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O martelo e a taça

A madame sentada confortável diante do quadro não esboça qualquer emoção ao contemplá-lo embora cercada por tantos outros que se poderiam somar à sua reflexão tão impenetrável quanto seu rosto imóvel.

Ela balança a taça de vinho, molha vez por outra os lábios, move agudamente as pernas. Descreve com a mão livre os traços do que pode ser a pintura à sua frente ou apenas um cálculo mental dos custos de uma viagem futura.

Os outros quadros, em uma ciranda, trocam impressões acerca dela que exigiu a cadeira em que está, encomendou a garrafa de vinho e trouxe consigo a taça acondicionada em uma valise. Nada parecia perturbá-la. Os cabelos longos em um coque deixavam entrever uma nuca bonita, seguida por ombros delicados e costas seminuas. Os seios marcavam o vestido leve, atraindo a atenção dos rapazes de um grupo escolar que transitava pelas outras alas.

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Ela não parecia se incomodar com a curiosidade a respeito de seu corpo, sabia-se atraente, embora tivesse deixado para trás os quarenta anos.

Olhou o quadro uma outra vez com tamanha perplexidade que um dos
monitores se aproximou com a intenção de esclarecê-la acerca da pintura, da técnica empregada, da circunstância em que foi executada, da vida miserável do artista. Ela não foi receptiva ao gesto, mostrou-se enfarada, distraiu-se da fala com um gole do vinho caro. Levantou-se da cadeira, andou pela fileira ignorada de quadros, seguida pelo falatório do monitor. O vinho arrefecia a voz estridente do explanador, algum estagiário de História da Arte, sem nenhuma vontade real de lhe dizer qualquer coisa verdadeira acerca da pintura ou da técnica ou da vida miserável do artista, repleto de vontade de estar na praia, com a namorada, fumando um baseado nas pedras, aplaudindo o pôr do sol.

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Ela deixou-se desinteressada diante de uma janela com vista para a baía, o mar acinzentado e o céu azul de poucas nuvens. Sem nenhuma voz por perto, ela retornou à cadeira, apoiou-se às costas dela, olhou o quadro à sua frente, sem evitar a sua forma geral como havia feito até ali. Suas impressões se reorganizaram acerca do que pensava anteriormente; a gentileza ruidosa do monitor quase precipitou um desastre interior interrompido por uma zona da pintura sem qualquer importância.

Ao mirá-la, ela, a madame, acrescentou mais vinho à taça. Lembrou-se de algo desagradável. Sacudiu a cabeça para enxotá-lo de sua imaginação. Os outros quadros mantinham-se estupefatos com a absorção com que ela se punha diante daquela pequena pintura que caberia muito bem em uma bolsa feminina como a dela. Os funcionários cochichavam a respeito da grã-fina. O expediente próximo do fim.

Ela levanta uma das mãos, acena para o segurança. Explica um problema em um dos sapatos, pede um martelo para consertá-lo. O pedido inusitado é
encarado sem desconfiança, ninguém a acha perigosa. Só excêntrica. Recorrem ao funcionário da manutenção. O martelo lhe é dado. Ela descalça os sapatos, retira da bolsa um suporte. O tamanho é compatível com o do quadro observado apesar de embrulhado. Descalça, ela, de cócoras, fita a pintura com mais agudez.

A garrafa de vinho quase no fim. A taça e o martelo dividem o assento da
cadeira. O embrulho em suas mãos. A madame pede a um monitor auxílio. Ele não desperdiça a oportunidade, retoma a falação. Ela pede silêncio, repassa o embrulho, logo aberto pelo monitor por insistência dela. É o mesmo quadro. A grã-fina mostra a nota fiscal. Uma fortuna. O martelo cresce em sentido.

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