A criança, o adulto e o cancelamento literário

A criança, o adulto e o cancelamento literário

As pautas atuais viraram discussão literária e motivo de cancelamento, caso os autores do passado não visitem 2021 e todos os seus questionamentos e preocupações. Vamos pegar o trem entre um século e outro? Afinal, só somos o que nos tornamos hoje porque aprendemos com o ontem, e lá, o cancelamento ainda não havia nascido.

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Em tempos de relações cada vez mais virtuais e rarefeitas, o conceito de cancelamento, em alta nos últimos anos, expande-se e faz-se notório entre redes,  ambientes e linhas também. Principalmente para pessoas públicas, excluir e sobretudo ser excluído do meio social é um fantasma que ronda, a presença de uma ameaça constante. Mostrar a própria face, atitude que deveria ser natural, e é para qualquer criança, neste momento precisa ser um passo muitíssimo cuidadoso. Contudo, a criança e o adolescente cancelam? E na literatura é possível que um autor seja cancelado?

Em 2012, auxiliando a organização do primeiro projeto de incentivo à leitura em meu local de trabalho, abrimos uma votação para a escolha do nome da biblioteca a ser reinaugurada na ocasião.  Os alunos sugeriram nomes, votaram, e ao final do processo, o nome vencedor foi Monteiro Lobato (1882-1948), grande nome da literatura infantil e fundador da Editora Monteiro Lobato, primeira editora nacional. Esse nome a biblioteca carregou durante as gestões que vieram posteriormente e carrega até os dias de hoje.

Agora, decidiu-se, sem deliberação, cancelar o polêmico autor paulista e grafitar nas paredes do ambiente público e democrático outras personalidades da literatura nacional. Outras, menos o patrono. As crianças e adolescentes que participaram do processo de escolha do nome e organização da biblioteca já tiveram seu período de ligação com a unidade escolar encerrado, devido o tempo passado, então seria possível que até mesmo fosse aberto outro processo de escolha.

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Polêmico, contestado e grande escritor Monteiro Lobato é, até hoje, tema de grandes discussões nas rodas literárias na Academia. (Foto: Acervo Instituto Monteiro Lobato)

Porém, em um ambiente que deve ser voltado à discussão, pensamento crítico e à democracia, as escolhas dos membros dessa comunidade escolar devem ser levadas em conta e sempre consideradas uma oportunidade. Oportunidade de mostrar a esses membros que nosso olhar respeitoso (e infelizmente recente) para pautas atuais, como o racismo, não é o olhar presente e predominante nos séculos dezenove e vinte, tempo em que nasceu e viveu o autor, homem de um período de transição entre escolas literárias e sincretismo estético.

Período esse em que as ideias de embelezamento e higienização, sem falar em leis que sempre desfavoreceram negros e mestiços, eram a regra. Não era Lobato o racista. Eram todo o pensamento e preconceito de uma época que ainda hoje teima em nos assombrar. Isso precisa ser evidenciado e principalmente aprendido.

Há sim, os inúmeros estereótipos (eu mesma já fiquei horrorizada diante da leitura parcial de sua biografia) e, ao mesmo tempo, há em sua obra, personagens que permeiam o imaginário infantil sendo muitas vezes, e durante décadas, os primeiros grandes e inesquecíveis amigos do jovem leitor. Personagens que saíram dos livros, ocuparam o espaço da TV desde 1960 e são vastamente conhecidos pelas gerações mais jovens.  Será que dá para cancelar o famosíssimo Sítio do pica pau amarelo? A mim, bastou uma palavra para que eu compreendesse o distanciamento entre o meu olhar de hoje e o momento em que se deu o retrato apresentado.

A literatura sempre constituiu registro importante do momento histórico em que é produzida, e através dela temos acesso a um rico panorama social. A arte é extensão da vida ( particular e pública) e o texto é o mais límpido espelho diante do qual nos desnudamos sem pudor. Nela não cabe cancelamento, assim como não se anula uma escolha feita democraticamente. A criança/o adolescente sabem disso, e por isso convivem muito melhor do que as gerações anteriores com ideias que são divergentes das suas.

Não sei se o polêmico autor racista terá seu nome e a inegável importância de sua obra reconhecidos em meu ambiente de ensino e aprendizado, todavia, obras não se apagam e tão pouco se cancelam. São lidas de dentro e para fora. Se atravessam séculos, elas devem sim ser conhecidas e principalmente entendias à luz de sua época, para além do momento de hoje. Isso é literatura: O grito de um instante ecoando por instantes futuros. Por que naquele período se pensava em higienização? Por que o racismo se mostrava tão forte?

O respeito exigido deve ser em mesma medida o respeito dado. Façamos como as crianças e escolhamos Monteiro Lobato. Reconheçamos a importância de sua literatura e as ideias tão diferentes das nossas por trás de suas linhas. Para pensar o nosso tempo e os anteriores, em vez de cancelar, vamos trazer o homem/escritor à roda para discutir sua estética e principalmente maneira de pensar? O cancelamento não é pedagógico. Você pode substituir por apresentar e aproveitar para discutir racismo estrutural, por exemplo.


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Charlene França

Charlene França

Mestre em Literatura brasileira, professora dos ensinos fundamental e médio da Rede Estadual de ensino, amante de gatos e autora dos livros: Diversus devaneios do cotidiano, Ao pé do ouvido, Sinestesia e Brevíssimos. Membro da Alto ( Academia de Letras de Teófilo Otoni ) e finalista do Prêmio baixada 2016.

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