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O pacto com o diabo, Curitiba e a vida literária em um romance: Conheça Diogo Rosas G.

O Recorte Entrevista dessa semana entrevistou o jovem autor Diogo Rosas G., que acaba de lançar pela editora Record o livro “Até você saber quem

O Recorte Entrevista dessa semana entrevistou o jovem autor Diogo Rosas G., que acaba de lançar pela editora Record o livro “Até você saber quem é”. Diogo, que é curitibano – mas mora em Lisboa em função diplomática -, conversou com o blog Recorte Lírico e nos contou um pouco sobre a produção criativa das personagens, falou sobre o Brasil do passado, no qual é ambientado a obra, e revelou suas preferências e inspirações literárias, brasileiras e estrangeiras. Foi uma conversa agradabilíssima e você confere agora com exclusividade. 

Foto: (Acervo Pessoal/Reprodução)

RL – Queria que fizesse uma síntese sobre sua obra. A personagem principal, o Daniel Hauptmann, é um pouco de Diogo?

Diogo – Creio que eu e Daniel Hauptmann, meu protagonista, compartilhamos um temperamento fortemente melancólico, mas descontado esse fato importante, temos pouco em comum. O arco de vida que começa com uma juventude brilhante e atormentada, passa pelo sucesso fulminante no mundo das letras e culmina em homicídios múltiplos – isso sem contar outros incidentes que não desejo mencionar para não estragar a história – não se parece em nada com minha trajetória até agora. Tive uma infância comum e feliz, uma adolescência vulgar e, adulto, converti-me em um vagabundo (no sentido etimológico do termo, “errante”, “que não para em lugar algum”), retraído e melancólico. Aos 35 anos – no meio da vida – me vi perdido e resolvi escrever um romance. No tempo que me resta, pretendo escrever outros livros e morrer em paz com Deus, sem matar ninguém.
RL – Como diplomata e tendo vivido em tantos outros países, a Curitiba retratada no livro é muito mais saudosista? Talvez mítica?

Diogo – Daniel Hauptmann vê Curitiba pelos olhos de Diogo Rosas G, isso é claro. Uma década mais velhos do que eu, nos primeiros anos da idade adulta ele e seu melhor amigo, Roberto Schmidt, se movem pela cidade que explorei na infância e na adolescência. Creio que, nesse sentido, o romance possui uma alta carga memorialística, transparente a todos, mas particularmente forte aos leitores curitibanos. Por outro lado, em “Até você saber quem é”, Curitiba é mais do que um simples aglomerado de ruas e edifícios; ao longo da narrativa cada um dos amigos projetará sobre ela significados e memórias que a retiram do terreno da geografia física e a colocam em outro plano, daí a expressão “Curitiba mítica”.
RL – É notório que Guimarães Rosa é uma grande influência em sua formação como leitor. Quais outros autores te influenciam, ou influenciou, na construção de “Até você saber quem é”?

Diogo – Prefiro não falar em influências sobre o livro, pois qualquer nome mencionado seria tão superior a mim que, de certa forma, eu estaria me apropriando de suas qualidades por associação. Dito isso, no período em que escrevi “Até você saber quem é” mergulhei muito intensamente em algumas leituras  – Hemingway, Eça, os diários de MirceaEliade, Homero. Me parece legítimo afirmar que, de alguma maneira, elas compuseram a atmosfera em que o romance foi criado. 

RL – Sem fazer pesquisa ou mesmo traçar diagnósticos, o diabo é pouco utilizado na literatura brasileira. A inserção dessa personagem em sua obra veio por essa falta? Explique!

Diogo – Trata-se de um paradoxo, e meu romance foi construído em cima desse paradoxo. Sem dúvida, a figura do Demônio foi muito menos aproveitada no Brasil do que nas grandes literaturas nacionais europeias. No entanto, o maior romance jamais escrito em nosso país – o “Grande Sertão: Veredas” -, talvez o único à altura das obras-primas daquelas civilizações culturalmente tão ricas, trata precisamente… do Coisa Ruim. Ao perceber esse cenário – algo como uma esplêndida catedral gótica incrustada no meio de uma vila de pescadores – Daniel Hauptmann decide ir além, dobrar a aposta e construir um enorme castelo, superando e lançando sombra sobre a obra do diplomata mineiro.

O problema é que a catedral de Rosa guardava um segredo que o jovem curitibano – atormentado e genial – terminou por descobrir para sua própria ruína. No fim, Daniel constrói seu castelo, alto, imponente e dominador. Para sua surpresa porém, o castelo já possuía um senhor, o próprio Demônio, que, aliás, talvez tenha apenas mudado de endereço. 
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