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Ilustres desconhecidos da poesia: Maria Abadia Silva

Maria Abadia Silva, poeta, nasceu em Itaberaí/GO. Fez Direito na Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro, e tem mestrado em Letras, pela PUC/GO.

Maria Abadia Silva, poeta, nasceu em Itaberaí/GO. Fez Direito na Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro, e tem mestrado em Letras, pela PUC/GO. É autora dos livros “Espaços” (1980), “Cabeça Cauda” (1987) e “Desamarrio” (2007). Além do “Frei Confaloni, renascimento em Goiás” (2018), em parceria com Narcisa Abreu Cordeiro.

É vencedora do Prêmio Bolsa de Publicação Hugo Carvalho Ramos, um dos mais antigos do país, pelo “Espaços”. Venceu, também, os prêmios de Revelação Nacional de Poesia, da Fundação BB (São Paulo) e o Bolsa Estadual José Décio Filho (Goiás). Entre outras premiações e honrarias.

Ex-secretária de Cultura do Estado de Goiás e de Goiânia, foi também superintendente de Patrimônio Histórico e Artístico da Secretaria de Educação, Cultura e Esporte (Seduce). Atualmente é presidente da Associação do Bosque dos Buritis e diretora de comunicação da AIGO (Associação Italiana de Goiás), além de ser membro da primeira Eco Academia de Ciências, Artes e Letras de Terezópolis de Goiás.

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No Ilustres desconhecidos da poesia desta edição é a nossa homenageada. Que os nossos leitores tenham o privilégio de conhecer sua poesia por meio de alguns fragmentos, pois a literatura feminina é viva e prolífica.

Ilustres desconhecidos da poesia: Maria Abadia Silva
A poetisa Maria Abadia Silva e o escritor Adalberto De Queiroz, cronista no RL. (Foto: Acervo pessoal/Reprodução)

Do livro “Espaços” de Maria Abadia Silva, 1980, com prefácio de Yeda Schmaltz e ilustração Ático Vilas Boas da Mota:

Mão de tinta

Essas paredes
brancas, sem alegrias ou tristezas
são duras, são frias
e mudas, sem enredo.

Quero a mão de tinta vermelha,
que seja de sangue ou de poeira,
mas que cause espanto e
todos venham ver,
venham perguntar, se espelhar
se enrubescer. (Espaços. Poemas, 1980)

Oferenda

Venha comigo agora
Que lhe mostro
O meu caminho.
Quem anunciou que eu vinha?
Faço pra você
Um leito de buganvílias brancas
Deito antes
E por fim, me ofereço
Com ou sem espinhos?

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Do livro “Desamarrio” de Maria Abadia Silva, 2007, com prefácio de Alberto Marcicano:

Segura a minha mão pelo labirinto
Torna-me inclusa, íntima
No ciclo final
Quando a vida recomeça
Em seu estado de transe
E imaginação
Tão possível quanto tudo é possível e
Mistério
O que a vida pede?

Quando a dor nos retira tudo
Tudo leva e sós ficamos
Sobre a cidade do crepúsculo
Nus e vazios recordamos
Tudo é mais aceitável agora
É a loucura que nos redime
É a loucura que nos cura
Ou devora e voltamos.

Não me aperte agora
Olhe do outro lado de mim
Olhe por mim
O que não quero ver
O que não posso ver
Rebentar feito pipoca contra a parede de vidro – o estabelecido
Olha para mim nesse esconderijo atemporal
A filosofia é nada quando é real
Visitei seu jardim de inverno
As pedras nos seus dedos sem anéis
Nós embaraçados na alfandêga
Sua passagem por mim, alfenin
Suco de tangerina, amargo e doce
Caranguejos vivos passeando meu pescoço.
E a noiva
Dentro do lago
Como um espasmo
Ouvindo ópera, tresloucada
Sem saber se nada
Ou morre afogada.
a solidão anda de trem
a solidão não vai, só vem
a solidão coloca suas mãos
sobre as minhas e me bolina
a solidão caminha
na sua cama, na minha.

Uma mulher que anda vem de longe?
De sua própria interdição?
Sem atribuições
Profecias, enunciações
Sem adesão das tramas do destino
Ainda assim
Uma mulher caminha para a sua própria vida
Atravessa espessuras e a inércia dos vazios
Procurando o que significa
Criando a lembrança de si mesma
No fogo que acende dentro do mundo
Onde tudo é como deveria ser.

Escavações
Tudo é íngreme
E inquisidor
Nessa espera sem medidas
Das escavações e extravios

Como o pão que faço e reparto
O arroz perfumado de cominho e açafrão
A minha panela de barro
Entre as verduras
O aroma de manjericão.
Desta terra eu colho e a ela
Me junto em semente e fruto
Nesta ancestralidade vivo e passo
Criando o meu próprio remédio
Aos ferimentos que trago.
Desde todos os tempos
Pessoas seguem em alguma direção
Em tempo de não ser tarde demais
E em vão
Pela escolha não feita
O caminho de enganos
O subterrâneo onde funduras se encontram e em mim mesma
À primeira substância
Onde o mundo vive abaixo do mundo.

Do livro Cabeça Cauda de Maria Abadia Silva, 1987, com prefácio de Claudio Willer, orelha de Olga Savary e ilustrações de Siron Franco:

Sejamos radioativos
Saídas astrológicas prenunciam
O antigeral canto da multidão
Atingiremos o mesmo estágio do vírus
O inimigo se deitará na mesma cama/ e
Também o amigo/ todo obscuro/mesmo no muro/será visível.

Me lembro seu riso
Mais alto que o salto do meu coração
No bolso da sua calça.

Vim das nascentes
Com a fome e a sede das ninfas e sem lugar
Onde estirar em leito
Deitar meus olhos para o encontro
Que a distância não se retrai
Apenas o mastro no tempo
Construindo a legião de emblemas
Nas nossas faces.

Passarei no crepúsculo
Sob olhares, avisos
Passarei entre as águas
Selo íncubo
Invisível registro
Passarei.

O meu coração é kitsch
Você escolheu o fundo
Eu vou para o mundo.

Toma-me a mim
Que sou vento
Irreconhecível o meu nome
Entre abismos, moinhos

Toma-me assim
Que vento
Também é caminho.

Esta coluna em homenagem à poetisa Maria Abadia Silva foi publicada originalmente na Edição Clarice Lispector, da Revista Recorte Lírico.

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