Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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[Conto] Que a pizza seja louvada, amém.

24 de março de 2017

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            Existiam tantas crenças diferentes no mundo, mas sem sombra de dúvidas, Eliot não conhecia todas elas. Ele vivia sua vida banal e monótona sem acreditar em nenhuma força divina. Toda a sua família ia à igreja ao domingo, mas ele não. Seus amigos sempre o convidavam para festas da igreja, mas ele não ia. Ele sempre via sua esposa rezando antes de dormir, mas ele não o fazia, porque não acreditava em um Deus. Eliot queria acreditar e por mais estranho que pudesse parecer, ele queria uma religião. Ele queria rezar e pedir ajuda, ele queria ter uma crença, mas algo diferente do que estava em potencial.
            Pesquisou em inúmeros sites e encontrou igrejas de todos os tipos, objetos de adoração variados, mas a maioria deles não lhe parecia coerente. Ele queria algo que fosse inteligente, plausível e que ele particularmente tivesse interesse em aprender sobre.
            Os dias foram ficando difíceis, os meses foram passando e Eliot não encontrava a sua igreja e seu Deus ideal. Ele não ligava muito para as religiões mais estranhas, afinal, em seu interior, ele apenas estava em busca de algo para acreditar.

(Imagem: Deviantart/Reprodução)

            — Só o fato de não acreditar em um Deus, já te faz acreditar em algo. — Disse seu amigo.
            — Eu não aguento mais essa vida! — Gritou Eliot, realmente cansado de não ter no que acreditar.
            Havia noites em que ele discutia com sua mulher sobre seu tormento.
            — Pessoas veneram batatas, se duvidar. Por que eu não consigo acreditar que Deus pode estar em uma batata frita com molho barbecue? — perguntou, chorando aos braços da moça, que lhe acariciava os cabelos.
            — Deus não está na batata frita, Deus é uma energia muito poderosa que não pode estar em coisas tão pequenas e fúteis. — Dizia ela, tentando orientar o marido. — Não adianta chorar por isso… Deus virá até você, não se preocupe. — Disse ela.
            Assim que sua mulher terminou de falar, a campainha tocou. Era o entregador de pizza. Eliot se levantou, pegou o dinheiro na carteira, recebeu o alimento e pagou por ele. Colocou a caixa delicadamente na mesa, enquanto sua mulher pegava os pratos e os talheres. Ambos se sentaram e se serviram. A sala de jantar estava escura, e somente uma pequena lâmpada iluminava a mesa com sua luz alaranjada.
            Eliot deu a primeira mordida em sua fatia de pizza e foi acometido por um sentimento feliz, ele não pensou mais em como se sentia arrasado por não ter uma crença, aquela pizza de fato lhe fazia bem. Então, ele parou por um segundo e observou sua esposa. Ela pegou a sua fatia com uma mão e deu uma mordida, inclinando-se para trás e esticando o queijo derretido. Eliot observava isso como se o mundo estivesse em câmera lenta. Voltou seus olhos para a caixa de pizza e viu como as gotículas de óleo brilhavam sob a luz alaranjada. A pizza era linda, útil, lhe fazia feliz e ele tinha de pagar por ela. Naquele momento, ele teve de fato, uma provação divina e concluiu que Deus realmente veio até ele, Deus era a pizza.
            Eliot queria algum lugar para poder louvar a pizza, um lugar onde ele pudesse encontrar pessoas que quisessem louvá-la com tanto amor quanto ele louvava. Depois de muita insistência, Eliot conseguiu o apoio financeiro de sua mulher para abrir sua própria igreja da pizza. Comprou um pequeno estabelecimento onde antes era uma lanchonete que falira. Decorou as paredes com imagens de pizza e mandou fazer uma escultura de pizza para colocar no centro. Não demorou muito até pessoas começaram a aparecer, os cultos incluíam louvar a pizza e depois pedir grandes quantidades do alimento e comê-lo, para sentir ainda mais a presença de sua divindade no interior dos irmãos ali reunidos.
            Muitas pessoas começaram a frequentar a igreja e logo Eliot precisou comprar um lugar maior. Outras pessoas na cidade gostaram de sua ideia e outras igrejas da pizza começaram a surgir, em um ano, o país inteiro havia adotado a adoração à pizza.
            Eliot era o pastor de sua igreja e sempre conduzia os cultos da melhor maneira.
            — Irmãos, estamos hoje aqui reunidos, para louvar aquilo que nos traz paz interior, que nos dá energia, que nos dá forças, que nos dá prazer e alegrias! — Gritava e em seguida comia um pedaço de sua pizza de mussarela com louvor.
            As pessoas batiam palmas, erguiam os braços no ar e gritavam em consentimento.
            — Vamos começar a oração. — Declarava e todos se ajoelhavam e oravam em coro: — Pizza nossa que estás aqui, santificado seja o vosso nome, venha a nós pelo entregador, nos dê saciedade, assim na igreja como em casa. A alegria nossa de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas gulas, assim como perdoamos os irmãos que comem mais. E não nos deixeis cair em intoxicação alimentar, mas livrai-nos do mal, amém!
            Todos os irmãos se levantavam e iam até as mesas onde as caixas de pizzas estavam abertas, revelando uma infinidade de sabores. As pizzarias nunca ganharam tanto dinheiro e as pessoas que louvavam as pizzas nunca foram tão felizes.
Por Sara Muniz, colunista, às sextas-feiras, no blog Recorte Lírico.