Em qual rua nossa vida resvala?

Em qual rua nossa vida resvala?

Os fatos mais banais e mais corriqueiros, justamente aqueles que são os fundamentais geradores de tudo o que se pode saber e dizer sobre a vida e sobre o outro, quase sempre vêm da rua.

A protagonista das histórias de autores como o carioca João do Rio, que dedicou a ela tantas linhas, dama tão rica e de valor despercebido aos desatentos, vive do olhar dos observadores, hoje tão comprometido e limitado. A obra do escritor possui cinco partes, a rua, inúmeras.

Ela é a principal testemunha das conversas mais sinceras, dos olhares perdidos e cheios de esperança, dos beijos ardentes, dos atrasos, confidências, enganos e escassez. Sua alma é encantadora (e bem antes do início do século vinte) e evidencia além de transformações ao longo do tempo, a desigualdade e a diversidade captadas apenas por aqueles que são habilidosos em segurar a sua mão e esmiuçar suas entrelinhas.

O cronista, o repórter, o mendigo, o flâneur. Sob as lentes de quem a explora e sente, essa musa celebrada finalmente pode desnudar-se e fazer-se encontrar. Certa vez, após fazer uma refeição com uma desconhecida (que sentia medo de andar sozinha pela rua do Riachuelo) e contar a ela alguns dos meus planos futuros, percebi o quanto é necessário o transitar e o assistir. Da mesma forma, as conversas de bar, as reflexões sobre literatura e estética, sobre a vida e sob a lua, seguidas do retorno para casa, de trem, ouvindo histórias anônimas e alheias. No momento de recolhimento e isolamento, até para os mais intimistas como eu, a escrita se viu carente da rua.

As brigas, as manchas de sangue deixadas no asfalto após um acidente, as músicas altas em duelo, as páginas amarelas que fogem rebeldes do latão de lixo, o cão que dorme solitário, o gato sobre o muro, leve como uma bailarina experiente, a coberta suja na calçada, a opinião formada de quem para diante da banca de jornal. Ela é anterior a nossas divagações e impõe à nós seus contrastes e grandiosidades mínimas. É capaz de nos nutrir, basta olhar para fora.

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João do Rio, pseudônimo de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto foi um jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo brasileiro. (Imagem: ABL/Reprodução)

Também acredito muito que, “Talvez que extinto o mundo, apagados todos os astros, feito o universo treva, talvez ela ainda exista, e os seus soluços sinistramente ecoem na total ruína”, não só no Rio de Janeiro e na escrita andarilha de João do Rio, mas de um polo a outro de nós mesmos, sem que seja preciso imaginar como seria se ela fosse nossa, sabendo que, asfalto roçando asfalto, a nossa pele irá sempre cobrir sua superfície e ela sempre irá sorrir para os pés que a tocam, sem pedras de brilhantes e sem reter o amor que passe.


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Charlene França

Charlene França

Mestre em Literatura brasileira, professora dos ensinos fundamental e médio da Rede Estadual de ensino, amante de gatos e autora dos livros: Diversus devaneios do cotidiano, Ao pé do ouvido, Sinestesia e Brevíssimos. Membro da Alto ( Academia de Letras de Teófilo Otoni ) e finalista do Prêmio baixada 2016.

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