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As teorias da conspiração comprovam o gosto geral pela ficção

Puxando aqui pela memória – que pode estar me enganando – acho que desde a ida do homem à lua, as teorias da conspiração tomam

Puxando aqui pela memória – que pode estar me enganando – acho que desde a ida do homem à lua, as teorias da conspiração tomam conta das versões oficiais dos acontecimentos. Isso é o que consigo resgatar de forma mais intensa, porque é óbvio que o gosto pela ficção é de tempos remotos. Não vim aqui falar da Ilíada de Homero, nem das Mil e Uma Noites. Trago pinceladas sobre o mundo moderno – na minha concepção de moderno. O que separa o que é mentira com más intenções das histórias que contribuem para o folclore e a cultura regional?

No início do século XX, a maioria da população carioca demonizava a vacinação. Em plena terceira década do século XIX, voltaram a confiar em teorias de que a vacinação serve para controle populacional e disseminação de doenças – e chips. É uma tragédia científica da moral. Tem gente até hoje aguardando a fatura do Orkut, do Facebook e do Whatsapp que, segundo afirmações, serão pagas.

O problema é esse limiar entre amor e ódio, irmãos quase siameses que levam ao orgasmo ou à tragédia. Recentemente uma série de boatos sobre sequestros de crianças levaram à morte dois homens em Acatlán, em Puebla, no México¹. Uma sequência bizarra que envolve a invenção de um crime, a animosidade com quem vem de fora e o gosto pela justiça a qualquer custo.

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O principal disso tudo é o prazer por narrativas engenhosas. Os paradoxos em torno da morte de Tancredo Neves, o assassinato de John Kennedy – este alimentado por diversos programas de gosto duvidoso e circense exibidos em canais pelo mundo -, a mitologia em torno da morte de Elvis Presley, assim como na de Michael Jackson. Todas teorias que passariam pelo crivo do humor em um mundo mais racional. Mas, te pergunto, quem quer ser racional?

Ouvi muito falar que há algo diabólico quando alguém escuta o disco da Xuxa ao contrário. Hoje, com streaming, essa história de terror infantil teria que se reinventar. Também ouvi falar muito (e essa sim é mais tratada com humor) que metade da população do planeta é reptiliana². Se você não sabe do que se trata, bom, te considero na metade que não é. Aliás, nós reptilianos temos de ser mais unidos, né?

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As teorias da conspiração comprovam o gosto geral pela ficção
(Foto: PropMark/Divulgação)

Na metade dos anos 2000 frequentei o curso de Comunicação Social com ênfase em Jornalismo. Estudei, provavelmente, em Teoria da Comunicação, o caso da Escola Base³. Em 1994, a escola particular situada na capital paulista foi cenário de um suposto caso de abuso sexual contra alunos de quatro anos³. Os proprietários Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada foram acusados de praticarem o crime. O problema é que os jornalistas reproduziram informações erradas cedidas pela polícia e não fizeram qualquer apuração. Embarcaram na ojeriza e na instantânea vontade de praticar justiça.

Foi comprovado que os proprietários eram inocentes, mas era tarde. A história repercutiu em veículos grandes, como Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Globo, SBT, Veja e Record. Por causa da revolta que a notícia causou, a escola fechou as portas. O inquérito acabou sendo arquivado por falta de provas. Os donos da Escola Base entraram na Justiça com processos contra a imprensa, e o caso até rendeu um livro-reportagem, “Caso Escola Base: os abusos da imprensa”. Alex Ribeiro, o autor, ganhou o Prêmio Jabuti por esse trabalho.

O fato é que teorias da conspiração retratam o gosto geral pela ficção. Uma história bem contada é muito mais deliciosa que uma verdade simplória. Por isso as novelas, os filmes, os livros e as séries fazem tanto sucesso. Por isso, na minha infância, aquela minha vizinha de frente ficava na esquina buscando suas histórias tão elaboradas.

A arte existe porque a realidade não basta, dizia Ferreira Gullar. Eu, como escritor, faço variações da realidade para causar sensações de inquietações, debates profundos, revolta, conforto e registro. Faço de forma profissional, com estudos e honestidade. Tomo o maior cuidado com a escolha de palavras, de impactos. Não sei o que separa a teoria da conspiração desse estrangeirismo chamado “fake news”. Mas eu sei o que separa a fantasia da realidade: o caráter. Passe por esse filtro tudo que vier, seja sensato. A partir disso, haverá um pouco mais de vida ao invés de morte. Afinal, gostar de uma boa história não deveria fazer mal a ninguém.


Notas do editor sobre as teorias da conspiração no texto:

VOCÊ PODE GOSTAR DE LER: Mundus Imaginalis, ou o imaginário e o imaginal, de Henry Corbin
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