As mídias, minha avó e eu

As mídias, minha avó e eu
Figura 13: Avó e neta de mãos dadas (Crédito da foto: Verônica Daniel Kobs / 21 mar. 2019)

À minha avó, Olga Nicolak Daniel (In memoriam)

No dia 24 de junho de 2021, perdi minha avó. Aos 93 anos, ela se foi dormindo, por causas naturais, e não de covid-19. Éramos muito próximas e ela também costumava dizer que queria que um vento batesse e nesse momento ela morresse; assim, rápido como uma brisa, que vem e já vai embora. Felizmente, o desejo dela foi atendido… No primeiro mês sem ela, passei por fases distintas e todas elas muito difíceis, claro. Nos primeiros dias, mergulhei no trabalho e nos livros, para manter a mente ocupada e evitar momentos de muita tristeza, apesar de isso ser comum, em qualquer luto.

Foi então que decidi revisitar toda a influência dela na minha vida. Hoje, trabalho com Intermidialidade e por isso surgiu a ideia de tentar resgatar as mídias que ela me apresentou. O resultado foi surpreendente! Há três anos, quando concluí meu pós-doutorado, também decidi rever minha trajetória escolar e acadêmica e percebi que tudo tinha sido traçado ao longo do tempo, com maestria e coerência, embora eu não tivesse consciência disso. No que se refere às mídias, elas são bem abrangentes e compreendem não apenas as artes em geral, mas também variados aparelhos ou suportes e todos os meios de comunicação, incluindo aqueles mais preocupados com as expressões artísticas, os que são puramente informativos e as opções mais voltadas ao entretenimento.

Pois bem… Minha avó, Olga, era costureira e também dava aulas de corte e costura, tricô e crochê em instituições beneficentes. Por isso, eu costumava folhear todas as revistas de moda (Fig. 1) que encontrava, no quartinho de costura dela. Lembro principalmente aqueles exemplares mais antigos, da década de 1970, quando eu era criança. Burda e Desfile nunca faltavam e depois vieram as publicações mais modernas, das quais costumávamos tirar alguns modelos, pois era minha avó quem costurava as roupas que eu usava nos bailes, nas festas e até nas apresentações da escola. Além disso, misturadas às revistas de moda, sempre havia uma ou outra edição da Manchete (Fig. 1), que fez história em nossa cultura e que costumava trazer assuntos variados.

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Figura 1: As revistas de moda Burda, Desfile e Moda Moldes dos anos 1970 e 1980; e a capa de uma das edições da revista Manchete, datada de fevereiro de 1980. Imagens disponíveis em: https://www.enjoei.com.br/revista-burda, https://http2.mlstatic.com, https://moda.culturamix.com e https://3.bp.blogspot.com

Foi com minha avó que tive acesso a leituras improváveis, como Seleções, Almanaque do pensamento e o almanaque Sadol (Fig. 2), um livrinho que vinha com o tônico de mesmo nome (concorrente do Biotônico Fontoura). Na verdade, ela nunca teve aquela postura de imposição, obrigando a leitura. Pelo contrário: minha avó lia sempre, todos os dias — e mais de um livro ao mesmo tempo. Isso permitia que ela conversasse com qualquer pessoa, sobre qualquer assunto.

Depois do almoço, ela arrumava a cozinha, fazia mais alguma coisa na casa e às vezes ia para o quarto. Mesmo que ela fechasse a porta, ela não costumava dormir. Seu passatempo era a leitura. À noite, ela lia mais um pouco: ligava a TV, pegava uma xícara de chá e, enquanto nós assistíamos aos programas, ela ficava ali, com um livro. Então, era assim: ela deixava todos os livros, revistas, almanaques ali, espalhados pelos cômodos da casa. Desse modo, eu lia os mais diversos tipos de texto… Claro que, em outras ocasiões, ela comentava alguma reportagem, lia um trecho de um texto que tinha achado interessante e conversávamos a respeito.

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Figura 2: Outras publicações dos anos 1980: Seleções, Almanaque do pensamento e almanaque Sadol.  Imagens disponíveis em: https://encrypted-tbn0.gstatic.com e https://http2.mlstatic.com

A revista Seleções chegava pelo correio e trazia textos para todos os gostos. Havia crônicas, textos de ufologia, filosofia, experiências de quase morte, notícias sobre fatos inusitados ocorridos em diferentes países, e até mesmo textos literários, como contos e poemas. Quanto ao livrinho do Sadol, de periodicidade anual, ele existe até hoje e é publicado desde 1946 (CATARINENSE, 2021), conforme consta no sitehttps://catarinensepharma.com.br/institucional/almanaque-sadol/. Ficávamos felizes quando saíamos da farmácia com um exemplar na sacola. Era comum sempre haver uma garota bonita na capa. Isso atraía o público masculino. Entretanto, a publicação ia muito além desse caráter mais apelativo, trazendo notícias sobre hábitos de alimentação saudável, prática de esportes e até piadas — estas, aliás, faziam muito sucesso com o público de todas as idades.

O Almanaque do pensamento também era publicado anualmente. Quando eu era pequena ou ainda adolescente, minha avó comprava sempre, pois em dezembro as bancas já ostentavam o novo almanaque, com informações importantes para o próximo ano: previsões para todos os signos, quando plantar, horóscopo chinês, tábua das marés, fases da lua, etc. Minha avó acreditava em tudo isso e felizmente ela me ensinou a crer nas mesmas coisas, porque isso enriqueceu muito meu aprendizado, em todos os sentidos. Quando chegou a certa idade, minha avó mal saía e, por isso, eu garantia que ela tivesse seu almanaque todos os anos. Primeiro ela lia; e depois eu lia também.

Aliás, por causa do tema das previsões, que era o principal destaque do Almanaque do pensamento, um dia resolvi ler para a minha avó o conto “Lamentações de Curitiba”, do controvertido autor Dalton Trevisan. Ela adorou, apesar do conteúdo trágico e funesto. Prestou atenção em cada linha e depois passamos muito tempo conversando sobre o fictício (mas ainda assim terrível) Apocalipse de Curitiba

Os ipês na Praça Tiradentes sacolejarão os enforcados como roupa secando no arame.

De assombro as damas alegres da Dinorá atearão fogo ao vestido gritando nas janelas o fim dos tempos.

No rio Belém serão tantos os afogados que a cabeça de um encostará nos pés de outro, e onde a cachaça para mil e um velórios? 

[…]

A espada veio sobre Curitiba, e Curitiba foi, não é mais.
Não tremas, ó cidadão de São José dos Pinhais, nem tu, pacato munícipe de Colombo, a besta baterá voo no degrau de tuas portas. Até aqui o juízo de Curitiba. (TREVISAN, 2021)

Outra mídia que minha avó me apresentou bastante cedo foi um livro muito especial: a Bíblia. Era um exemplar bem antigo, com partes da capa faltando, mas que tenho até hoje, pelo fato de aquela Bíblia ter pertencido ao meu bisavô Max. Na época, eu usava o material para fazer as lições de casa das aulas de Religião, pois sempre estudei em colégios de freira. Apesar disso, minha avó era Kardecista e me ensinou muito dessa doutrina. Com ela li O evangelho segundo o Espiritismo, assim como muitos livros de Filosofia e outros livros técnicos, de temas diversos.

O curioso é que, mesmo sendo espírita, minha avó tinha várias Bíblias e costumava guardar todas na mesma gaveta. Outro detalhe é que os textos bíblicos estavam também nos famosos Minutos de sabedoria, que ela tinha e líamos sempre. Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, ela me ensinou a ler alguns versículos, quando havia algum problema. Um dia, depois de terminar um namoro, abri uma das Bíblias em uma página qualquer e li uma passagem intitulada “Para que serve o sal que perdeu o sabor?”. Para meio entendedor, meia palavra basta e entendi na hora que não deveria chorar pelo namoro desfeito. Contei para minha avó e ela não parava de rir, até porque ela não gostava nenhum pouco do meu ex-namorado…

Os livros que misturavam Botânica e Fitoterapia, com ênfase às propriedades das ervas medicinais, também eram comuns, assim como livretos de simpatias, orações e benzimentos. Sim, porque minha avó era a benzedeira do bairro, razão pela qual ela me ensinou a benzer dor de barriga e tormentas. No dia a dia, ela costumava receber criancinhas para benzer, geralmente com quebranto, o que, segundo minha avó, causava irritabilidade no bebê, falta de sono e outros problemas. Lembro duas simpatias que fiz, orientada pela vó. Eu costumava colocar ovos no jardim, oferecendo-os à Santa Clara e pedindo por um dia de sol, sobretudo antes de alguma festa ou excursão da escola. Além disso, em um ano, no dia de Santo Antônio, quebrei um ovo em um prato com água e deixei no sereno, para tentar descobrir a inicial do nome da pessoa com quem me casaria. No dia seguinte, vi que a gema do ovo tinha formado um “L”. A simpatia deu certo, pois meu marido se chama Leonir. 

No universo tipicamente literário, um livro que me marcou foi A menina dos fósforos, de Hans Christian Andersen. Estávamos na antiga livraria Ghignone, em plena Rua XV. Minha avó foi comprar livros e disse que eu também poderia escolher o que eu quisesse. Coincidentemente, optei por A menina dos fósforos, uma história de amor entre uma avó e sua neta. 

Quanto às línguas, cursei Letras e, durante os quatro anos e meio, resolvi me dedicar à Antiguidade Clássica. Aprendi Grego, Latim e depois também me interessei pelo Esperanto, por ser uma língua artificial. Minha avó compartilhou desse meu entusiasmo e um dia chegou em casa com mais uma mídia para mim: um dicionário de Esperanto que ela me deu de presente. Ela era assim — sempre acompanhava minha vida escolar e, depois, minha trajetória acadêmica. Sendo assim, pela mesma razão pela qual ela me deu o dicionário e a Bíblia que tinha pertencido ao pai dela, ela e meu avô também compraram todos os fascículos da enciclopédia Conhecer (Fig. 3), para ajudar a mim e ao meu irmão, nos trabalhos da escola. Depois dessa enciclopédia, vieram outras, como Barsa, Delta Larousse e Universal.

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Figura 3: Fascículos da enciclopédia Conhecer, que eram reunidos dentro de uma capa dura de couro vermelha. Imagem disponível em: https://d1o6h00a1h5k7q.cloudfront.net

Porém, sem dúvida, a mídia mais famosa lá em casa era a telenovela (Fig. 4), porque, desde bebê, minha avó ligava a TV na cozinha e me colocava sobre um tapete bem felpudo, cercada de tampas de panelas para eu bater e brincar. 

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Figura 4: Cenas de duas telenovelas veiculadas nos anos 1970. Imagens disponíveis em: https://br.web.img2.acsta.net e http://2.bp.blogspot.com

Evidentemente, na televisão, havia muito mais do que telenovela. Assistíamos a programas de auditório (como Viva a noite e Hebe), concursos de beleza (como Miss Brasil e Miss Universo) e não perdíamos nenhuma cerimônia de entrega do Oscar. Minha avó e eu também éramos público cativo nas cerimônias de abertura das Olimpíadas e em alguns eventos especiais, como o casamento da Lady Diana com o príncipe Charles.

No que se referia à música, minha avó tinha um ditado: “Quem canta seus males espanta”, que, na verdade, descobri depois que se tratava do título de uma canção de Carmen Miranda. De fato, minha avó não costumava ouvir rádio. Ela apenas cantava, para alegrar o dia dela e o nosso. Às vezes, ela até aliava a música à dança, entoando uma valsa e nos fazendo dançar sobre os pés dela, para aprendermos os passos e, quem sabe, no futuro, sermos exímios dançarinos (plano que não deu certo!).  Nos últimos tempos, com mais de 90 anos, havia dias em que a vó mal conseguia andar. Então, eu inverti nossos papéis: agora, eu a estimulava a andar pela casa, cantarolando uma valsa para ela. Ela sorria, olhava para meus pés e tentava imitar os passos. Esse era nosso milagre e ela dava passos bem delicados!

Com ela conheci músicas incríveis, como: “Quem sabe”, de Francisco Petrônio; e “Aurora”, de Mário Lago. Inclusive, há uns dez anos, tivemos o prazer de irmos juntas ao Festival de Teatro de Curitiba, para assistir à peça Ai que saudades do Lago. O espetáculo terminou com toda a plateia (nós também, é claro) cantando e dançando “Aurora” e outras marchinhas famosas.

Sozinha, minha avó costumava cantar “Fascinação”, um clássico na voz de Carlos Galhardo. Juntas, ela e eu entoávamos o Hino nacional de ponta a ponta, impressionando qualquer jogador de futebol. O inusitado é que, por causa dos problemas de memória que ela teve, ela nunca esqueceu os “raios fúlgidos”, o “impávido colosso”, as “fulguras” ou a “terra mais garrida” (MUS, 2021). Porém, tive de reensinar a ela os significados de palavras que ela costumava usar cotidianamente, como saúva, neve e frevo.

Também costumávamos cantar “Beijinho doce”, tentando imitar o dueto que Adelaide Chiozzo e Eliana protagonizaram no filme Aviso aos navegantes (1950), de Watson Macedo (Fig. 5). Nesse ponto, aliás, a mídia musical mistura-se com o cinema. Era comum assistirmos a chanchadas, dando boas risadas com Oscarito e Grande Otelo. Outro filme que fazia os olhos de minha avó brilharem era qualquer episódio da trilogia austríaca Sissi (1955-1957), com números lindíssimos de valsa (Fig. 5).

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Figura 5: Cenas do filme Aviso aos navegantes e Sissi, a imperatriz. Imagens disponíveis em: https://img.estadao.com.br e https://i.pinimg.com/originals

Ainda na mídia cinematográfica, de minha avó herdei o gosto pelos filmes de Dean Martin e Jerry Lewis (que ela me apresentou como O meninão), Mazzaropi e Elvis Presley. Íamos ao cinema frequentemente, durante as aulas e principalmente nas férias. Meu espaço preferido era o elegante Cine Glória, que ficava na esquina das ruas Cruz Machado e Ébano Pereira. Na companhia de meu irmão e minha avó, assisti a todas as aventuras de Os Trapalhões e a grandes sucessos da minha geração, como: Labirinto, a magia do tempo (1986), dirigido por Jim Henson e protagonizado por David Bowie; e A história sem fim (1984), de George T. Miller, Wolfgang Petersen e Peter MacDonald.

A casa da vó sempre foi uma espécie de museu da família. Ela guardava todas as coisas — de todos nós. Quando falamos de mídias, lembro que ela guardou uma pequena escultura de argila que eu modelei ainda na Pré-escola. Do meu pai, ela guardou o violão e os livros com as cifras para aprender a tocar. Um dia, meu primo e eu descobrimos esses materiais valiosos, pegamos um gravador de fita cassete e fizemos nossa própria demo. Ele tocava o violão, eu cantava e assim gravamos o sucesso “As mocinhas da cidade”, que costumávamos ouvir nas vozes de Nhô Belarmino e Nhá Gabriela.

Embora minha avó não ouvisse rádio, a casa tinha vários, ainda mais nos anos 1980, quando experimentamos a febre do rádio-relógio. Todas as pessoas tinham que ter um desses. Era costume, inclusive, dar de presente nos aniversários e em outras ocasiões. Eu ganhei um do meu padrinho, quando fiz 14 anos. Minha avó teve dois. Quando eu era adolescente, costumava me trancar no quarto, com meu rádio-relógio, claro, e ouvir a programação de minha hora preferida na emissora, só para tentar gravar os sucessos do momento. Gravava em fita cassete (Fig. 6) e ficava muito decepcionada, quando, depois, ouvindo a gravação, eu percebia que a vinheta da rádio tinha cortado alguma música. Isso era um verdadeiro desastre e exigia que tentássemos regravar, em outra oportunidade, afinal, nossas fitas tinham que ter qualidade.

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Figura 6: Gravador e fita cassete (K7) Imagem disponível em: https://http2.mlstatic.com

Como a maioria das pessoas, antes de gostar de rock, eu fui fã de bandas que causavam frisson no cenário teen da década de 1980. Meu primeiro show foi do Menudo (Fig. 7). Minha avó estava lá também e, dias antes, ela e meu avô me deram binóculos de presente, para que eu pudesse ver melhor meus ídolos, que se apresentaram no gigantesco estádio Couto Pereira. No mesmo local, alguns anos depois, fui ao show dos Titãs (Fig. 7) e, adivinhem, minha avó estava lá novamente, ouvindo Polícia, Igreja, Cabeça dinossauro e outros hits pesados.

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Figura 7: O cenário musical eclético dos anos 1980: Menudo, a boy band que virou mania; e a banda de rock Titãs. Imagens disponíveis em: https://i.pinimg.com e https://catracalivre.com.br

A mídia fotográfica é representada aqui por dois exemplos bastante divertidos. Quando íamos ao circo, sempre voltávamos com uma ou duas fotos em monóculos (Fig. 8). Enquanto assistíamos às atrações, o fotógrafo passava e registrava o momento. Os monóculos eram bem comuns, durante os anos 1970. A foto (negativo) era colocada na parte interna da tampa e, para ver, precisávamos posicionar o monóculo contra a luz. Outro sinônimo de diversão era o álbum Surpresa. As fotografias eram lindas, em formato retangular e impressas sobre papelão de boa gramatura. O chocolate também trazia a imagem de um animal em baixo-relevo (Fig. 8).

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Figura 8: Foto em monóculo e álbum de fotos do chocolate Surpresa. Imagens disponíveis em: https://cdn.awsli.com.br e https://encrypted-tbn0.gstatic.com

Havia, ainda, as mídias mais relacionadas à comunicação efetiva, usadas no dia a dia de qualquer família. Minha avó e eu sempre trocávamos cartões de Natal, impressos e enviados pelo correio tradicional, como costumávamos fazer com outros familiares e amigos. Porém, minha avó foi minha principal correspondente. Dias depois da partida dela, ainda achei um dos cartões que ela enviou a mim e ao meu marido, com a letra inconfundível dela, e uma mensagem emocionante.

O telefone analógico era outra mídia muito comum (Fig. 9). Entretanto, quando havia tempestade, a vó dizia para cobrirmos os espelhos e não usarmos o telefone. Um dia, desprezei o aviso e telefonei para uma amiga da escola. Assim que disquei os primeiros números, meu dedo indicador esquentou e vi uma faísca na ponta dele, no mesmo instante em que ouvi uma trovoada. Depois disso, sempre obedeci à minha avó e nunca mais duvidei dela. Quando estava fora de casa, também era comum eu telefonar para ela de um telefone público — porque, naquela época, ainda não existia celular, nem Whatsapp. Por isso, sempre carregava comigo algumas fichas telefônicas (Fig. 9). Contudo, se houvesse urgência e nenhuma ficha, eu também podia ligar a cobrar.

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Figura 9: Telefone analógico e ficha telefônica usada para fazer ligações pagas — dos orelhões ou telefones públicos para os aparelhos fixos. Imagens disponíveis em: https://www.usadobrasil.com.br e https://http2.mlstatic.com

No mundo da culinária, havia outro tipo de mídia: as receitas. Na adolescência, minha avó foi cozinheira na estação de trem de Matos Costa (SC). Diariamente, ela preparava comida para receber os viajantes, nos horários marcados. Décadas depois, ela me incentivou a colecionar os folhetos chamados Delícias da cozinha Batavo. Outra prática comum era guardarmos as receitas que vinham no verso do rótulo do creme de leite Nestlé e atrás dos pacotes de farinha de trigo. Pelo que lembro, as últimas receitas colecionáveis que conheci por intermédio da minha avó foram os cartões do tempero Sazon (Fig. 10). Fazíamos assim: quem se interessava mais pelo prato, ficava com os cartões e, caso alguma iguaria interessasse a nós duas, ela ficava com o cartão e eu copiava a receita.

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Figura 10: Cartões de receita Sazon. Imagem disponível em: https://http2.mlstatic.com

Até mesmo a mídia da pintura nos uniu de algum modo. Tudo começou quando ela comprou todo o material e me deu um curso completo de pintura em tecido (Fig. 11). Cheguei a pintar várias peças para dar de presente à minha avó e, mais tarde, para meu enxoval. Meu traço não era muito fino, mas ela sempre elogiava. Tenho até hoje alguns panos de prato que pintei naquela época.

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Figura 11: Molde vazado para pintura em tecido. Imagem disponível em: https://www.escoladepintura.com.br

Como resultado, a pintura em tecido aprimorou minha aptidão para o desenho. A partir de então, comecei a desenhar à mão livre, ampliando formas bem pequenas que eu usava de modelo. Isso facilitou para mim, quando comecei a dar aulas em uma Pré-escola, localizada na rua da casa da vó (e, nesse período, eu morava com ela). No início de cada ano, eu precisava decorar a sala de aula com imagens que atraíssem e atenção das crianças. Então, eu fazia e pintava desenhos dos personagens infantis mais famosos.

Outra mídia que dizia respeito ao mercado de trabalho era a velha máquina de datilografia (Fig. 12). Minha avó tinha umas duas em casa e eu usava sempre, até que ela me estimulou a fazer o curso profissionalizante, no Senac. E lá fomos meu noivo e eu. Concluímos o programa e pouco tempo depois veio a moda do computador. Para conhecer essa nova mídia, também fiz um curso e até hoje digito bastante rápido, graças à minha prática anterior, nas aulas de datilografia.

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Figura 12: Máquina de escrever. Imagem disponível em: https://i.pinimg.com

Puxa! Quando tive a ideia de fazer este texto, não imaginava que minha avó tinha me apresentado tantas mídias assim. No entanto, a cada lembrança, uma nova arte, um aparelho ou um novo meio de comunicação surgia… Quando escrevi a alguns amigos, contando sobre a perda da minha avó, uma colega me respondeu, mencionando que, com o tempo, a dor iria se transformar em uma saudade boa, porque eu perceberia a presença dela em muitas coisas. Pensei sobre isso por dias e creio que já estou experimentando essa transição. Concluí que minha avó me mostrou e me ensinou tanta coisa que ela está (e sempre vai estar) não apenas nas memórias que tentei eternizar neste texto. Ela está em mim e em quase todas as coisas que faço, leio e penso. Quando constatei isso, como uma boa amante das Letras, busquei consolo nestes versos de Camões:

Transforma-se o amador na cousa amada,

Por virtude do muito imaginar;

Não tenho logo mais que desejar,

Pois em mim tenho a parte desejada.

(CAMÕES, 2021)

Nas ocasiões do enterro e do velório, não falei nenhuma palavra. Apenas chorei em silêncio e agora sei por que: meu modo de expressão é a escrita! Aliás, minha avó também me ensinou a ler e a escrever, em casa mesmo. Ela fez um trabalho tão bom, que, quando entrei na escola, fui direto para a Pré-escola II, com a admiração de professores e colegas. Nossas mãos, que um dia protagonizaram esse processo de alfabetização, ficavam juntas por horas, nos últimos tempos (Fig. 13). Desde 2020, a vó já não falava muito, mas gostava de ficar de mãos dadas, em silêncio e sorrindo de vez em quando.

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Figura 13: Avó e neta de mãos dadas (Crédito da foto: Verônica Daniel Kobs / 21 mar. 2019)

Portanto, hoje uso a escrita para encerrar esta crônica agradecendo à minha avó, que compartilhou comigo a incrível aventura da vida e todo o conhecimento que ela construiu ao longo dos anos.


REFERÊNCIA
CAMÕES, L. V. de. Transforma-se o amador na cousa amada. Disponível em: <https://www.escritas.org/pt/t/2051/transforma-se-o-amador-na-cousa-amada>. Acesso em: 22 jul. 2021.
CATARINENSE. Almanaque Sadol. Disponível em: <https://catarinensepharma.com.br/institucional/almanaque-sadol/>. Acesso em: 28 jul. 2021.
MUS. Hino nacional brasileiro. Disponível em: < https://www.letras.mus.br/hinos-de-paises/46368/>. Acesso em: 27 jul. 2021.
TREVISAN, D. Lamentações de Curitiba. Disponível em: <https://www.zebeto.com.br/2021/01/05/lamentacoes-de-curitiba/#.YPnl6ehKjIU>. Acesso em: 22 jul. 2021.

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Verônica Daniel Kobs

Verônica Daniel Kobs

Pós-Doutorado na área de Literatura e Intermidialidade (UFPR). Professora do Mestrado e do Doutorado em Teoria Literária da UNIANDRADE. Professora do Curso de Especialização em Letras da PUC-PR. Professora do Curso de Graduação de Letras da FAE. Autora do blog Interartes: Artes & Mídias (https://danielkobsveronica.wixsite.com/interartes). E-mail para contato: danielkobs.veronica@gmail.com

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