O Cangaço a partir do Crossover Lampião & Lancelote

O Cangaço a partir do Crossover Lampião & Lancelote

Não me canso de ler e pensar sobre o cangaço, movimento que até hoje provoca discussões acirradas. Em dezembro, fui ao Nordeste pela primeira vez e, em Natal, reencontrei os mitos de Lampião e Maria Bonita. Como ocorre em qualquer lugar do Brasil, as representações divergiam: enquanto as principais lojas e os restaurantes típicos destacavam o lado positivo do casal de cangaceiros, inclusive utilizando esses personagens para recepcionar os clientes, os guias de turismo enfatizavam um dos fracassos do líder do cangaço, quando narravam aos grupos de turistas o feito histórico de Mossoró, cidade que resistiu à invasão de Lampião e seu bando. Evidentemente que, em qualquer esquina, as lojas de artesanato vendiam estatuetas, chapéus, ímãs de geladeira e estampas de camisetas… Tudo remetia ao cangaço. Confesso que quase sucumbi à tentação de comprar alguma coisa, mas desisti por causa de uma espécie de convicção. Decidi continuar pesquisando, para saber mais sobre o mito controvertido de Lampião.

Motivada por essa busca que já vem de anos, eis que, quatro meses depois de ter voltado de Natal, optei por escrever um novo texto sobre o cangaço. Para isso, escolhi um livro que estava guardado, à minha espera, desde 2015. Estou falando da obra Lampião & Lancelote, de Fernando Vilela, lançada em 2006 e premiada, em 2007, com o Bolonha Ragazzi.

Na primeira parte do texto, surge o protagonista, Lancelote, que, segundo a lenda, era um dos cavaleiros da Távola Redonda, sob o comando do Rei Arthur. Embora Lancelote tenha se tornado conhecido somente nos séculos XII e XIII, a história dos cavaleiros medievais da Grã-Bretanha data dos séculos V e VI. No texto de Fernando Vilela, Lancelote é apresentado em um poema narrativo e em uma ilustração de página inteira:

Agora vou lhes dizer
Este homem é tão forte
Que mesmo em fogo cruzado
Com o cavalo no pinote
Levanta a cabeça e luta
Espalha bravura arguta
O seu nome é Lancelote. (VILELA, 2006, p. 2)

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Figura 1: Apresentação de Lancelote, no livro de Fernando Vilela (VILELA, 2006, p. 3)

Entretanto, em um crossover, é necessário haver outro personagem. Portanto, para contracenar com Lancelote, o autor escolhe Lampião, que assim é apresentado ao leitor:

Agora eu lhes apresento
Um grande cangaceiro
Nascido em nosso país
Leal e bom companheiro
Para uns foi criminoso
Para outros justiceiro. (VILELA, 2006, p. 8)

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Figura 2: O momento em que Lampião surge na história. (VILELA, 2006, p. 9)

A partir desse momento, o livro passa a utilizar cores representativas das duas épocas e das duas culturas, totalmente distintas. Preto, branco, cinza e prateado identificam Lancelote; enquanto vermelho, ocre, alaranjado e marrom caracterizam Lampião. O encontro do cavaleiro com o rei do cangaço resulta de um grande salto, por meio de um portal, em um cenário dominado pela névoa:

Mas o glorioso cavaleiro não sabia […] que cada passo em direção à neblina misteriosa o levava a um obscuro portal, que rasgava o tecido do tempo e do espaço rumo ao futuro. Após passar pela densa nuvem, Lancelote descobriu-se em um lugar nunca visto. […]. Mesmo assustado com a paisagem desértica, Lancelote continuou cavalgando. (VILELA, 2006, p. 17)

Depois da narração desse turn point, apresentado em formato de prosa, os personagens cruzam as espadas e assumem a palavra, que agora trava um diálogo feito em versos:

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Figura 3: Momento em que Lancelote confronta Lampião. (VILELA, 2006, p. 26)
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Figura 4: Lampião responde a Lancelote. (VILELA, 2006, p. 27)

A luta entre os dois tem início e a oposição acentua-se com o aspecto gráfico do livro. Cores e linguagem delineiam os perfis do cavaleiro e do cangaceiro, apresentando-os frente a frente, pela distribuição das ilustrações nas páginas, que, no livro aberto, formam um só cenário:

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Figura 5: O bando de Lampião (à esq.) e os cavaleiros de Lancelote (à dir.) (VILELA, 2006, p. 32-33)

Em pleno front de batalha, o derramamento de sangue é iminente. No entanto, Lampião abaixou as armas, “sacou sua sanfona” (VILELA, 2006, p. 38) e convidou Lancelote para cantar e dançar um xaxado. Nesse instante, a música une-se à arte literária, em um processo intermidiático, a fim de exaltar a interculturalidade, que, na história, é representada por estes versos:

Oiê muié rendera…
Oiê muié rendá
Tu me ensina a fazê renda
Que eu te ensino a namorá (VILELA, 2006, p. 39)

Essa quadra faz parte do folclore nacional, inegavelmente, mas poucos sabem que foi Lampião quem compôs a letra, com a ajuda de Volta Seca, um dos membros de seu bando (Cf. MELODIAS ANTIGAS, 2019). A canção exalta a diferença, o aspecto relacional e a complementaridade, explicando o final da história:

Quando a poeira baixou
Estava tudo muito estranho
Lampião numa armadura
Que não tinha seu tamanho
E Lancelote trajava
Um uniforme tacanho (VILELA, 2006, p. 38)

Em alguns aspectos, a troca de identidades entre os personagens não chega a ser inusitada. De acordo com Francisco Pernambucano de Mello, autor do livro Estrelas de couro: a estética do cangaço, Lampião e seu bando usavam trajes cobertos de metal, o que se assemelhava a um tipo de armadura: “Certa vez Lampião chegou em uma cidade sergipana, entrou em um armazém e aceitou a proposta do dono do local para pesar toda a roupa e equipamentos que ele tinha pelo corpo. Chegou a quase 30 quilos, isto que ele tirou o fuzil e os depósitos [cantis] de água” (MILAN, 2014). Outra aproximação possível diz respeito ao chamado código de conduta dos cavaleiros, que incluía: religiosidade, proteção aos fracos, amor aos pais e coragem (Cf. PORTO, 2019). Entretanto, embora as versões dos fatos sejam sempre imprecisas e incompletas, não apenas no que diz respeito ao cangaço, mas a qualquer episódio da história mundial, temos informações que, decisivamente, acabam por afastar Lampião do nobre Lancelote. Nesse quesito, o destaque vai para o tratamento que os bandoleiros davam às mulheres e às crianças. “Entre o ódio e o amor, está o caso da pernambucana Sérgia da Silva (Dadá), raptada e violentada por Corisco dos 13 para os 14 anos” (CAVALCANTE, 2019). Além disso, há vários registros de que, quando as mulheres do bando de Lampião engravidavam, eram obrigadas a “dar os filhos para que vingassem sem saber quem eram” (CAVALCANTE, 2019). Em resumo, nas palavras de Ana Mary Cavalcante: “[…] o cangaço caminhava em direção ao passado; as mulheres continuavam dos homens, trocaram uma lei desigual por outra da mesma autoria” (CAVALCANTE, 2019).

Sem dúvida, depois de reler Lampião & Lancelote e pesquisar para escrever este texto, descobri coisas novas sobre o cangaço, que estudo desde 2006, mas, infelizmente, ainda não consegui desfazer a dúvida que me assola sobre Lampião e seu bando. Já li, inclusive, sobre o lado humano de Virgulino Ferreira da Silva (seguindo aquela ideia que Benjamin Abrahão Botto tentou demonstrar, nas fotos e vídeos protagonizados pelos cangaceiros). Mesmo assim, as ações negativas praticadas pelo bando assumem maior peso, em minha perspectiva. Por essa razão, concluo este texto em favor de Lancelote e contra Lampião, porque interpretei a aproximação feita por Fernando Vilela como um modo de obscurecer o lado ruim do cangaço e de Lampião. Nesse processo artístico-literário, Virgulino tornou-se um nobre cavaleiro, que, com empatia e cantoria, anulou as diferenças, enaltecendo o outro e tratando-o como “irmão” (VILELA, 2006, p. 38). Definitivamente, esse perfil parece conjugar uma leitura redutora a certa dose de condescendência. É claro que isso funciona muito bem na história infantil, que apresenta um portal mágico, a bruxa Morgana e até o feiticeiro Merlin, mas, na vida real, prefiro continuar estudando, para consolidar uma visão crítica sobre o cangaço. Decidi que não sou uma fã de Lampião; sou apenas uma simpatizante dos “inquietos que mudam o mundo” (Cf. BAILE, 1997) e uma pesquisadora.

REFERÊNCIAS

BAILE perfumado. Direção de Paulo Caldas e Lírio Ferreira. Brasil: Saci Filmes; RioFilme, 1997. 1 DVD (93 min); son.

CAVALCANTE, A. M. C. O que não mata torna mais forte. Disponível em:

<https://www.opovo.com.br/jornal/vidaearte/2018/07/o-que-nao-mata-torna-mais-forte.html>. Acesso em: 12 abr. 2019.

MELODIAS ANTIGAS. Músicas antigas. Mulher rendeira, a música do famoso cangaceiro Lampião. Disponível em:

< http://melodiasantigas.blogspot.com/2012/07/mulher-rendeira-musica-do-famoso.html>. Acesso em: 12 abr. 2019.

MILAN, P. A moda de Lampião. Disponível em:

<http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1033232>. Acesso em: 27 mai. 2014.

PORTO, G. Cavalaria medieval. Disponível em: <https://www.infoescola.com/historia/cavalaria-medieval/>. Acesso em: 12 abr. 2019.

VILELA, F. Lampião & Lancelote. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

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Verônica Daniel Kobs

Verônica Daniel Kobs

Pós-Doutorado na área de Literatura e Intermidialidade (UFPR). Professora do Mestrado e do Doutorado em Teoria Literária da UNIANDRADE. Professora do Curso de Especialização em Letras da PUC-PR. Professora do Curso de Graduação de Letras da FAE. Autora do blog Interartes: Artes & Mídias (https://danielkobsveronica.wixsite.com/interartes). E-mail para contato: danielkobs.veronica@gmail.com

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