O Dragão Adormecido – Comentários finais sobre “O Romance dos Três Reinos” – parte 3

O Dragão Adormecido  – Comentários finais sobre “O Romance dos Três Reinos” – parte 3

O lamento de Walt Whitman em “O Captain! My Captain!” jamais perde a força de comover nosso coração, é o lamento pela perda de um líder verdadeiro do povo, a expressão pura do sentimento de orfandade de uma nação. Semelhante ao lamento de Whitman foi o choro de Doi Bansui, poeta japonês moderno, mas que expressou a tristeza da perda de um herói que viveu há quase dois mil anos: Zhuge Liang, o maior dos personagens do período dos Três Reinos na China.

Estrelas caem em meio ao vento outonal na Planície de Wuchang
Doi Bansui
(tradução livre de William Passarini)

Sopra o vento outonal tristemente no Monte Ch’I,

Nuvens sombrias reúnem-se no campo de batalha da Planície Wuchang,

Frequentes são as notícias de derrota, manchadas com lágrimas,

Mesmo embora corcéis estejam fartos com relvas secas

O estandarte do exército Shu perdeu seu brilho,

Tambores e cornetas agora quedam silenciosos.

Pois o Primeiro-Ministro está mortalmente enfermo

Pois o Primeiro-Ministro está mortalmente enfermo


Nunca se esqueceu, adormecido ou desperto,

Das palavras finais do falecido Imperador,

Com seu coração em chamas devotou sua vida

Por muitos anos no comando da guerra exposto às intempéries,

Agora permanece o som da chuva sobre as folhas caídas;

Deve a grande árvore desabar finalmente?

Que destino aguardará a Casa do Han?

Pois o Primeiro-Ministro está mortalmente enfermo


Ondas turbulentas que percorrem o mar ainda não cessaram,

Oh! Os céus choram enquanto o povo sofre;

Quando virá a primavera da paz,

Onde as mentes estão descuidadas como num sonho?

A batalha dos senhores da guerra tem de ser estabelecida e decidida,

O desejo de reinar sobre as Planícies Centrais continuou com pressa,

Quem terá a habilidade de apoiar e ensinar o governante?

Pois o Primeiro-Ministro está mortalmente enfermo


Ai! A cabana de palha em Nanyang,

Desfez-se há vinte anos,

Onde o sonho estava em conforto e paz,

Onde a fama tarda, a ambição é abandonada, o coração de reclusão

Misturando-se com agricultores

Tendo grandes habilidades para guiar o governante e administrar o país,

Ainda assim esperando humildemente e lamentando a situação,

Pois o Primeiro-Ministro está mortalmente enfermo


Quem disputaria o sucesso ou a derrota

Do homem real que doou sua vida?

A estrada aérea da Via Láctea nos céus sombrios

Enquanto incontáveis estrelas brilham

Está iluminando o coração do herói

Angustiado e solitário, mas ainda real;

Movido por sua coragem

Mesmo um demônio derrama lágrimas no vento outonal


Na ruína da noite de outono na Planície Wuchang

O vento uiva e o orvalho lacrimeja,

Límpidas são a Via Láctea e as estrelas elevadas

Envolvidas em tons místicos,

Céu e Terra cintilantes,

Miríades de pensamentos preenchem nossos corações.

Milhares de anos passaram-se até agora e ainda permanece

O renome de Zhuge Liang

O renome de Zhuge Liang


Por muitos anos Zhuge Liang viveu isolado, afastado das agitações ilusórias do envolvimento social, vivendo quase como um eremita na sua humilde cabana de palha. Durante esse tempo, dedicou-se aos mais variados campos de estudo de sua época: arte da guerra, filosofia, poesia, literatura, ocultismo. Mas aos poucos, sua fama começou a se fazer ouvir pelos vizinhos e até mesmo por todo o país. O jovem sábio eremita foi então apelidado de “o dragão adormecido”. O dragão que aguardava um mestre, aguardava um líder político verdadeiro.

Mas logo a fama do jovem sábio chegou nos ouvidos dos três irmãos jurados, Liu Bei, Guan Yu e Zhang Fei. Nessa época Liu Bei, apesar de sua extraordinária habilidade e de sua sinceridade, enfrentava derrotas atrás de derrotas. Após se consultar com o velho Su Su, ele entendeu que o que lhe faltava era um estrategista, e é então que lhe vem à mente “o dragão adormecido”.


Mas como foi difícil despertar o sábio dragão… Liu Bei precisou passar por um processo de ascese, uma verdadeira metanóia. Na sua primeira viagem à casa de Zhuge Liang, o sábio não estava, havia viajado, sabe-se lá para onde. Na sua segunda viagem, em meio a uma tempestade de neves, a esperança florescia aguardando o encontro, mas o que lhe restou foi a decepção, o sábio mais uma vez não estava. Mas Liu Bei compreendeu que a verdadeira batalha era consigo mesmo, e não desistiu apesar das reclamações de seus irmãos. Na terceira vez, finalmente Liu Bei se encontraria com o sábio, mas este estava… dormindo. Liu Bei aguardou mais três horas, até que Zhang Fei impacientemente acordou o dragão.

Liu Bei, então frente à frente com Zhuge Liang, lhe implorou que fosse seu estrategista em prol da restauração do Han. Zhuge Liang então compreendeu que finalmente encontrou o verdadeiro senhor a quem servir, e sem mais adendos aceitou lutar ao lado de Liu Bei. É nesse momento que Zhuge Liang apresentou o famoso Plano Longzhong.

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Aos poucos foi se estabelecendo a imagem de uma plasticidade artística: Zhuge Liang possuindo sempre seu leque característico, e sempre participando das batalhas carregado numa liteira.

Zhuge Liang foi um dos maiores sábios que já pisaram neste planeta. Seu domínio dos mais variados campos de estudo confundia inimigos e aliados. Seu domínio sobre as ciências ocultas e sutis estremecia a todos.

Certa vez, vítima de maquinações mesquinhas de um general aliado, precisou resgatar em dez dias milhares de flechas, mas se não o conseguisse iria cumprir pena capital. Impressionantemente Zhuge Liang disse que lhe bastava apenas três dias. Conhecedor como ninguém das sutilezas do clima, enviou dezenas de barcos preenchidos com palha em direção à fortaleza de Cao Cao, seu inimigo. O tempo estava nublado. Cao Cao ao ver a frota de seu inimigo em sua direção, imaginou tratar-se de um ataque surpresa, e assim ordenou que lançassem flechas contra a frota do inimigo. Em pouco tempo os barcos estavam lotados de flechas, em uma quantidade bem maior que a requisitada. Assim, Zhuge Liang retornou com as embarcações, e com as flechas necessárias.

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Ele era um profundo conhecedor da psicologia humana, e venceu muitas batalhas com psicologia reversa. Certa vez, sem recursos para vencer um inimigo que lhe preparava um ataque iminente, esvaziou sua fortaleza, ficou sozinho na entrada apenas tocando sua cítara. Se o inimigo realizasse o ataque não haveria nenhuma oposição. Mas, na entrada, o inimigo, ao ver Zhuge Liang calmamente tocar a cítara, imaginou tratar-se de uma armadilha e desistiu do ataque. Zhuge Liang vencia assim a batalha sem a necessidade da luta física.

Zhuge Liang foi, sem dúvidas, uma espécie de Leonardo da Vinci chinês. Ele inventou ou melhorou vários instrumentos, como a lanterna chinesa Kongming, o boi de madeira (que diziam mover-se sozinho), a mina terrestre, a besta. Além disso foi escritor de livros vários sobre a arte da guerra.

Zhuge Liang sempre permaneceu fiel a Liu Bei, até no último dia de seu senhor, e mesmo depois ao cumprir sua promessa de cuidar do filho de Liu Bei, que sucederia ao pai no governo. Numa das batalhas, quando Liu Bei ainda estava vivo, a famosa Batalha dos Penhascos Vermelhos contra Cao Cao, Zhuge Liang obteve a mais extraordinária de suas vitórias. Profundo conhecedor do taoísmo, do I Ching, do Baguá, ele previu que seria possível uma mudança da orientação dos ventos, a única coisa que se acontecesse poderia derrotar Cao Cao. Mas para a mudança dos ventos, seria necessária a realização de um ritual. E assim foi, Zhuge Liang liderou um ritual que produziu a mudança dos ventos e a vitória sobre Cao Cao.

Muitos mistérios pairam sobre esse mestre chinês, um outro muito famoso foi sua criação do Labirinto Sentinela de Pedra, um labirinto construído com proporções ocultistas que quando o inimigo o adentrava era levado a um mundo misterioso, entre sonho e fantasia, e sendo impossível achar a saída, o que lhe restava era a morte.

O conto do sábio chinês termina aqui, e assim os comentários sobre uma das maiores obras da literatura mundial. E novamente acordamos do sonho, com a dúvida da distinção entre o real e a ficção ainda nos acompanhando, se é que realmente há essa distinção… 

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William Passarini

William Passarini

Formado em Artes Cênicas pela UNICAMP, estudante de poética e filosofia.

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