Anúncio
Homenagem

Homenagem

O Uno vermelho fosco tinha os dizeres Corações a Mil adesivados nas portas. Uma mulher com o cabelo descolorido desceu e passou a chamar o nome de Cristiane que, por sua vez, só abriu o portão depois da certeza de que a vizinhança ocupava as calçadas. Nos minutos seguintes, os alto falantes do Uno tocaram duas canções de Eduardo Costa. Abraçada ao buque de rosas vermelhas que a loira descolorida havia lhe entregado, Cristiane balançava o corpo de forma tímida. Após um último gemido do sertanejo, a música abaixou. De fundo o tema de Titanic. Uma gravação com um locutor de voz pastosa começa a declamar uma poesia. Cristiane olhava para todas em volta. Algumas mulheres choravam, outras cutucavam os maridos, todos sem camisa e de calção de futebol. Depois da poesia do locutor, cinco tiros de fogos de artifício tentaram preencher o céu. Um cachorro latiu. A loira descolorida, que registrou tudo, entregou um cartão pra Cristiane, cumprimentou-a com certa cordialidade, entrou no carro e se foi, sorrindo para os vizinhos que, pouco a pouco, voltavam para a novela das sete.

Cristiane voltou pra casa de cabeça erguida. Depositou o buquê sobre a mesa e, enquanto requentava o almoço que seria jantado, pensava na próxima cena ensaiada que iria promover em nome dos namorados que inventava.

 

Anúncio
Leia outros textos da coluna semanal do Zé Ciabotti clicando aqui.

Posts Relacionados

  • Cor

    Entrou em pauta quais termos seriam usados para cor-barra-etnia no formulário do Exame Vestibulante Nacional. Imediatamente Tição falou: – O que sugiro é colocarmos branco, negro, pardo e indígena. Qual a próxima pauta? – Um instante, por que tanta pressa? – indagou Junina, no que Gugu rapidamente concordou: Anúncio – É. Pra começar, negro está…

  • O martelo e a taça

    A madame sentada confortável diante do quadro não esboça qualquer emoção ao contemplá-lo embora cercada por tantos outros que se poderiam somar à sua reflexão tão impenetrável quanto seu rosto imóvel. Ela balança a taça de vinho, molha vez por outra os lábios, move agudamente as pernas. Descreve com a mão livre os traços do…

  • Cactos

    Gustavo gostava muito de Fernando. Era um bom amigo. Inteligente, criativo, engraçado, carismático o suficiente para entreter qualquer pessoa em sua conversa… fazia muito sucesso entre as estudantes do campus. A professora de linguística tinha passado um trabalho e Fernando o convidou para ir até sua república a fim de estudarem juntos. Gustavo topou de…

  • Doador

    Doutor Gerônimo foi chamado para diagnosticar um paciente que tinha vários órgãos apresentando sérias ineficiências em suas funções. Sua conclusão era que faltava oxigênio. — Muito estranho! — disse ao que moribundava — Tem dificuldade para respirar? — Não. — Então tenho de fazer alguns exames a fim de O paciente o interrompeu: — Meu…

  • Lava a jato

    Farrel [email protected] Ricardo estava em seu escritório. Seu celular comercial tocou. — Lava a jato Latitude! — Saudações! Nosso veículo está imundo. Gostaríamos de lavá-lo, mas achamos por bem saber se ele cabe em seu estabelecimento antes de irmos até aí. Anúncio A voz era estranhamente aguda. Parecia a Ricardo que a pessoa do outro…

  • Pirralho

    Sabrina nunca viu motivos para achar que o relacionamento de Alberto com Camila fosse mais que uma forte amizade. Os dois haviam sido namorados há muito tempo, sim, mas agora ambos estavam casados e Camila tinha um pirralho catarrento e bagunceiro como filho. Sabrina confiava no marido, mas era cismada com Camila. Sempre achava que…

  • |

    Rosquinha

    Raul teve a ideia enquanto remoía as discussões recentes com Júlia. Ela andava bem irritadiça e misturava o estresse da “vida extra Raul” com a irritabilidades geradas pelo relacionamento. O rapaz tentava se esquivar como podia das cismas arbitrárias. No dia anterior conversava com sua prima Janete no whatsapp enquanto conversava com Julia. Confundiu-se em…

  • Clarice e eu — Conto de Dabliu Junior

    “- Clarice, morrer dói tanto quanto viver?” Eu comecei nossa conversa assim. Ela em silêncio, ainda me surpreendia, como se não estivesse ali por todos aqueles anos me fazendo companhia. Então Clarice levantou e foi até a cozinha. Voltou com dois chás de jasmim sem açúcar, um para mim e outro para ela. Sentou-se novamente…

0 0 votos
Classificacao do Artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários