Atualização dos personagens do folclore brasileiro para dar medo de verdade

Atualização dos personagens do folclore brasileiro para dar medo de verdade

Você tem medo de que? Hoje é o dia das bruxas lá para os caras do hemisfério norte e isso é mais lembrado aqui abaixo dos trópicos que o dia 22 de agosto. Mas, como bom vira-lata – gosto mesmo e é melhor que qualquer outra grife – venho trazer uma atualização para a gama de personagens do nosso folclore. Se é para sentir medo ou só atualizar a lista de personagens brasileiros, embarquem aqui.

O nosso folclore tem lá suas contradições. O lado lúdico temos os já conhecidos saci-pererê, curupira, boitatá, mula-sem-cabeça, boto cor-de-rosa, entre outros. Do lado do realismo temos o primo estelionatário, o cunhado empreendedor, o tio alcoólatra que chama todo mundo de maconheiro, o primo gay bem-sucedido, a prima concursada que defende meritocracia, o vizinho entusiasta de esquemas de pirâmides, o concunhado que prefere ficar sempre em silêncio. Imagine uma reunião em família com todos fantasiados. Não é fascinante?

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Tem também a professora que fala que alguns alunos não serão nada na vida, o pai que vende voto, a avó que diz que a neta da amiga não é mulher direita. Nisso tem também aquele cara que separa mulheres para passar tempo e mulheres para casar. Tem também a moça que diz que não é feminista porque ela mesma decide o que quer ser da vida. É, provavelmente, amiga daquela mulher rica que chora miséria para pagar que alguém faça tudo por ela. “Você pode dormir aqui hoje? Te pago dez reais a mais”, diz a patroa para a diarista.

Tem o professor que não gosta de aluno que questiona. Tem o escritor que não gosta de ler. Tem o cara que odeia homossexuais, mas tem um namorado escondido. Tem também a mulher que nasceu em família rica e diz que não tem culpa de ser privilegiada. Tem aquele que defende a honestidade na política, mas plagiou vários trabalhos na faculdade e pagou para que alguém fizesse o TCC pra ele. Foi protestar contra a corrupção, mas usa carteirinha falsa para pagar meia entrada. Tem aquele cidadão que usa aplicativo da Lei Seca para poder beber e dirigir em paz. Tem aquele rapaz que raramente vai para áreas de mata e quando vai reclama de desmatamento jogando papel de biscoito no chão. É o mesmo que reclama de falta de água e assim que ela volta toma um banho de trinta minutos. Ou, pior, reclama dos “eco-chatos”.

Podemos nos assustar com o cristão que defende a pena de morte. Ou com o sujeito que brada contra a corrupção desde que não mexam em seu gato de energia. Esse deve ser aquele pai que adora tirar onda com o filho bonitão, mas não paga pensão há cinco anos. Deve torcer para ele chegar logo à maioridade. É aquele conhecido que morre de ciúmes da esposa, mas tem duas amantes. O amigo dele condena publicamente quem fuma maconha e não dispensava aquele loló no carnaval na Região dos Lagos. Se der mole no próximo carnaval tem de novo. Vai vendo…

“Bandido bom é bandido morto”, disse o amigo de bar. Mas não é crime roubar chocolate nas Lojas Americanas? Não, calma aí, foi só uma brincadeira. Mas não é crime dirigir alcoolizado? Era só uma brincadeira. Foi o que ele disse também quando fez “piada” com escravidão, quando chamou uma menina de puta por ela estar de saia curta e falou que o mau humor da prima era falta de foda. Ah, ele também se defende dizendo que tiraram a frase de contexto ou que foi má fé da edição.


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Mas tem também os personagens do folclore brasileiro que são apenas engraçados. Tem o tio dos trocadilhos, o tio-avô das piadas de português, a avó que não assume a flatulência, a vizinha fofoqueira, a prima que fala espanhol hilário, a tia da voz esganiçada que canta sempre, o amigo que faz vergonha quando bebe, o amigo que não tem cacoete para futebol e quer jogar sempre, a menina que não sabe sambar e inventa numa dança nova, por aí vai.

Se você deseja participar de alguma festa para comemorar esse dia espero que estes parágrafos tenham ajudado. Em tempos de crise, economizar grana com fantasia é uma boa, não? Feliz Dia das Bruxas ou Halloween.

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Thiago Kuerques

Thiago Kuerques

Thiago Kuerques, iguaçuano, é contista, cronista e romancista tendo publicado O Cara Que Não Publicava Livros (2012), Ensaio dos Poemas Pelados (2013), Território (2017), A Balada do Esquecido (2018) e Tordesilhas (2019). Atua como jornalista no Site da Baixada. Em 2017 venceu o Prêmio Baixada na categoria Literatura. É professor de literatura em formação pela UFF. Realiza oficinas de escrita criativa, microcontos e palestras literárias para jovens e adultos.

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