Nova Iguaçu dos escritos: a cidade ruído

Nova Iguaçu dos escritos: a cidade ruído

Você conhece o município de Nova Iguaçu/RJ? Esteja atento ao barulho das ruas.

Andar pelas ruas de Nova Iguaçu é integrar-se inevitavelmente aos diferentes sons e à melodia estridente das conversas, músicas, anúncios feitos por carros de som, gritos dos vendedores e dos veículos que correm apressadinhos pela Via Light, junto aos passantes igualmente agitados e barulhentos. Pense em um lugar em que somos só sonoridade!

Entretanto, na comunicação, o ruído é um impedidor de que cheguemos aos braços do nosso interlocutor juntamente com nossa mensagem, que é sempre urgente.  Comunicação é aproximação e é justamente o que nos tira da ilha de nós mesmos, fazendo com que aconteça um dos mais interessantes milagres da vida: o entendimento. Em Nova Iguaçu, fazer-se entender é sempre um exercício, no texto e fora dele.

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E já senti muitas vezes na pele, e nos ouvidos, o efeito do acúmulo desses ruídos. Na ocasião da publicação do meu primeiro livro, em 2012, agendei o lançamento na livraria Nobel e, com tanta alegria e ansiedade, após alguns dias, recebi da editora os convites impressos informando o dia e o horário do evento para que eu os repassasse aos convidados.  A gente nem sonhava em estar preso às telas e todo cumprimento, abraço e reunião era cara a cara mesmo. O espaço virtual era apenas um facilitador e era exclusivo para a conexão com a distância e com a saudade. Tempos que não sabíamos que eram tão bons! O livro trazia narrativas e poemas repletos das vozes de dentro e de fora. Ele mesmo era a rua entre ruídos e ruptura.


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Com tudo organizado, e depois de todo o trabalho que envolve a organização e divulgação de um livro, passei pela livraria para acertar os detalhes da noite de lançamento. O gerente me informou então que havia esquecido de um detalhe: Todos os funcionários estariam envolvidos em um outro evento fora da loja  e por isso, não haveria ninguém no local na data marcada para que o lançamento fosse realizado. Entre o “eu esqueci de avisar” e a procura de um novo local para a noite de autógrafos passaram-se alguns dias e muita tensão.

Mas há males que vêm para o bem, já diziam os antigos. Algum colega de trabalho me indicou a Casa de Cultura para que o lançamento acontecesse. Fui prontamente atendida, bem recebida e, tirando o transtorno de precisar avisar aos convidados a mudança de local, foi tudo perfeito, inclusive com a presença do secretário de cultura e com a descoberta de que eu sou uma autora iguaçuana. Pois é! Sempre morei no Rio e vivi de travessias, tanto que havia esquecido de que nasci em Nova Iguaçu. Aquela noite foi repleta de barulho, de brindes e poesia declamada para comemorar.

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E dali por diante e desde sempre, os ruídos somente acumulam-se. Refrigerante entregue duas vezes, antes e depois da pizza, a necessidade de chamar o uber porque as linhas de ônibus não dão as caras no domingo à noite e ninguém é avisado. A necessidade de avisar ao uber que o endereço está certo, mas ele me deixou no condomínio errado. E ainda chamar outro uber porque o solicitado não quer fazer o trajeto indicado pelo GPS. Voltar de Nova Iguaçu debaixo de uma baita chuva e pagar um valor mais caro ao uber, sem discutir, porque a companhia e um belo sorriso atencioso fizeram o bolso chorar menos.

Enfim, para estar em Nova Iguaçu é preciso ser barulho que se destaque entre tantos outros. Ser grito e ser música alta. É preciso ter o talento diário de fazer-se encontrar, ler e ouvir.


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Charlene França

Charlene França

Mestre em Literatura brasileira, professora dos ensinos fundamental e médio da Rede Estadual de ensino, amante de gatos e autora dos livros: Diversus devaneios do cotidiano, Ao pé do ouvido, Sinestesia e Brevíssimos. Membro da Alto ( Academia de Letras de Teófilo Otoni ) e finalista do Prêmio baixada 2016.

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