Wicked chegou ao catálogo da Netflix nesta sexta-feira, 21 de agosto de 2026. Quem perdeu no cinema agora tem em casa o musical que terminou 2024 como a quinta maior bilheteria mundial do ano, atrás apenas de Divertida Mente 2, Deadpool & Wolverine, Moana 2 e Meu Malvado Favorito 4.
Mas tem uma coisa que quase ninguém comenta ao recomendar o filme: essa história já foi contada três vezes antes, e cada versão apagou um pedaço da anterior. O que você vai ver na Netflix é a terceira camada de reescrita — e a mais gentil de todas.
A corrente de adaptações que levou até aqui
Vale desenhar, porque a genealogia importa:
- 1900 — O Maravilhoso Mágico de Oz, de L. Frank Baum. A Bruxa Má do Oeste é um obstáculo, não uma personagem
- 1995 — Wicked, romance de Gregory Maguire. Dá nome, infância e política à bruxa: ela vira Elphaba
- 2003 — o musical da Broadway, que transforma o romance numa história de amizade
- 2024 — o filme, que adapta o musical, não o livro
Esse último ponto é o que muda tudo. O filme não é uma adaptação do romance de Maguire — é a adaptação de uma adaptação. E o musical já tinha feito escolhas radicais.

O que o livro de Gregory Maguire tem e o filme não
A política deixou de ser o assunto
No romance de 1995, a alegoria política é a trama principal. Oz é um Estado autoritário, o Mágico é um regime opressor construído nos moldes de ditaduras reais, e Elphaba é uma militante — alguém que escolhe a resistência armada e paga por isso. A amizade com Galinda existe, mas é um fio entre muitos.
No musical e no filme, a relação entre as duas vira o centro absoluto e a política é rebaixada a pano de fundo. Não é um detalhe de ritmo: é uma inversão completa da hierarquia do texto original.
Elphaba e Galinda eram personagens bem menos simpáticas
A Elphaba do livro é sombria e muito mais complexa — em contato aberto com o próprio demônio interno, capaz de crueldade e de erro. A do filme é incompreendida, brilhante e essencialmente boa. São personagens diferentes usando o mesmo nome.
Com Galinda a mudança é igualmente grande. No romance ela é mimada e elitista de verdade, sem o verniz encantador; nas versões musicais, ela é esnobe, mas o público nunca deixa de gostar dela.
O caso do Doutor Dillamond
Esse é o exemplo mais brutal da diferença de temperatura. No palco e no filme, o professor Dillamond perde o emprego — é injusto, é triste, e a história segue.
No livro, ele é assassinado — por Grommetik, o servo mecânico da Madame Morrible, uma criatura que sequer existe nas adaptações. A perseguição aos Animais falantes em Oz deixa de ser metáfora educada e vira o que o romance sempre disse que era: extermínio.
Por que a suavização não foi covardia — foi cálculo de palco
Existe uma explicação prática para o musical ter amaciado tanto o romance, e ela não é preguiça. Um livro de Gregory Maguire pode passar quinhentas páginas dissecando burocracia, teologia e repressão em Oz porque o leitor controla o ritmo — pode parar, voltar, pensar. Um espetáculo da Broadway tem duas horas e meia, plateia paga e a obrigação de fazer uma sala inteira sentir a mesma coisa ao mesmo tempo.
Amizade funciona nesse formato. Alegoria sobre autoritarismo, não tanto. A escolha do musical foi encontrar o que no romance sobrevivia à tradução para o palco — e o que sobreviveu foi a relação entre duas mulheres que o mundo insiste em colocar em lados opostos. O filme herdou essa decisão inteira, junto com as canções.
E a segunda parte?
O que está na Netflix é metade da história. A primeira parte cobre a chegada a Shiz, a formação da amizade e a ruptura — termina exatamente no ponto em que Elphaba assume o rótulo que dá nome à obra.
É na segunda metade que mora o material mais espinhoso: as consequências políticas da escolha dela, o custo pessoal, o encontro com a história que o público já conhece de O Mágico de Oz. Se o projeto vai recuperar alguma da dureza do romance, é ali que teria de acontecer. Vale assistir à primeira parte com essa pergunta no bolso.
Isso torna o filme pior?
Não. E vale insistir nisso, porque comparação entre livro e filme costuma virar torneio de superioridade moral. Wicked é um espetáculo bem construído, Cynthia Erivo entrega uma Elphaba de fôlego e Ariana Grande é uma revelação cômica genuína — a bilheteria de 2024, que acompanhamos aqui quando o filme estourou nos cinemas, não foi acidente.
O ponto é outro: o filme é uma porta, não a casa inteira. Quem sair da sessão gostando de Oz tem, a um clique de distância, um romance muito mais duro e muito mais estranho esperando — um livro sobre como uma sociedade decide quem é o monstro, e o que acontece com quem recusa o papel.
Perguntas frequentes sobre Wicked
Wicked está na Netflix?
Sim. A primeira parte entrou no catálogo brasileiro da Netflix em 21 de agosto de 2026.
Wicked é baseado em qual livro?
No romance Wicked: A História Não Contada das Bruxas de Oz, de Gregory Maguire, publicado em 1995 — que por sua vez parte de O Maravilhoso Mágico de Oz, de L. Frank Baum, de 1900.
O filme é fiel ao livro?
Não. O filme adapta o musical da Broadway, que já havia suavizado muito o romance. As principais diferenças são o rebaixamento da trama política, a versão mais amável das protagonistas e o destino do professor Dillamond, assassinado no livro e apenas demitido nas adaptações.
Precisa ter visto O Mágico de Oz para entender?
Não é obrigatório, mas ajuda. Wicked é construído como o antes da história que todo mundo conhece, e várias piadas e revelações dependem de você reconhecer para onde aquilo vai desembocar.
Ficha técnica
- Filme: Wicked (2024)
- Elenco: Cynthia Erivo, Ariana Grande
- Base: musical da Broadway (2003), a partir do romance de Gregory Maguire (1995)
- Bilheteria: 5ª maior de 2024 no mundo
- Onde assistir: Netflix
























