Celso, mais um mano

Celso, mais um mano

Celso gostava daquele supermercado. Nunca foi seguido por seguranças ali, e descobriu que fazer compras é prazeroso quando não se tem de ficar preocupado em parecer inocente.

Antes, as compras eram uma tarefa apressada. Ali, era relaxante como um bom banho quente. Chegava, colocava suas coisas num guarda-volumes, pegava um carrinho e ia toda vida. Atividade gostosa de se prolongar enquanto se fica divagando.

Com esse tempo extra para pensar, começou a ter epifanias. Na primeira delas, se convenceu de que racistas são, dentre tudo o que um racista pode ser, burros.

Ora, isso é o mano Celso pensando, todos os estabelecimentos que chegam a contratar um segurança, instalaram câmeras, não? Pra quer ficar seguindo os caras se podem acompanhar pelas câmeras? Sabem nem disfarçar.

Tinha certeza de que todos os supermercados onde fora seguido possuíam câmeras aos montes. Não basta?

Lembrou do Caruso usando o Chris como chamariz achou graça, convencido de que, se tivesse câmeras e pessoas vigiando por elas, também só teriam vigiado o beiçudo.

Ah, mas aqui não! pensou mano Celso, parando e olhando as prateleiras em volta. Aqui é suave. Olha só aquele cara, por exemplo, abrindo a mochila e tirando uma lista de compras de dentro dela sem se preocupar em ter alguém preocupado em saber se ele vai enfiar alguma daquelas garrafas caras de vinho dentro.

Afastou-se e começou a sentir um estranhamento, a sensação de que alguma coisa estava fora do lugar, como se tivesse saído de casa e esquecido algo importante. Descobriu o que era enquanto comparava o preço do Nescau e do Toddy para decidir qual levar.

Mas por que aquele cara estava com mochila aqui dentro?, mano Celso se perguntou. Pelo que se lembrava, haviam lhe dito na primeira vez que viera que mochilas, bolsas e sacolas ficavam no guarda volume. Desde então, naturalmente, passa primeiro no guarda-volumes, tira sua carteira, a lista, e entra.

Deu de ombros como se quisesse deixar pra lá. Continuou suas compras e foi embora, mas sua cisma voltou durante o banho mais tarde.

Quando voltou ao supermercado para fazer compras, entrou passando por dois caixas vazios, e não pela entrada normal. Arranjou um carrinho vazio, parou uma vez no canto de um corredor, abriu a mochila e tirou a lista de compras.

Depois parou junto ao corredor de bebidas, abriu a mochila, tirou uma caneta e foi riscando o que já tinha pegado.

Quando parou no corredor dos biscoitos, abriu a mochila e tirou o celular para fazer cálculos e comparar os preços.

Neste dia, não só foi “despistadamente” seguido, como pediram para revistar sua mochila na saída. Encontrou-se um pacote de biscoito vazio e já se estava checando nas câmeras se havia sido consumido ali, mesmo com Celso e diversos funcionários afirmando que sequer vendiam daquele biscoito no supermercado, além de um dos caras da câmera dando a entender que era desnecessário reassitir o que ele já havia assistido ao vivo.

Celso confirmou sua tese. Não processou o supermercado porque fez de propósito, mas de vez em quando bate um arrependimentozinho.

Leia também: Momentos antes de fechar o cartório

Farrel Kautely

Farrel Kautely

Farrel Kautely, 1994, é de Belo Horizonte. Escritor e professor, atualmente reside em Mariana - MG, onde cursa Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto. Possui várias obras publicadas, dentre elas "Minúscula Pulga" (romance), "Picas da Galáxia" e "Sushipeia" (crônicas) e "O mínimo que você precisa fazer para ser um completo idiota" (ensaios e pequenos artigos). E-mail: kauty.s@gmail.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *