O silêncio do poeta

O silêncio do poeta

Há 177 anos, em junho de 1843, da torre em que vive, o poeta Hölderlin contempla as águas do rio Neckar e a paisagem verde que se oferece a ser decifrada há 36 anos. É de favor que vive o poeta, alvo da generosidade de um de seus leitores – o marceneiro Zimmer que se entusiasmara pelo seu romance de formação, inspirado em paisagens gregas – o “Hipérion”.

De sua janela, no quartinho da torre cilíndrica encimada por um telhado circular, Friedrich vê o mundo do alto, e se dá um novo nome – Scardanelli – com o qual busca, em sua via poética e particularíssima, o encontro da unidade do conhecimento, estrada que seguiu por 36 anos.

Os visitantes raros que comparecem à torre Zimmer, têm a curiosidade dos que visitam um zoológico, como se estivessem diante de um exemplar raro de esquizofrenia, desde que o Dr. von Autenrieth o condenara primeiro a uma máscara de ferro que aprisionava seu rosto de doente, depois ao abandono que a família o relegara. É com Zimmer que o poeta encontrara o afeto e o aconchego que lhe faltaram. A gratidão vem em forma de poemas, como este:

A ZIMMER
As linhas da vida são diferentes
Como os caminhos e os contornos dos montes.
O que aqui somos, pode Deus além completar
Com harmonia, prêmio eterno e paz sem par.

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Torre Zimmer

Mas há quem veja nesse momento supremo do poeta na torre Zimmer não um homem em delírio, mas um homem iluminado por “lucidez extrema [i]”, que se tornou presa de um “apocalipse pessoal”, donde a morte o recolhe, tendo vivido não os três anos que lhe haviam sido decretados pelos médicos, mas doze vezes três!

Na torre Zimmer, Hölderlin mergulhou no silêncio, “numa tristeza semelhante a uma alegria secreta” (Vasques), que é a “restauração da transcendência” – quando é invadido pelo “supra consciente”, deixa-se tomar por aquela força superior que Sócrates designara como “Daimonion: portador de dons do alto” (Carpeaux [ii]).

O supra consciente que se sabe, pelos estudos de Jacques Maritain (1966) sobre a intuição criadora na arte e na poesia, é a fonte das “inspirações” a que se referia Aristóteles. Sabemos que no “supra consciente” podem conviver lado a lado “um estado de união mística dos mais elevados” com um “estado de psicose próximo, às vezes, da loucura” – como no exemplo do Padre Surin, citado por Maritain em “Da graça e da humanidade de Jesus” (1968). Este fenômeno parece a este cronista muito similar ao caso de Hölderlin por alternar graus de atividade superior com o desarranjo patológico.

Metade da vida
Peras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.
Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!
Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? E aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; ao vento
Rangem os cata-ventos.”


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A morte do poeta ocorrida há 177 anos, no dia seis de junho de 1843 foi o resgate angélico de um homem excepcional que viveu retirado do mundo nessa espécie de sobrevida (de 36 anos) e que, na Torre Zimmer deu a prova de que havia “um método na loucura” do poeta.

Seja quando permanece por longas horas em silêncio, seja recitando versos antigos, ou quando tocando um piano do qual ele próprio cortara as cordas, é um homem silenciado pelo mundo e diante do mundo. Assim Hölderlin experimentou “uma loucura com método” – para usar a expressão de René Girard interpretação de Martim Vasques (ver cit. i). O poeta faz com que nós leitores “experimentemos o risco da ausência de Deus”, uma experiência redentora, pois “imitar o Cristo é recusar importar-se como modelo, é sempre apagar-se diante dos outros. Imitar o Cristo é fazer de tudo para não ser imitado; é o silêncio de Deus que se faz ouvir no silêncio do poeta”.

“Próximo está
E difícil de compreender é Deus,
Mas onde há perigo aumenta a salvação

Agora, peço a você, dileto leitor, que volte sua atenção a três trechos dos escritos de Friedrich Hölderlin, sendo o primeiro tirado ao romance “Hipérion ou O eremita na Grécia” (1797):

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Muitas vezes, pela manhã parado junto à minha janela com os afazeres do dia vindo ao meu encontro, conseguia esquecer de mim mesmo por momentos, podia olhar à minha volta como se quisesse perceber algo que suscitasse prazer em meu ser como outrora, mas então me recompunha e me sentia como alguém que emite o som de sua língua materna, numa terra na qual ela não é compreendida… Para onde, meu coração? – perguntava-me sensato, e obedecia a mim mesmo.[iii]

E, então, este trecho final dos versos de “Andenken” (Lembrança), um dos poemas mais intensos de Friedrich Hölderlin, traduzido em português por José Paulo Paes:

«[…] Desce o Dordona
E se une ao esplêndido Garona,
Ganhando largura de mar, o mar
Como o amor detém os olhos diligentes.
O que fica, porém, é o que os poetas fundam

E, finalmente, a este trecho do famoso “Canto do destino de Hyperion”:

  • “[…]
    Mas, ai! Nosso destino
    É não descansar.
    Míseros os homens
    Lá se vão levados
    Ao longo dos anos
    De hora em hora como
    A água, de um penhasco
    A outro impelida,
    Lá somem levados
    Ao desconhecido.”

Com isso, estaremos aptos a examinar “o caso Hölderlin”, do qual o emérito crítico Otto Maria Carpeaux disse tratar-se um caso “tanto mais sério quanto é certo tratar-se não de um talento, e sim de um gênio; tanto mais sério que o seu mergulhar na loucura não representa um caso pessoal, mas simboliza o último conflito entre classicismo e cristianismo antes de ambos desaparecerem, provisoriamente, da literatura europeia”.

O poeta alemão é-nos apresentado por Carpeaux como “o mais solene dos poetas”, num ensaio de 1943, intitulado “A mensagem de Hölderlin”.

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A solenidade do poeta é flagrada pelo arguto crítico austríaco como a de um poeta que nos revela uma “filosofia secreta”, em cuja poesia há uma “estranha solenidade” que alude a um saber secreto. É poesia de fato invadida pelo “silêncio festivo dos místicos”, na linha do poeta San Juan de la Cruz. De sua poesia se exaure uma espécie de “silêncio misterioso em que os anjos respiram”.

Maria Teresa Dias Furtado, tradutora do poeta em Portugal, nos fornece algumas notas de enorme relevância[iv] para compreensão do poeta. Diz ela: “A vida e a obra de Hölderlin (1770-1843) confundem-se e fundem-se numa unidade totalizadora: a Poesia. Destinado à carreira eclesiástica por uma mãe dominadora, depressa se apercebe de que o seu caminho é o da criação pela palavra poética, a que prende todo o seu pensar, sentir e agir.

Foi a partir de 1802, ano em que morre a sua amada – Susette Gontard [nos poemas referida como Diotima], esposa do banqueiro de Frankfurt, em casa de quem desempenhou funções de preceptor desde 1796 até 1798 – que Hölderlin passou a sofrer de perturbações psíquicas que se vão agravando com o tempo. Surge então a mitificação do “poeta louco”, mais alvo de curiosidade do que de respeito, e muitos dos seus manuscritos são destruídos por conhecidos e amigos que procuram reunir e editar a sua obra poética e acham que tudo o que foi escrito a partir daquela data é apenas fruto de um estado psíquico alterado.

Um grande silêncio se impôs sobre a obra de Hölderlin. Por muito tempo esquecido, ele é resgatado por leitores apaixonados – como Rainer Maria Rilke e toda uma plêiade de poetas que assumiram a sua herança, nas mais variadas línguas e culturas. E dentre os filósofos, Nietzsche e Heidegger lhe apreciaram a poesia traduzindo-a na linguagem do pensamento.

Hölderlin, é bom que se diga, não é poeta romântico como lhe querem atribuir algumas antologias, nem tampouco “um clássico malogrado, é, antes, um legítimo poeta do barroco alemão e luterano, assegura o respeitado Otto Maria Carpeaux.

A língua barroca de Hölderlin é a do barroco protestante. Os seus únicos parentes na poesia alemã são os Gryphius e Klaj, os poetas luteranos do barroco. Não é um barroco de imagens, como o barroco católico; é um barroco verbal. A metafórica barroca quer verbalmente transformar o mundo, sublimá-lo a um nível superior, em que as variedades materiais desaparecem, onde tudo se confunde em tudo, para santificar tudo. O barroco é a última tentativa de uma síntese integral do cristianismo e da Antiguidade. Hölderlin, o filho do pietismo suábio e discípulo dos humanistas de Tübingen, conseguiu essa síntese na sua poesia barroca”.

Lembrança (Andenken)

(Trad. José Paulo Paes)

Sopra o vento nordeste,
Meu vento preferido,
Porque promete aos navegantes
Boa viagem e espírito ardente.

Agora vai porém
Vai saudar o belo Garona
E os jardins de Bordéus
Onde, ao longo da riba abrupta,

Corre o caminho e o riacho
Tomba fundo no rio vigiado
Do alto por um nobre par
De carvalhos e álamos brancos;

Lembro-me ainda bem de como inclina
O bosque de olmos
Suas largas copas sobre o moinho;
No pátio cresce uma figueira;
De lá se vão, em dias de festa,
Pisando um chão de seda,
As mulheres morenas
Pelos tempos de março

Quando dia e noite igualam-se
E as brisas embalam
Preguiçosas veredas
Repletas de sonhos dourados.

Que me passem, porém,
Cheia de luz sombria,
Uma das taças perfumosas
Com que eu possa repousar: seria
Doce adormecer sob as sombras.

Pois não é bom
Estar sem alma, sem
Pensamentos mortais. Bom é
Deixar que o coração
Falte e converse, ouvir
Histórias de amor
E feitos passados.

Mas onde estão os amigos? Belarmino
Com o companheiro? Muitos
Têm pudor de ir até a fonte,
Pois a riqueza começa
No mar. Como
Pintores, eles recolhem
As belezas da terra sem
Desdenhar a guerra alada nem
A solidão, anos a fio, sob

O mastro sem folhas onde não transluzem
Na noite as festas da cidade
Com harpas e danças.

Mas agora, rumo à Índia,
Eis que os homens partiram.
Lá no promontório ventoso,
Junto ao monte das vinhas, onde

Desce o Dordona
E se une ao esplêndido Garona,
Ganhando largura de mar, o mar
Que dá memória e a tira, assim
Como o amor detém os olhos diligentes.
O que fica, porém, é o que os poetas fundam.

Bastou ao pensador existencialista alemão Martin Heidegger este último verso para que, em 1944, lançasse as suas “Interpretações da poesia de Hölderlin”, contendo o célebre “Hölderlin e a essência da poesia”. É de lá que extraímos o mantra “a linguagem é a casa do ser”. Só me resta desejar rever meus seis leitores em outros desdobramentos desta crônica, deixando-os por ora com essa afirmação heideggeriana: “a poesia não toma jamais a linguagem como material já presente, mas é somente a poesia mesma que pode tornar possível a linguagem”.


[i] Os termos em aspas são de Martim Vasques da Cunha no ensaio “A invasão (um ensaio dramático)”, posfácio a “Sou o primeiro e o último”, livro de autoria de Maurício G. Righi, Editora É Realizações, 2019, pág. 459 e seguintes.

[ii] As citações a Otto Maria Carpeaux são do livro “Ensaios Reunidos (1942-1978)”, vol. I, Ed. UniverCidade, 1999, p. 282-297.

[iii] HÖLDERLIN, Friedrich. “Hipérion ou O eremita da Grécia”; trad. Erlon José Pascoal. Nova Alexandria, São Paulo, 2003, pág. 45.

[iv] Maria Teresa Dias Furtado, tradutora de Hölderlin em Portugal, em “A Phala”, nº 57 https://www.assirio.pt/autor/friedrich-holderlin/86567 consultado em 23/06/2020.


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Adalberto De Queiroz

Adalberto De Queiroz

Adalberto de Queiroz, 65, natural de Goiânia, é empresário e jornalista por formação (UFG), Bacharel em Comunicação Social (pela UFRGS - onde também estudou Física, sem concluir o curso). Autor de "O rio incontornável" (Poemas), Edit. Mondrongo, 2017, entre outros títulos. É membro da Academia Goiana de Letras. E-mail.: betoq55@gmail.com

2 comentários sobre “O silêncio do poeta

  1. Adalberto, gostei de saber mais sobre Friedrich Hölderlin ( sabia tão pouco), saber sobre sua vida difícil e intensa vibração intelectual e psíquica. No silêncio, na poesia, no piano, ele viveu e construiu a ponte que o ligava ao mundo.. Obrigada por este momento!

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