Não era mais o tempo de dar frutos
Quando o Senhor pediu maduros figos
Para a figueira em folha e galhos brutos,
E assim, então, tornaram-se inimigos.
De praxe que o divino amaldiçoa
– e isso já se vê desde os antigos –
Aquele que ouve o Verbo e não entoa
O canto que do Verbo tem ouvido.
Se ouvires hoje a voz que te apregoa
Não feches os sentidos, abatido.
Não digas "já não há mais Poesia",
Afina a lira e limpa o seu ruído.
Verás que nesta triste travessia
A graça supre o que in natura falta.
Procura ter a santa teimosia;
Por entre escombros, a Beleza exalta.
Se o tempo da colheita te afigura
Passado, tal cadáver que ressalta
O infértil coração dado à secura,
Que o Verbo se te encarne nas palavras
E colha o fruto e traga, enfim, a cura
Ao campo de tristezas que tu lavras.
A Helô é Bacharel em Filosofia pela UFPR e mestranda em Filosofia Medieval pela USP. Também é poeta, cronista, tradutora e observadora assídua de caleidoscópios. Gosta de responder emails: [email protected]
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