Full Phil é um filme de comédia absurda dirigido por Quentin Dupieux, com Kristen Stewart e Woody Harrelson nos papéis principais, que estreia em 2026 com apenas 78 minutos de duração, mas que consegue parecer muito mais longo do que deveria. A premissa é a de uma filha e um pai tentando se reconectar durante uma viagem a Paris, com um filme preto e branco embutido na narrativa que busca homenagear o cinema clássico. O resultado, infelizmente, é uma das experiências mais exaustivas do ano no cinema.
Quem não conhece Dupieux precisa saber que ele é o cineasta por trás de títulos como Rubber, onde um pneu assassino é o protagonista, e Smoking Causes Coughing, distribuído no Brasil pela MUBI. Seu estilo é deliberadamente nonsense, mas em Full Phil essa fórmula parece ter chegado num beco sem saída. Se você gosta de comédias que desafiam a lógica convencional, prepare-se para uma experiência bem diferente do que costuma funcionar no gênero.
O que acontece em Full Phil e por que a história não engrena
Kristen Stewart interpreta Madeleine Doom, uma jovem que, na primeira cena do filme, está devorando muffins e quiche enquanto assiste a filmes antigos de Hollywood no quarto de hotel pago pelo pai. Woody Harrelson é Philip Doom, o pai americano típico em modo turista: incomodado com a faxineira, obcecado com migalhas no tapete e completamente desesperado para que a filha reconheça que ele foi, ao menos em alguns momentos, um bom pai. A mãe de Madeleine morreu quando ela ainda era criança, deixando Phil para criá-la sozinho enquanto lidava com o próprio luto. Esse é o núcleo emocional do filme, e ele nunca vai além disso.
O problema central de Full Phil é que os dois personagens passam praticamente toda a duração do filme discutindo as mesmas coisas com palavras diferentes. Phil quer reconhecimento. Madeleine é fria, indiferente e deliberadamente cruel. Não há desenvolvimento real, não há revelação que mude a dinâmica, e o roteiro, assinado pelo próprio Dupieux, repete os mesmos pontos até o espectador começar a olhar para o relógio mesmo sendo um filme de menos de 80 minutos.
O único alívio real vem de Charlotte Le Bon, que interpreta Lucie, uma funcionária do hotel com uma atenção suspeita ao casal. Le Bon tem timing cômico genuíno e entrega as melhores cenas do filme. É o tipo de performance que faz você se perguntar por que ela não tem mais espaço na tela. Mas nem Le Bon consegue salvar o que ao final parece uma passagem pelo purgatório sem saída.

O filme dentro do filme: ideia interessante, execução fraca
Dentro de Full Phil existe um filme preto e branco que Madeleine assiste no hotel, e que vai sendo intercalado ao longo da narrativa principal. Esse filme-dentro-do-filme busca referências em Frankenstein e Creature from the Black Lagoon, com dois pseudocientistas atrapalhados, vividos por Eric Wareheim e Tim Heidecker, perseguindo um monstro marinho que decapitou uma mulher interpretada por Emma Mackey, com literalmente uma linha de diálogo.
A ideia de usar o cinema clássico de horror como espelho simbólico da relação entre pai e filha tem potencial real. Mas o roteiro não desenvolve esse paralelo de forma satisfatória. Os diálogos de Wareheim e Heidecker são longos, repetitivos e sem graça, num registro que lembra uma tentativa pretensiosa de humor de arte universitário que funciona melhor como exercício de estilo do que como entretenimento. Há algo de fanfiction cara de pau nesse segmento, e não no bom sentido.
Kristen Stewart e Woody Harrelson merecem um roteiro melhor
Dizer que Stewart e Harrelson fazem o melhor possível com o material que têm é quase um elogio de consolação, mas é a verdade. Harrelson tem facilidade natural com comédia física, e há sequências em que seu personagem, literalmente inflado como um balão, arranca alguma reação. Mas o Phil de Harrelson se resume a chorar, reclamar e repetir as mesmas queixas. Quando o filme tenta evocar simpatia por ele no ato final, já é tarde demais porque o espectador está esgotado de ouvi-lo.
O caso de Madeleine é ainda mais frustrante. O personagem de Stewart é construído como alguém que consome sem parar, que é fria até a crueldade, e que não tem arco emocional perceptível. A crítica publicada pela Collider sobre o filme levantou uma questão pertinente: dá a sensação de que o roteirista nunca teve uma conversa significativa com uma mulher de verdade, porque Madeleine parece mais um arquétipo de “mulher escrita por homem” do que uma personagem com profundidade. É difícil discordar.

Comparando com outra comédia absurda de relação pai e filha, como Everything Everywhere All at Once, que equilibra nonsense e emoção de forma que poucos filmes conseguem, Full Phil fica muito aquém. Não porque precise ser Everything Everywhere, mas porque não encontra seu próprio equilíbrio entre o humor desconcertante e algum tipo de ancoragem emocional que justifique o desconforto.
Dupieux e o problema do absurdismo sem disciplina
Quentin Dupieux tem uma filmografia curiosa e, para quem está disposto a entrar no jogo, alguns de seus filmes funcionam de forma bastante eficaz. Mas Full Phil coloca em evidência um problema recorrente no gênero: absurdismo sem disciplina narrativa não é subversão, é apenas ruído. Quando um filme de 78 minutos parece durar três horas, o problema não é o espectador, é o ritmo.
O Rotten Tomatoes e a crítica especializada ainda estão consolidando suas avaliações sobre o filme, mas o consenso inicial aponta para uma recepção dividida, com admiradores do estilo de Dupieux reconhecendo a consistência autoral e detratores apontando exatamente o que esta análise descreve: um exercício estilístico que se esquece de ser um filme. Se você chegou aqui depois de ler sobre a minissérie No Solo Inimigo, que questiona narrativas com muito mais eficiência em muito menos pretensão, vai entender o contraste.
Full Phil vale a pena assistir?
Full Phil é o tipo de filme que divide: quem tem paciência ilimitada para o absurdismo europeu de arte pode encontrar algo interessante aqui, especialmente na performance de Charlotte Le Bon e na premissa do cinema dentro do cinema. Mas para a maioria dos espectadores, a experiência é cansativa e frustrante num grau que não compensa nem os 78 minutos investidos.
Stewart e Harrelson estão desperdiçados num roteiro que não dá a eles personagens de verdade para trabalhar. A ambição de Dupieux em misturar cinema clássico de horror com drama familiar contemporâneo é legítima, mas a execução falha em praticamente todos os pontos em que precisaria acertar. Se você quer comédia absurda com coração, procure outra coisa. Se você quer ver Full Phil mesmo assim, vá sabendo que o filme é exatamente tão exaustivo quanto parece nas primeiras cenas. Considere-se avisado.





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