Pollyanna é baseado em Anne com um ‘E’?

Pollyanna é baseado em Anne com um ‘E’?

Recentemente li um clássico que eu não esperava ler tão cedo: Pollyanna, da autora Eleanor H. Porter. O livro foi publicado nos Estados Unidos, pela primeira vez, em 1913. A obra conta a história de uma garotinha órfã que vai viver com a tia rica em uma bela casa no campo, sendo a melhor parte, a personalidade forte e o otimismo da protagonista.

Enquanto fazia a leitura, como uma grande fã da série canadense “Anne com um ‘E'” (Anne with an ‘E’), eu não pude deixar de notar várias semelhanças entre as duas histórias. Inclusive, até pensei que os roteiristas da série poderiam ter se baseado em Pollyanna, o grande sucesso de Eleanor H. Porter, mas aí descobri que, na verdade, Anne é baseado em uma série de livros chamada “Anne de Green Gables”, escrito pela autora Lucy Maud Montgomery e que foi publicado em 1908, ou seja, cinco anos antes da publicação de Pollyanna. Portanto, Pollyanna poderia ter sido baseado em Anne de Green Gables e não o contrário.

anne capa - Pollyanna é baseado em Anne com um 'E'?
Anne with an ‘E’ é inspirado em “Anne de Green Gables”, série de livros escrita por Lucy Maud Montgomery . (Imagem: Elfo livre)

Levando a série televisiva como embasamento, uma vez que não li a série de livros, listei algumas semelhanças entre Anne e Pollyanna para que possamos perceber o quão parecidas são as histórias em seus enredos gerais.

As duas personagens são órfãs e são adotadas: Pollyanna perde a mãe e o pai, mas chega a conhecer o pai, sendo adotada pela Tia Polly. Anne perde a mãe e o pai, não conhece nenhum deles e é adotada, por acidente, por um casal de irmãos.

As duas personagens vão viver em casas no campo e ficam felizes por isso: Pollyanna fica muito feliz quando descobre que sua Tia Polly vive em uma bela casa no campo. Anne também deixa claro que está admirada e feliz por saber que vai viver em uma grande e bela casa no campo com os irmãos que a adotaram. Nesse aspecto, eu não pude deixar de notar um viés do romantismo, tendo em vista que a natureza e o belo trazem felicidade por conta do escapismo. Por isso, ambas as personagens ficam radiantes ao entrarem em contato com esses ambientes que proporcionam, sobretudo, espaço para a imaginação e a brincadeira.

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Capa de Pollyanna, escrito por Eleanor H. Porter e publicado pela Editora Autêntica. (Imagem: https://bit.ly/2wQGalv)

Ambas não gostam de suas aparências físicas: Pollyanna é loira e cheia de sardas. Anne é ruiva e cheia de sardas. As duas personagens não são satisfeitas com a cor dos seus cabelos e com as sardas. Em vários episódios da série, Anne chega a chorar por conta de sua aparência, tentando até pintar o cabelo de preto. Pollyanna também gostaria de ter o cabelo preto: “— Ah, adoro cabelo preto! Ia ficar tão contente se ao menos o meu fosse dessa cor — a menina disse, suspirando” (p. 54). Antes, nessa mesma cena, ela até comenta que era melhor ter deixado a luz apagada, pois assim ninguém poderia ver as sardas dela.

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Pollyanna e Anne são muito otimistas e amam estar vivas: o que faz os telespectadores e os leitores sentirem uma grande aproximação e um grande carinho pelas protagonistas, é que tanto Pollyanna quanto Anne, são extremamente otimistas, positivas e têm uma visão de mundo que normalmente ninguém tem. Elas veem coisas boas em qualquer situação. Elas veem beleza nas pequenas coisas. Elas são detalhistas e observadoras, procurando felicidade em tudo, sentindo-se felizes pelo simples fato de estarem vivas. Pollyanna, em especial, ainda usa o Jogo do Contente, um jogo que o pai dela a ensinou, que consiste em pensar em um motivo para ficar contente diante de qualquer situação, não importa o quão ruim ela seja. Anne demonstra algo parecido em relação às outras pessoas e à natureza: ela fica feliz por ter visto uma árvore bonita, um cavalo veloz ou, até mesmo, por ter elogiado uma pessoa.

Tagarelas, curiosas e imaginativas: Pollyanna e Anne falam demais e vários personagens dizem isso a elas. Por conta de toda essa energia, acabam sendo também muito curiosas e se metendo onde não são chamadas, descobrindo coisas que fazem o enredo andar de modo mais emocionante e problemático. Anne ama ler e imagina ser uma princesa ou uma rainha em um reino natural maravilhoso. Ela está sempre inventando personagens, narradores e histórias de amor inesquecíveis. Pollyanna não é muito chegada na leitura, entretanto, ela está o tempo todo fazendo o Jogo do Contente, o que exige que ela imagine um motivo para ficar contente sempre.

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Anne, em Anne with an ‘E’ , protagonizada por Amybeth McNulty. (Imagem: Netflix/Reprodução)

As duas lutam para serem aceitas e conquistam os outros personagens: Anne é adotada por acidente e Pollyanna é adotada por uma tia que a coloca para dormir no sótão. Ambas precisam se esforçar ao longo dos episódios e dos capítulos para serem amadas. Como elas fazem isso? Sendo elas mesmas! Por conta da personalidade diferenciada das duas, elas acabam conquistando vários personagens que estão em volta, incluindo os que as adotaram. Por terem uma visão de mundo tão única, essas protagonistas são capazes de amolecer o coração de todos.

Se você ainda não está convencido, as sinopses não mentem, pois pode-se notar as semelhanças entre as personagens e Pollyanna é até citada na sinopse mais recente de Anne. Deixei em negrito para facilitar:

Pollyanna: Órfã de pai e mãe, Pollyanna, uma menina de 11 anos, é acolhida pela tia Polly, sua única parente viva. Rica e intransigente, a tia é desprovida de compreensão e afetividade, e recebe a menina em sua casa como um dever. Pollyanna, por sua vez, é uma menina encantadora, que a todos conquista com sua paixão pela vida e pelas pessoas, seu otimismo, sua alegria de viver… e o Jogo do Contente, que pratica e ensina a quem quiser aprender. Um jogo em que ninguém perde, todos ganham – e se transformam. Clássico da literatura juvenil universal, publicado em 1913, esse livro vem encantando gerações de leitores de diferentes idades em diversas línguas, tendo se tornado leitura obrigatória e necessária a quem quiser ver a vida sem amargura, descobrindo sempre o lado bom de tudo.

Anne de Green Gables: Quando os irmãos Marilla e Matthew Cuthbert, de Green Gables, na Prince Edward Island, no Canadá, decidem adotar um órfão para ajudá-los nos trabalhos da fazenda, não estão preparados para o “erro” que mudará suas vidas: Anne Shirley, uma menina ruiva de 11 anos, acaba sendo enviada, por engano, pelo orfanato. Apesar do acontecimento inesperado, a natureza expansiva, sempre de bem com a vida, a curiosidade, a imaginação peculiar e a tagarelice da menina conquistam rapidamente os relutantes pais adotivos. O espírito combativo e questionador de Anne logo atrai o interesse das pessoas do lugar – e muitos problemas também. No entanto, Anne era uma espécie de Pollyanna, e sua capacidade de ver sempre o lado bonito e positivo de tudo, seu amor pela vida, pela natureza, pelos livros conquista a todos, e ela acaba sendo “adotada” também pela comunidade. Publicada pela primeira vez em 1908, esta história deliciosa, que ilustra valores fundamentais como a ética, a solidariedade, a honestidade e a importância do trabalho e da amizade, teve numerosas edições, já tendo vendido mais de 50 milhões de cópias em todo o mundo.

E você, já tinha percebido as semelhanças entre esses dois clássicos?

Sara Muniz

Sara Muniz

Sara Muniz, 22 anos, formada em Letras Português-Inglês, criadora e idealizadora do blog Interesses Sutis desde 2014, professora de inglês em tempo integral, escritora, revisora e redatora nas horas vagas. Trabalha para comer, viajar e comprar livros. E-mail: saramunizz@gmail.com

4 comentários sobre “Pollyanna é baseado em Anne com um ‘E’?

  1. Oi Sara! Li o livro Pollyanna quando tinha uns doze a treze anos, é uma história fascinante e tem uma continuação dela com Pollyanna Moça (as traduções que li são da editora Martin Claret). Eu simplesmente amo essas histórias e as acho muito autênticas.
    Recentemente assisti a série Anne whit an e e, eu gostei bastante, fiquei entusiasmada para ler o livro que a inspirou.
    Mas não penso que essas duas obras se relacionem, vejo até como mera coincidência os fatos listados acima. Em suma, as duas obras são autênticas e instigantes à sua própria maneira.
    Ah, meus parabéns a todos da equipe do recorte lírico, os escritos aqui estão cada vez melhores!

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