Japão à vista

Japão à vista

“Como é complicado redigir — é mais árduo do que jejuar por três dias” – afirma o narrador de “Botchan”, romance de Natsume Soseki. E sempre penso isso quando desejo me manter ativo neste meu ofício de cronista da Recorte Lírico, a revista digital mais lida no Sul do país.

Penso que não é porque o sujeito leu meia dúzia de autores de um determinado país que possa ficar “pontuando” sobre esses como um especialista. Não ficaria bem imaginar um gringo ditando regras sobre a literatura feita no Brasil por ter lido uns dois ou três Machados e um Mário de Andrade. Opinião, no entanto, qualquer leitor pode ter, impressões, então, são de livre trânsito. Uma pessoa avaliando uma crônica minha sobre um poeta de minha terra foi categórico: “você não meu deu a conhecer o poeta. Só deixou suas impressões de leitura”.

Eu o perdoei mais por ser amigo do que por ser doutor em Literatura. Tive, no entanto, de uma colega ilustre neste site o feedback positivo de que comentei a poesia de Marra Signoreli fazendo refletir no texto da crônica a musicalidade do poeta.

Agora, a trilha a ser seguida nesta crônica é a mesma do(a) newsletter que mantenho no Substack (espero que me perdoe meu generoso editor CM aqui na RL). Este autor só deseja manifestar seu agradável encontro com uma literatura que lhe ficou desconhecida nestes sessenta e seis anos de uma vida profícua e dividir algumas impressões sobre uma viagem de sete dias a São Paulo.

Confesso que foi por conta de um compromisso de viagem com um neto, que o Japão me surgiu literariamente. E vem fazendo um bom papel. Os meus seis leitores sabem da minha planejada viagem ao Nihon, ou para usar o lugar-comum, à terra do sol nascente. É o poder de convencimento de netos. Tudo está sendo programado para junho de 2022.

E, desde então (isto é, do nepotismo convencimento), que me impus a tarefa de conhecer, através da literatura, o país a ser visitado. Vários amigos (virtuais) me acudiram com sugestões de leitura e os livros foram se acumulando e rapidamente sendo lidos – até porque na sua maioria são livros curtos e de leitura agradável. Nenhum, além de “Silêncio”, de Shusaku Endō (1923-1996), significou uma corrida de obstáculos.

Aproveitei a semana que passei em São Paulo para revisitar o bairro da colônia japonesa naquela capital. E para comer e beber bem, em boa companhia. Uma dessas o historiador e tradutor Maurício G. Righi, de quem me ocuparei mais adiante.

BOTCHAN

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Da dificuldade que se interpôs entre o leitor e o livro do Endō, nutro pequena esperança de que, ao ver o filme de Martin Scorsese baseado no livro, eu consiga avançar naquele livro-drama do japonês-católico, um clássico de Endō.

A denúncia da violência contra a minoria católica encetada pelo xógum Tokugawa, no século XVII, ainda aguarda conclusão; e por ora dou-me o direito e permissão de divertir-me com Murakami, Tanizaki e Soseki. Faço aqui um mea culpa com você, benévolo leitor católico.

Foi com “Botchan” (Soseki) que me envolvi totalmente na semana passada em São Paulo. Ele escrevia seus textos como Natsume Soseki (夏目 漱石 — mas foi registrado como Natsume Kinnosuke (夏目金之助 Natsume Kin’nosuke) (9 de fevereiro de 1867 – 9 de dezembro de 1916). Ele ficou órfão de mãe (aos 14 anos) e foi rejeitado pelo pai.

Voltemos à história do jovem mestre (Botchan, em japonês), que tem uma vocação única para arrumar encrenca, ou no dizer polido de seu editor no Brasil, “habilidade social não é o forte do protagonista”, que vive criando enormes dificuldades para si mesmo no convívio em uma cidade do interior, onde encontra seu primeiro emprego como professor de matemática.

Há quem compare o narrador anônimo de “Botchan” ao Holden Caulfield de J. D. Salinger em “O apanhador no campo de centeio”. Creio que é uma facilidade de não entendermos a cultura oriental, mas não é este o caso de aqui inventar paralelismos.

Este menino de Tóquio tem vocação para a travessura e o jovem adulto apenas troca esta pelo não ajustamento social. Depois de se formar em curso de Física para professores, é enviado para uma cidade ao oeste da ilha — Shikoku, “uma terra de bárbaros”, como ele próprio designa.

Os percalços do jovem mestre começam com os colegas professores, que não conhecemos senão pelos apelidos: “O diretor é Texugo, o vice-diretor é Camisa Vermelha, o professor de inglês é Abóbora Verde; o de Matemática, Porco-Espinho e o de desenho é o Fanfarrão” (p.32;3).

A relação com os alunos é tumultuada e demonstra a insegurança do protagonista, mas também sua criatividade para criar e se livrar das encrencas.

As pensões em que se hospeda também tornam-se palcos de mal-entendidos e pequenas desavenças, que sempre levam-nos a apreciar a mordaz ironia com que Botchan encara os fatos. Ele é o típico personagem para quem parece não valer a famosa frase de Ortega Y Gasset por inteiro:

“Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela não salvo a mim”.

Se o caminho que Ortega nos aponta para a “salvação” é buscar o sentido do que nos rodeia, Botchan o evita a todo custo. Ele está sempre em ponto de fuga, embora demonstre alguma consciência, à medida em que vai refletindo sobre cada um dos imbroglios que se lhe são oferecidos ao longo das 176 páginas da história.

Ciente de que “um homem confiável deve ter a retidão de um bambu que não se verga”, o jovem professor expõe os esplendores e vilanias dos embates com homens de caráter (e os nem tanto); em reflexões que cruzam a narrativa do início ao fim.

Seria “spoiler” mostrar aos meus seis leitores a decisão final do jovem professor em relação a emprego, local de moradia e destino afetivo —, mas por ora digamos que abandonado por pai e distante do irmão, sobra-lhe muito pouco coisa na distante Shikoku. Talvez mereça posto melhor alhures. São novas circunstâncias, quiçá Botchan se salve….

Para o embate com os homens de caráter (e com aqueles que “nem tanto”), ele cria uma espécie de dicionário de termos pejorativos:

Almofadinhas, impostores, embusteiros, hipócritas, charlatões, quadrúpedes, sicofantas, poltrões ou, simplesmente, “sujeitos semelhantes a cachorros que ladram”.

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A edição brasileira na tradução de Jefferson José Teixeira

O leitor atento das mídias sociais encontrará estes tipos e ainda os sacripantas e os pilantras, muito comuns quando se aproximam de medalhões do meio digital — estes também gente com quem devemos manter atitude de distanciamento para a nossa própria saúde mental.

Os meios digitais, tais como os jornais à época de composição da narrativa, parecem agir à maneira do que descreve o narrador, pág. 160, reportando uma briga em que o jovem professor e seu colega (Porco-Espinho) interviram para apaziguar e foram presos como arruaceiros:

Jornais vomitam mentiras impunemente. Não existe nada neste mundo tão arrogante quanto um periódico. O jornal publicara apenas a sua versão dos fatos, não a minha…

Com o bacharel em Letras — ou o Camisa Vermelha, a ironia levada à exaustão não surte o efeito desejado, pois ele é eloquente demais para a pobre argumentação em público do nosso anti-herói (Botchan), mas este não o perdoa, concluindo que “não há nada mais indigno de confiança que o ser humano” e ao perder mais uma discussão para o pedante Camisa Vermelha se autodefende com esta:

“Uma pessoa sagaz na argumentação não é necessariamente uma boa pessoa. Tampouco o derrotado é forçosamente mau.”

Estas são algumas cenas do divertido “Botchan”, de Natsume Soseki, cuja leitura recomendo com entusiasmo.

Bem, também fui ao bairro da Liberdade, onde não comi bolinhos de arroz nem tempurá, mas adquiri alguns novos recursos para o estudo do Japonês, porém, isso fica para depois porque esta edição vai se alongando por demais. Concordo com Botchan ao escrever para Kiyo: escrever cartas (e artigos) é complicado demais.

*****

Entusiasmo e alegria tivemos, minha mulher e eu, ao encontrar para um repasto o historiador e tradutor (escritor, enfim! e de grande talento) Maurício G. Righi, no recém-inaugurado Boteco do Jacquin. Eu e minha mulher que só o conhecíamos pelas obras, saímos mais admirados das qualidades deste Girardiano de escol, deixando firmado convite (ainda sem data marcada, por conta das restrições ainda existentes) para que ele venha a Goiânia, falar sobre seus livros, principalmente este que comentei aqui na Recorte Lírico quando falei de Fiodor Dostoiévski.

Sayonara.


LEIA TAMBÉM: O Romance Dos Três Reinos (recortelirico.com.br)

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Adalberto De Queiroz

Adalberto De Queiroz

Adalberto de Queiroz, 66, natural de Goiânia, é empresário e jornalista por formação (UFG), Bacharel em Comunicação Social (URGS). Autor de "Os fios da escrita" (Ensaios literários), Edit. Mondrongo, 2020, entre outros títulos. É membro da Academia Goiana de Letras. E-mail.: betoq55@gmail.com

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