Crônicas de viagem (1)

Crônicas de viagem (1)
Canal Grande de Trieste ao nascer do sol © (Foto: Filippo Ferraro/Shutterstock)

Esta e as demais crônicas de viagem que comporão a série do Adalberto De Queiroz no Velho Continente datam em um período antes da pandemia que se instaurou no mundo. Divirtam-se!

Trieste, 29 de abril, 2019 – O sol se põe tarde em Trieste nesta primavera nebulosa e fria. Para os nativos, tudo parece ameno, diante do inverno e dos ventos que devem ter enfrentado nos últimos meses. Há uma notável alegria nos que passeiam nas ruas com um pouco menos de agasalhos e que, ao fim da tarde, tomam seus drinks do lado de fora dos bares e cafés.

Estou apenas há algumas horas aqui e sinto a força multicultural da cidade em pequenos gestos, em línguas diversas – o esloveno predominando entre as línguas estrangeiras. Sigo protegido do que para nós brasileiros é tempo frio, mas agradável se o forte vento local, conhecido como “Bora” não resolver soprar com intensidade desde o Adriático para o continente.

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Trieste ao fim da tarde em 2019 (c) (Foto: Beto Queiroz/Acervo Pessoal)

Alguns amigos não entenderam minha escolha por este destino. Explico: minha mulher sempre teve um interesse cultural de conhecer Liubliana, cidade nos Balcãs e muito próxima daqui. Antes, houve a maravilha do filme que fez a cabeça de muitas jovens nos anos 60 – “Sissi, a imperatriz”. Ela, minha mulher, está interessada no caldo cultural da Itália com os países vizinhos (dos Bálcãs).

O leitor saberá mais sobre Sissi na Wikipédia, por exemplo: que ela foi batizada como Isabel Amália Eugénia; em Munique, 24 de dezembro de 1837, e assassinada em Genebra, 17 de setembro de 1898; que foi esposa do imperador Francisco José I e Imperatriz Consorte do Império Austríaco e seus demais domínios de 1854 até 1898.

Sissi era amada nesta cidade, onde teria passado temporadas de veraneio, mas há quem diga que nunca conviveu com o castelo de Miramar. Minha mulher ama a personagem histórica Sissi, como quase todos os moradores de Trieste, principalmente pelo glamour que a vida daquela nobre inspirou a cidade.

Chegamos aqui inspirados pela personalidade de dois escritores: o irlandês James Joyce e o hebreu Ettore Schmitz (cognome literário Ítalo Svevo).

Eles se encontraram aqui, no que seria o endereço da Escola Berlitz de Línguas, onde Joyce deu aulas de Inglês, entre 1906/7 e o entendimento entre eles foi imediato e seguido de uma série de intercâmbios literários que ao longo do tempo levaram a desenvolvimentos interessantes.

Joyce não é nem de longe meu escritor predileto no século XX. Está bem atrás, na fila, encabeçada por Thomas Mann, Elias Canetti, Georges Bernanos, Herman Hesse, etc; mas me provoca e me faz admitir que a diferença é uma boa partida para a leitura. Um amigo muito querido e ficcionista de primeira em minha terra gosta demais de “O retrato do artista como jovem” e falando sobre o tema explicitei minhas restrições ao escritor. Essas criaram uma barreira (não intransponível, mas ainda assim barreira) – não me agrada o socialista Joyce que, como muitos ideólogos, se mostra oportunista; o anticlericalista Joyce muito me desagrada; e o homem lascivo que inspirou o título “Senilidade” (ao amigo Ítalo Svevo) me desafia a olhar meus próprios pecados.

Li Joyce sob a lupa de seus intérpretes: Augusto de Campos, Paulo Leminski, e agora Galindo, mas me falta a leitura de Dirce W. do Amarante, que muito me interessa por ser um sobrevoo sobre todas as versões.

Gosto muito de “Os exilados” uma peça de teatro quase impossível de ser montada, segundo os especialistas, e que tanto diz dos erros e acertos de Joyce e Nora na fuga para a Itália, sem o aval dos pais para o matrimônio tradicional – ele não aceitava, como anticlerical que era, que alguém desse a “benção” à sua união com a melhor pessoa que passaria pela vida dele – a esposa Nora Bernacle.

Sem Nora, Joyce seria ainda mais infeliz, com ou sem a filha “louca”. Caetano Galindo fala sobre isso numa nota de uma tradução extraordinária de “Os mortos” (e outros contos) que fez recentemente. Sabe-se que a vida sem Nora teria sido uma desgraça para o autor do “Retrato” e de “Ulysses”, este catatau quase ilegível para a maioria dos amantes da literatura do século XX.

O problema de Joyce é o de quase todos os prolíficos do século passado (Musil, Proust, Mann, Broch, Thomas Pynchon e tutti quanti). São ilegíveis hoje pela massa apressada e acostumada aos 140 caracteres da expressão das mídias sociais, mas mesmo por leitores experientes que abandonam as obras no meio da jornada.

Para mim, a leitura de obras de Joyce nunca representou um problema, a não ser quando me lembro de Paulo Francis dizendo que um sujeito como Antonio Houaiss jamais poderia se habilitar a traduzi-lo. Fui muito influenciado por Francis para ter que esperar por mais de três décadas pela tradução de Caetano W. Galindo. Ainda hei de ler o Ulysses inteiro e não por partes, como fiz. Por ora, sou um viajante interessado no percurso de Joyce em Trieste.

Hoje, vi o mar Adriático, ao fim da tarde, tendo às costas a Igreja de Santo Antonio Taumaturgo e o Grand Canal e pensei em quanto me interessa o trabalho de um jovem tradutor de Joyce no Brasil, o talentoso Caetano W. Galindo está interessado em algo mais, além do glamour de ser tradutor de Joyce e gerou uma espécie de “leitura guiada” do Ulysses, admitindo em entrevista[1] que:

Ele [Joyce] mudou a minha vida, como leitor, como professor, como tradutor, como pessoa mesmo. Tenho grande amor (desculpa a palavra brega) por ele, por seus personagens, por suas obras. E gosto demais de ser “reconhecido” como alguém ligado ao trabalho de divulgação da obra dele no Brasil. Me orgulha demais ter produzido uma tradução do “Ulysses”, uma de “Um retrato do artista quando jovem”, uma de “Dublinenses” (que sai este ano) e, claro, o guia de leitura “Sim, eu digo sim”… e ter produzido assim uma espécie de via de acesso, completa, a esse romance incrível.

O livro do jovem e talentoso tradutor é um guia confiável, que pode ser lido antes, durante e depois da viagem que o leitor fará às mais de mil páginas do Ulysses de Joyce. Sendo um guia confiável, Galindo se informou mais aprofundadamente, como aquele que sabe tudo sobre um museu, uma igreja, e pode dar aos visitantes toda uma série de informações que eles só teriam se tivessem lido todos os livros que o camarada leu em seu treinamento.

Este passeio pelo “Ulysses” tem advertências do tipo: “preste atenção naquilo ali”; “percebeu como aquilo é bonito?”; “sabe por que aquilo é daquele jeito?”. A ideia foi a de dar ao maior número de pessoas o maior acesso possível a um livro infinitamente denso, rico” — diz Galindo – conforme entrevista ao jornal O Globo[2].

Bem, amigos, volto ao assunto em breve, depois do repouso merecido após este dia intenso de Pádua a Trieste. – Sim, eu também digo sim à pesquisa e ao entendimento dos exilados Nora e James, aqui em Trieste. À dopo.


[1] GALINDO, Caetano W. Entrevista a Léo Prudêncio, cf. link consultado em 13/04/2021 https://www.literaturabr.com/2017/04/11/entrevista-com-caetano-w-galindo/

[2]GALINDO, Caetano W. Entrevista, cf. link consultado em 13/04/2021 https://oglobo.globo.com/cultura/livros/uma-visita-guiada-por-caetano-galindo-obra-de-james-joyce-18955574


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Adalberto De Queiroz

Adalberto De Queiroz

Adalberto de Queiroz, 66, natural de Goiânia, é empresário e jornalista por formação (UFG), Bacharel em Comunicação Social (URGS). Autor de "Os fios da escrita" (Ensaios literários), Edit. Mondrongo, 2020, entre outros títulos. É membro da Academia Goiana de Letras. E-mail.: betoq55@gmail.com

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