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De Que Modo O Menino, A Toupeira, A Raposa e o Cavalo Podem Ajudar Você?

O livro O menino, a toupeira, a raposa e o cavalo, de Charlie Mackesy (2019), foi presença constante nos mais vendidos do The New York

O livro O menino, a toupeira, a raposa e o cavalo, de Charlie Mackesy (2019), foi presença constante nos mais vendidos do The New York Times. Da mesma maneira, o filme homônimo (2022) ganhou o Oscar na categoria Melhor Curta-Metragem de Animação (Fig. 1).

De Que Modo O Menino, A Toupeira, A Raposa e o Cavalo Podem Ajudar Você?
Figura 1: Cena do filme. (Imagem: Plano Crítico/Reprodução)

Pelo fato de o autor participar da direção, a estética é mantida, como demonstra a comparação da cena acima com a capa do livro (Fig. 2):

Figura 2: Capa do livro (MACKESY, 2019, n. p.)

O filme, porém, utiliza maior cromatismo, consolidando uma necessidade do audiovisual e do cenário repleto de neve. Mesmo assim, a produção recusou cores chamativas, fazendo jus à linguagem e temática sutis (Figs. 3 e 4):

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Figura 3: Trechos do livro (MACKESY, 2019, n. p.).
Figura 4: Conversa do Menino com a Toupeira (MACKESY, 2019, n. p.). (Imagem: Site Estado de Minas/Reprodução)

A história apresenta características que remetem ao clássico O pequeno príncipe (1943). O primeiro ponto em comum é a referência aos adultos. Enquanto Saint-Exupéry pede “perdão às crianças por dedicar este livro a uma pessoa grande”, Mackesy avisa: “Este livro é para toda a gente, quer se tenha oito ou oitenta anos […]” (MACKESY, 2020, n. p.).

Outras similaridades referem-se aos protagonistas, que têm o mesmo tipo físico, mesma cor de cabelo e idade. Além disso, o Menino é extremamente gentil, podendo ser considerado um pequeno príncipe. Há apenas uma oposição: o Príncipe não responde a nada e o Menino só faz perguntas.

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Quanto ao espaço, enquanto o Príncipe anda pelo deserto, o Menino encontra-se perdido na neve. Porém, ambos estão na imensidão do mundo e interagem com poucos personagens. Nesse processo, ações e diálogos convidam à contemplação:

As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: “Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas?” Mas perguntam: “Qual é sua idade? Quantos irmãos tem ele? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?” Somente então é que elas julgam conhecê-lo. (SAINT-EXUPÉRY, 2018, p. 13)

Quando a toupeira surge, o menino está sozinho. Passam o tempo juntos, a contemplar a Natureza selvagem. Acho que a Natureza selvagem é um pouco como a vida — assustadora, por vezes, mas bela. (MACKESY, 2020, n. p.)

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Recusa-se a normalidade e, para o leitor atual, diariamente soterrado por informações, a contemplação pode servir de “antídoto à robotização” (COELHO, 2007). Por fim, os dois garotos compartilham momentos com uma Raposa, personagem emblemático nas fábulas. Aliás, em O pequeno príncipe, a Raposa ensina que “cativar” é “criar laços” (SAINT-EXUPÉRY, 2018, p. 53). É exatamente isso que ocorre em O menino, a toupeira, a raposa e o cavalo.            

Em algumas animações, a volta pra casa sustenta todo o enredo. Isso ocorre em A era do gelo (2002), em que o Tigre, o Mamute e a Preguiça conseguem devolver o bebê ao pai. A despedida é dolorosa, mas a vida em família, entre iguais, fala mais alto, orientando o desapego dos personagens. Vinte anos depois, o filme de Mackesy e Baynton inverte essa lógica, em razão da diversidade. Nos início, o Menino diz: “Eu acho que uma casa é um lugar quentinho, com gentileza e luzes” (O MENINO, 2022). Entretanto, depois ele pergunta: “Lar nem sempre é um lugar, é?” (O MENINO, 2022). No fim da história, o garoto chega ao destino, mas decide ficar com os novos amigos. Aliás, na narrativa de Mackesy não há indícios de que a família esteja procurando pelo Menino. Diante disso, o Menino e os animais (Fig. 5), que se cativaram mutuamente, formam nova família, marcando as diferenças como principal qualidade.

Figura 5: Cena do filme. (Imagem: Apple TV/Reprodução)

A inversão dos clichês é sistemática, na tentativa de mostrar o lado positivo de situações normalmente encaradas como negativas:

As lágrimas caem por um motivo e são sinal de força, não de fraqueza. (O MENINO, 2022)

Pedir ajuda não é a mesma coisa que desistir. É se recusar a desistir. (O MENINO, 2022) 

Vale salientar que livro e filme reagem também aos estereótipos geralmente relacionados ao caráter dos animais, no fabulário clássico. Por causa disso, a Raposa não mantém aquela característica de animal ladino e traiçoeiro: “A raposa é, sobretudo, calada e cautelosa, porque a vida a magoou” (MACKESY, 2019, n. p.). Do mesmo modo, a Toupeira é corajosa e até salvando a vida da Raposa (Fig. 6):

Figura 6: Diálogo entre o Menino e a Toupeira (MACKESY, 2019, n. p.).

Entretanto, por fazerem parte da categoria de autoajuda, em dados momentos aparecem os velhos clichês:

A tempestade vai passar. (O MENINO, 2022)

Você é amado e importante e dá ao mundo o que ninguém é capaz de dar. (O MENINO, 2022)

Apesar disso, a obra de Mackesy revitaliza a autoajuda, conectando-se com o leitor: “Espero que este livro te encoraje, […] sendo mais bondoso contigo e com os outros […]” (MACKESY, 2019, n. p.). Por essas razões, ao discutirem esse tipo de literatura, Boscov e Rogar mencionam também O pequeno príncipe, afirmando que, atualmente, “nenhuma editora dá melhor medida da voracidade dos brasileiros por esse tipo de leitura que a carioca Sextante” (BOSCOV; ROGAR, 2009, grifo no original), empresa responsável pelo lançamento do livro O menino, a toupeira, a raposa e o cavalo no Brasil. Além disso, as autoras caracterizam a autoajuda como “um gênero pontuado por clichês”, mas que oferece “amparo […] em momentos difíceis” (BOSCOV; ROGAR, 2009). De acordo com McGee (2005), isso é necessário atualmente, em que tudo é transitório. Por isso, sempre vale ressaltar a importância de “amar, aceitar, ter paciência, cultivar a alegria […]” − “Conselhos antigos”, mas que “continuam valendo ouro” (BOSCOV; ROGAR, 2009).            

Porém, se as coisas já eram difíceis por si só, a pandemia de covid-19 tornou tudo pior. Por essa razão, em 2020, a venda de livros de autoajuda “aumentou 95%” e, em 2021, esse índice evoluiu ainda mais, com novo “aumento de 51%” (VETTORAZZO, 2021). Em 2020, vivemos os piores momentos e deixamos de viver os melhores. Por isso: Sim! A autoajuda é muito bem-vinda!

Texto originalmente publicado no blog Interartes: Artes & Mídias, em julho de 2023.

Veja o trailer do filme O Menino, A Toupeira, A Raposa e o Cavalo:

https://www.youtube.com/watch?v=RNCBDx2yBrw

REFERÊNCIAS:

BOSCOV, I.; ROGAR, S. Nas asas da autoajuda. 2 dez. 2009. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/021209/nas-asas-autoajuda-p-140.shtml>. Acesso em: 2 ago. 2012.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura: um olhar aberto para o mundo. [Sem data]. Disponível em: <http://www.collconsultoria.com/artigo7.htm>. Acesso em: 2 jun. 2007.

MACKESY, Charlie. O menino, a toupeira, a raposa e o cavalo. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.

MCGEE, Micki. Self-help, Inc.: makeover culture in American life. London: Oxford University Press, 2005.

O MENINO, a toupeira, a raposa e o cavalo. Direção de Charlie Mackesy e Peter Baynton. Reino Unido: NoneMore Productions, Bad Robot Productions e Apple Studios; BBC One, Apple TV+ e BBC iPlayer, 2022. 1 DVD (34 min); son.

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2018.

VETTORAZZO, Lucas. Procura por livros de autoajuda cresce 51% até agosto. 30 set. 2021. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/coluna/radar/consumo-de-livros-de-autoajuda-cresce-51-ate-agosto>. Acesso em: 5 jul. 2023.

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