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Por que choramos diante da arte?

Pense nos filmes mais tristes da história: A lista de Shindler, Sempre ao seu lado, A vida é bela. Nenhum deles me fez chorar. Não

Pense nos filmes mais tristes da história: A lista de Shindler, Sempre ao seu lado, A vida é bela. Nenhum deles me fez chorar. Não que eu tenha uma pedra no lugar do coração, eu me emociono com as narrativas, mas daí a verter lágrimas é um passo longo demais. Há poucos anos estive no cinema para assistir Extraordinário e na saída vi todos com os olhos marejados. Me senti mal, como se eu sofresse por uma resistência. Essa barreira se rompeu há poucos meses. Não foi com livro ou filme catártico. Foi com uma música – sem letra, apenas solfejos – enquanto eu lavava a louça. O responsável pelo meu choro chama-se Guinga.

Sou do time dos que veem uma montanha de louça suja sobre a pia e não se assustam. Na verdade, me sinto desafiado a atravessá-la. Como em situações de travessia a música é uma aliada – feito as canções de ninar que nos dão coragem para passar do desperto ao sono, da razão ao onírico – eu tenho sempre aos ouvidos um fone e no bolso um celular. Naquele dia, em vez de escolher uma canção, dei um play aleatório e comecei a ensaboar os talheres.

Não sei porque cargas d’água o algoritmo achou que eu pudesse gostar do Guinga. Eu acho que o sistema pensou: “ele nunca chorou no Deezer, vamos ao plano B” (eu realmente acredito nisso). Funcionou. Já nos primeiros acordes de Puchiniana, do álbum Roendopinho, imperceptivelmente larguei o prato dentro da pia; depois a esponja escorregou da minha mão; quando Guinga começou a solfejar aqueles grunhidos meio fanhos, que são as letras de muitas de suas composições, minhas lágrimas se misturaram com a água da torneira. Essa torrente incontrolável me fez passar dias me perguntando por que eu chorei – e continuei chorando com Senhorinha, Você Você, Canção da impermanência e quase todas as músicas que tocaram a seguir.

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Por que choramos diante da arte?
Álbum Roendopinho, de Guinga. (Imagem: Acoustic Music Records/Reprodução)

A primeira coisa que me veio à cabeça foi aquela pergunta de Antonio Abujamra a muitos de seus convidados no Provocações: “Você chora diante da beleza?” Pus na cabeça que eu tinha chorado diante do espanto pela beleza do que Guinga me apresentara naquele momento. Mas havia tantas coisas belas no mundo, e nenhuma delas jamais me fizera chorar, que eu fui tentado a especular uma segunda teoria.

É preciso repetir um ponto fundamental nessa especulação: as músicas de Guinga que me encantaram não tinham letra. O que me incomodou, pois não foi possível construir uma linha narrativa ou interpretar a poesia. Desconfio que essa anomalia deslocou a canção para um outro local, menos cerebral, e com influência direta sobre meu corpo – talvez por isso eu tenha me arrepiado do início ao fim.

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Fosse nas parcerias com Aldir Blanc e Paulo Cesar Pinheiro, fosse nas interpretações de Mônica Salmaso e Maria João, ou, melhor ainda, nas apresentações solo, fui desbravando os álbuns pouco famigerados do compositor do subúrbio carioca. Sinto que as canções de Guinga me remetem a um passado longínquo, onde não era precisa inventar palavras para dizer coisas. Quando o escuto, quase posso vislumbrar uma fogueira ritualística, e somos todos homosapiens celebrando e temendo os animais da lagoa de Jacarepaguá.

Às vezes, por fim, a música de Guinga me leva a viagens mais curtas.  Os acordes mais delicados somados à voz anasalada do músico me remetem às tais canções de ninar tão necessárias às travessias infantis. A vantagem da sonoridade de Guinga é que ela nos deixa sonhar à luz do dia, no meio de uma lavagem de louça. O que me transforma numa espécie de onironauta, quando vivencio uma realidade psíquica que é pacífica, perenemente pacífica.

A arte que faz chorar é aquela que nos leva ao paradoxal sentimento de estranheza e segurança. Não como se eu vivesse uma outra vida que não é minha, ou que não é mais minha, mas que eu permito ser. É mais como se eu fosse ninguém, como se eu perdesse todas as referências sobre minha própria identidade e, mesmo assim, admitir que está tudo em paz.

Essa pacificação efêmera do mundo me parece, no contexto atual, um motivo tremendo para se chorar.


LEIA TAMBÉM: A difícil e inevitável escolha que todo artista, cedo ou tarde, precisa fazer

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