Paper Tiger é um thriller de época dirigido por James Gray que compete pela Palme d’Or em Cannes 2026, estrelado por Adam Driver, Miles Teller e Scarlett Johansson. O filme se passa no Queens dos anos 1980 e acompanha dois irmãos arrastados para uma rede criminosa russa após um negócio aparentemente inofensivo de óleo residual. Com 116 minutos de duração e nota 6 de 10 na Collider, Paper Tiger entrega exatamente o que promete, nem mais, nem menos, o que pode ser tanto seu maior atrativo quanto seu maior defeito.
Para quem não conhece James Gray, ele é o diretor por trás de filmes como Ad Astra e Armageddon Time, obras que usam personagens e núcleos familiares como lentes para temas maiores, como a insignificância humana diante do universo ou as mentiras que a sociedade americana conta a si mesma. Paper Tiger segue essa mesma lógica: a família no centro, a ameaça externa como catalisador, e um olhar crítico sobre um momento específico da história dos Estados Unidos. O problema é que, desta vez, o roteiro nunca tem coragem de ir até o fim.
O que acontece em Paper Tiger?
Irwin (Teller) é um homem de família judeu, honesto e dedicado, que vive uma vida tranquila com a esposa Hester (Johansson) e os dois filhos adolescentes. Seu irmão Gary (Driver), ex-inspetor da NYPD reconvertido em empreendedor, propõe uma parceria com russos locais que coletam óleo residual das redes de esgoto da região. Parece simples. Parece seguro. Até que Irwin leva os filhos para conhecer o local certa noite e testemunha atividades ilegais, o que coloca toda a família na mira dos criminosos.
A partir daí, Paper Tiger deveria decolar. E há um momento em que quase decola: a cena da invasão domiciliar, em que Irwin fica parado na escada com uma arma enquanto ouve os intrusos russos reorganizando a mobília lá embaixo. É uma cena de tensão silenciosa e precisa, o tipo de coisa que trava o espectador na poltrona. Gray demonstra ali que sabe como construir suspense com contenção. O problema é que o resto do filme nunca chega perto desse nível de ansiedade.
O roteiro faz todas as escolhas esperadas. A narrativa caminha para um final arrumado, com danos mínimos e uma moral conveniente sobre intenções honestas mal empregadas. Gray parece deliberadamente avesso a deixar a história virar uma tragédia criminal de verdade, e o resultado é um drama doméstico morno com pitadas ocasionais de implicações sociais mais amplas. Quem assistiu a filmes como Os Infiltrados ou até séries como The Americans vai sentir falta de uma coragem que Paper Tiger simplesmente recusa a ter.

Adam Driver salva Paper Tiger do esquecimento imediato
Se tem algo que Paper Tiger acerta consistentemente, é o elenco. Driver entrega uma das performances mais contidas e eficazes de sua carreira recente. Gary é um homem de arrogância forjada em anos de serviço policial, alguém que acredita poder controlar qualquer situação porque já controlou muitas antes. Driver toca nessa hubris com sutileza, sem os exageros de personagens mais excêntricos que interpretou no passado, e consegue manter Gary simpático mesmo enquanto ele empurra a família inteira para o abismo.
Teller é competente no papel do herói americano comum, mas, assim como o filme em si, não faz nada de particularmente interessante com seu personagem. Johansson, por sua vez, funciona como termômetro emocional da trama: é no rosto dela que o horror das situações realmente pousa, e há momentos em que sua presença eleva cenas que o roteiro não sustenta sozinho. A ficha técnica de Paper Tiger no IMDb já reflete a atenção da indústria para este lançamento, que chega distribuído pela Neon.
O trio funciona bem junto, mas a sensação persistente é de que Gray reuniu talentos capazes de algo muito melhor e depois entregou a eles um roteiro que não os desafia. É um desperdício elegante, se é que isso faz sentido. A direção é tecnicamente competente, a fotografia captura bem o Queens dos anos 80, mas a câmera raramente faz escolhas que amplificam a tensão nas cenas de diálogo, que dominam boa parte dos 116 minutos.
Paper Tiger e o peso da era Reagan no cinema americano
O filme se encaixa em uma longa tradição de produções que usam os anos 1980 americanos como pano de fundo para críticas sobre corrupção, ilusão do sonho americano e famílias destruídas por forças maiores que elas mesmas. Gray claramente tem interesse nesse território, como já demonstrou em Armageddon Time, onde a família judaica de classe média do Queens também serviu de microcosmo para tensões sociais e raciais da época.
O problema é que Paper Tiger não vai fundo o suficiente nessa crítica. Há referências a estrangeiros corruptores, à pressão por ascensão social e ao custo de manter uma família honesta num ambiente que recompensa a desonestidade. Mas tudo fica na superfície. Gray toca nesses temas como quem admite que eles existem, sem nunca se comprometer com as consequências que eles deveriam trazer. Se você está procurando um filme que realmente enfrente os fantasmas da era Reagan com brutalidade, há opções muito mais corajosas por aí. Se quiser mais análises de filmes que chegam com expectativa, o texto sobre Full Phil, a comédia de Kristen Stewart e Woody Harrelson, pode interessar como contraponto de tom.
Também vale dizer: o Rotten Tomatoes ainda está consolidando as notas da crítica de Cannes, e a recepção dividida já indica que Paper Tiger é exatamente o tipo de filme que gera opiniões moderadas, nem amado com fervor nem odiado com convicção.
Vale a pena assistir Paper Tiger?
Paper Tiger é um filme perfeitamente assistível que não vai ofender ninguém e não vai emocionar ninguém profundamente. É o tipo de produção que funciona bem numa tarde de domingo com a família, quando todo mundo precisa concordar numa escolha e ninguém quer correr risco. Driver é ótimo, a cena da invasão é genuinamente tensa, e a reconstituição de época é caprichada.
Mas se você vai a um filme de James Gray esperando algo que machuque um pouco, que empurre para um território desconfortável, Paper Tiger vai decepcionar. O diretor conhece o terreno, o elenco está pronto, e a história tinha potencial para uma tragédia americana de verdade. O que chegou às telas de Cannes é um thriller seguro demais para o talento envolvido. Vale uma sessão, não merece obsessão.



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