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Que raios é um signo? (Isto não tem nada a ver com astrologia!)

Em meio a uma época de dúvidas e conflitos internos, vendo-me cercado por sombras e falsos oásis intelectuais, ouvindo os gemidos e ganidos de cães

Em meio a uma época de dúvidas e conflitos internos, vendo-me cercado por sombras e falsos oásis intelectuais, ouvindo os gemidos e ganidos de cães ideológicos, com os olhos inchados de ver celebrações de cultos idolátricos – foi em meio a tudo isso que conheci a obra de John Deely, o maior dos semióticos.

A metáfora que costumo usar representando sua ação em minha vida é a de uma das velas de um barco, como um guia para atravessar o mar de agitações desta vida. Meu barco possui alguns outros guias-velas, como os grandes Platão e Aristóteles, mas recentemente adquiri a vela John Deely, o que me possibilita navegar melhor a caminho da luz do farol divino.

Desde que entrei na universidade percebi claramente uma limitação no estudo das escolas filosóficas. É fácil de perceber o desprezo que muitos acadêmicos demonstram para com a filosofia escolástica, representando-a como um conjunto de cegos religiosos alheios à realidade, e só com o advento da ciência moderna é que finalmente abrimos os olhos para as coisas como elas são. Isso não é nada mais que uma falácia, e Deely a ilustra com o conflito entre os personagens Dr. Jekyll e Mr. Hyde, a filosofia presa no mundo das ideias em confronto com a atitude “realista” da ciência moderna.

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Que raios é um signo? (Isto não tem nada a ver com astrologia!)

Não é preciso nem citar as grandes velas de Tomás de Aquino e Duns Scot, basta citar a semiótica tardia de nossa raiz portuguesa: os Conimbricenses. Tal foi o desenvolvimento da escolástica ibérica que, talvez possamos dizer, culminou na obra de João Poinsot, o português contemporâneo de Descartes, que conseguiu, por meio de sua doutrina das relações, destruir as tendências nominalistas de sua época.

Mas veja que Poinsot permaneceu sempre à margem, não de todo desconhecido e desprezado, mas ignorado pelo conjunto maior dos acadêmicos modernos, enquanto que Descartes ganhou a fama.

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Cito Poinsot, pois Deely foi profundamente influenciado por sua obra, desde quando roubou seu curso em uma biblioteca… Poinsot foi quem primeiro formulou um tratado sobre o signo (alertando ao leitor brasileiro semi/neo/whatever perenialista: isto não é astrologia!), mostrando o caráter irredutivelmente triádico dos signos. Mas Poinsot, diferentemente de Descartes, não inaugura uma nova filosofia, rompida com o passado; Poinsot, como comentarista de Tomás de Aquino, desenvolve novas possibilidades enraizando-se na tradição.

Isto é o que mais me atrai em Deely. Assim que ouvi pela primeira vez suas aulas, disponíveis no excelente Lyceum Institute, fiquei admirado pela sua qualidade “jovial”, Deely não aparecia como um velho barbudo falando num tom de um… velho barbudo. Parecia estar totalmente antenado às descobertas contemporâneas, ao mesmo tempo que dominava profundamente a linguagem escolástica.


Esse caráter integrador de conquistas contemporâneas com os princípios perenes da filosofia escolástica foi o que me cativou em Deely, pois sempre percebi a necessidade dessa visão integradora, e não desse rompimento moderno arrogante.

A leitura da obra de Deely, embora muito difícil, é rica de insights. Posso citar o resgate dos termos cenoscopia e idioscopia, representando a não-oposição entre a filosofia e o especialismo científico. Posso citar sua defesa de um tipo de teoria da evolução, creio que fundada no amor evolucionário de Peirce, o que é de se admirar ver isso em um tomista (pois Deely foi inegavelmente um tomista). Posso citar sua abordagem das relações, e como por meio delas integramos o mundo cultural e o mundo físico (nomos e physis), diga-se de passagem, refutando mais um vez C. P. Snow…

Poderia citar inumeráveis contribuições de Deely, um dos maiores filósofos dos últimos tempos, mas não tenho a autoridade ainda para compor um estudo filosófico sobre sua obra. De qualquer modo, deixo indicado um vídeo que fiz, tentando resumir seu texto “A Sign is What?”.

Este texto que escrevo era para ser uma transcrição dessa tentativa de resumo que fiz no vídeo, mas por falta de tempo não pude realizá-la. Apenas manifesto minha intenção de que a obra de Deely comece a ser mais conhecida no Brasil, e deixo minha humilde contribuição por meio do vídeo abaixo.


LEIA TAMBÉM: O lado negro de Machado de Assis revisitado por Sérgio Bianchi

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