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Os índios na literatura clássica e contemporânea brasileira

Participei de uma consulta pública em Brasília com líderes do movimento indígena e, durante o coffee-break, um índio Baniwa comentava o ridículo de um homem

Participei de uma consulta pública em Brasília com líderes do movimento indígena e, durante o coffee-break, um índio Baniwa comentava o ridículo de um homem branco ter perguntado a ele se haviam homossexuais entre os Baniwa. Como antropóloga, não achei a pergunta tão ridícula assim, afinal, cada cultura reserva suas particularidades, então, busquei entender sua frustração, “Como assim?” Sua resposta foi, “Assim! O que as pessoas pensam? Nós somos normais! Claro que há homossexuais entre nós.”

O que as pessoas pensam, não é? Porque elas pensam que não há homossexualidade entre índios? Porque pensam que os índios são todos egalitários, vivem nus e em harmonia na floresta? Porque pensam que sociedades indígenas são o último refúgio de sanidade do mundo moderno? É importante refletirmos no porque “o índio”, como são percebidas de forma reduzida as culturas indígenas do continente americano, torna-se ícone da pureza – o bom selvagem rousseauniano. Parte da resposta talvez esteja na forma como a literatura clássica brasileira representou esse “índio” no romantismo, no início do Século XIX.

Peri, o personagem central de José de Alencar em O guarani, talvez seja o maior representante dessa fase. Peri que era “um culto” em sentimento, porque que dentro dele “não entrava um só pensamento de egoísmo.” Peri que era sempre alegre, mas sem deixar de ser “tímido e submisso.” Peri, cuja linguagem “singela e concisa… dava uma certa poesia e originalidade”, como em, “— Pois Ceci desejou ver uma onça, Peri a foi buscar.” Sim, é encantador esse homem puro e devoto à sinhazinha Cecília, que a ama mais do que a sua própria vida e está disposto e lutar contra o seu povo para protegê-la.

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José de Alencar trabalhou para elevar a cultura brasileira ao patamar europeu e introduzir o Brasil na história da literatura romântica, trazendo como elemento original para esse movimento literário os valores e costumes nativos. Buscou criar um herói tipicamente brasileiro, mas inspirado nos cavaleiros medievais. Peri é indígena, mas tem alma romântica. José de Alencar conseguiu. Esse índio idealizado vive até hoje nas mentes dos brasileiros. Há de que reclamar? Melhor do que representar um índio como um selvagem, não?

O problema de ir da estigmatização para a idealização é que os índios reais, que estão vivos e lutando para sobreviverem na floresta ou no asfalto não conseguem atingir esse ideal. Os índios, como disse o colega Baniwa, são pessoas normais que participam de consultas públicas e tomam coffee-break com antropólogos. A discrepância de Peri dá margem a uma rejeição ora simbólica e ora estratégica (quando há recursos em jogo) e indígenas reais passam a ser julgados como “índios falsos” ou “paraguaios”. É comum ouvir as pessoas negando identidade indígena porque um índio tem carro com tração de quatro rodas ou usa bermudas da Nike.

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A questão indígena não é a única que sofre com o sucesso estrondoso do movimento romântico na literatura. Os casamentos modernos também. Como diz um notório filósofo paulistano, “Como sustentar o amor romântico num apartamento de e quartos, e pago em 20 anos…” A desconstrução do amor romântico é tema de uma ampla gama de romances contemporâneos e, em meio a isso, a busca sincera pelo lugar do amor. Da mesma forma, alguns escritores contemporâneos buscam uma representação menos idealizada dos índios.

Foi o modernismo que abriu a porteira para o que é verdadeiramente brasileiro na nossa arte. No Manifesto Antropofágico, Oswald de Andrade já aborda diretamente a representação dos indígenas ao cutucar a “poesia para poeta ler”, atacar a morbidez do romantismo, se contrapor ao olhar estrangeiro lançado sobre os povos nativos e ser contra a catequização em geral, inaugurando a poesia Pau Brasil. Isso ocorreu em 1928, faz quase um século. Às vezes, parece que nada mudou. Como no título do artigo Eliane Brum sobre o assassinato de Vitor Kaingang no chão de uma rodoviária – “1500 é o ano que nunca terminou no Brasil.”

No entanto, há no Brasil hoje uma literatura indianista contemporânea, ainda que tímida e submissa como Peri (exemplo: Nove noites, de Bernardo Carvalho; Douglas Diegues; entre outros). Também, há a grande novidade da recém surgida literatura indígena – escrita por índios e índio descendentes (vide o trabalho do paraense Daniel Munduruku).

Esses movimentos começam a trazer representações mais realísticas da diversidade de povos indígenas que vivem no Brasil contemporâneo. Nela há personagens indígenas que se prostituem nas estradas da fronteira e caciques amazônicos que comercializam pacotes turísticos com agências de viagem internacionais. Vale ler para na próxima vez que cruzar com um índio professor universitário evitar perguntas ridículas!

Texto escrito pela antropóloga Deborah Goldemberg e originalmente publicado pela São Paulo Review.

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