez precisamente para combater o Diabo. As colunas do Céu têm os pés no abismo. O desatinado que abala essa base infernal pode provocar rachaduras no Paraíso…

4. As feiticeiras tinham aspectos positivos para Michelet: o trabalho com a physis e com uma farmacopéia de excitantes, estimulantes e inebriantes. A contraposição à Igreja era clara porque ela permitia a embriaguez apenas para a contemplação de Deus. Em uma tacada: homeopatia, garrafadas, tias da erva e Frei Tuck.

5. Em Satanismo e Bruxaria, o ponto de vista de Jules Michelet é alterado. Malleus maleficarum ou Der Hexenhammer, redigido em 1486 pelo monge dominicano Heinrich Kramer compilava o saber e os medos da época, fornecia os argumentos para caça às bruxas provocou inúmeras mortes.


Um poema à consciência, de Adalberto De Queiroz
Com o subtítulo de “É difícil reprimir as veleidades, as divagações do coração”, Bernardo de Claraval nos conduz ao reconhecimento de que diante dos “mistérios ocultos de Deus”, o melhor é reconhecermos que nada sabemos

6. Como o tratado foi divulgado?

O Martelo das Bruxas se beneficiou da invenção da imprensa, e do fato de ser possível divulgar textos em tiragem bem alta. Certa vez tive um original na mão: é um livro mínimo. Ao todo foram publicadas 29 edições. Ele não atingiu apenas a Alemanha, mas foi empregado em toda a Europa. Contudo muitos países também se distanciaram do livro, o rejeitaram. Como a Itália e a Espanha, por exemplo – justamente aqueles que associamos com a Inquisição.

Que processos eram esses?

Os processos da época mudaram de perfil, através desse livro. Até então, quem denunciava alguém corria, ele mesmo, perigo de ir preso, até o processo ter-se concluído. Com seu Martelo das Bruxas, Heinrich Kramer cuidou para que se pudesse denunciar sem ser inculpado ou punido, caso as acusações fossem falsas.

Via de regra, todo o esclarecimento do caso era entregue a juízes eruditos – ou por vezes laicos – que então se encarregavam da busca por indícios. Não era permitido nenhum tipo de assistência legal – como sabemos por um caso em Colônia, onde uma comerciante tentou apelar para seu advogado. E as acusadas – pois eram geralmente mulheres – se viam diante de um esquadrão masculino que não hesitava a mandar despi-las, na procura por supostas marcas de bruxa, as quais então serviam como indício para sua “natureza mágica”.

Historiadora Irene Franken

Fonte: https://bit.ly/2X4NwvP

image 4 - A bruxaria na literatura brasileira (3): A feiticeira, de Inglês de Souza
Capa da edição especial do conto “A feiticeira”, de Inglês de Souza. (Imagem: Editora DCL/Reprodução)

7. Inglês de Souza, escritor paraense, escreveu Contos Amazônicos (1893). Um de seus textos é A Feiticeira. Maria Mucoim é assim descrita:

Maria Mucoim uma velhinha magra, alquebrada, com uns olhos pequenos, de olhar sinistro, as maçãs do rosto muito salientes, a boca negra,que,quando se abria num sorriso horroroso, deixava ver um dente, um só! comprido e escuro. A cara cor de cobre, os cabelos amarelados presos ao alto da cabeça por um trepa-moleque de tartaruga tinham um aspecto medonho que não consigo descrever. A feiticeira trazia ao pescoço um cordão sujo, de onde pendiam numerosos bentinhos, falsos, já se vê, com que procurava enganar ao próximo, para ocultar a sua verdadeira natureza.

8. A casa da feiticeira é “situada entre terras incultas nos confins dos cacauais da margem esquerda. E, segundo dizem, um sítio horrendo e bem próprio de quem o habita.

Numa palhoça miserável, na narrativa de pessoas dignas de toda a consideração, se passavam as cenas estranhas que firmaram a reputação da antiga caseira do vigário. Já houve quem visse, ao clarão de um grande incêndio que iluminava a tapera, a Maria Mucoim dançando sobre a cumeeira danças diabólicas, abraçada a um bode negro, coberto com um chapéu de três bicos, tal qual como ultimamente usava o defunto padre. Alguém, ao passar por ali a desoras, ouviu o triste piar do murucututu, ao passo que o sufocava um forte cheiro de enxofre”.

9. A sugestão do intercurso sexual entre Maria Mucoim e o demônio:

"Era um quarto singular o quarto de dormir de Maria Mucoim. Ao fundo, uma rede rota e suja; a um canto, um montão de ossos humanos; pousada nos punhos da rede, uma coruja, branca como algodão, parecia dormir; e ao pé dela, um gato preto descansava numa cama de palhas de milho. Sobre um banco rústico, estavam várias panelas de forma estranha,e das traves do teto pendiam cumbucas rachadas, donde escorria um líquido vermelho parecendo sangue. Um enorme urubu, preso por uma embira ao esteio central do quarto, tentava picar a um grande bode, preto e barbado, que passeava solto, como se fora o dono da casa".
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Mariel Reis

Mariel Reis

Mariel Reis é contista, poeta e ensaísta. Trabalha com Leitura Crítica de originais em prosa ou poesia. E-mail: marielreis.rj@gmail.com

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