Um pedaço do inferno: traduzindo um trecho de “Ulysses”

Um pedaço do inferno: traduzindo um trecho de “Ulysses”

Um Pequeno Prólogo de um Tradutor Chato:

Na verdade, com todo respeito, contrariando o Sr. Bloom, algumas páginas, abaixo, penso que não é em meio da morte que nós estamos na vida, mas – sim – meio à vida que estamos na morte. O próprio dia dele revela isso.

Ele vai à padaria, ao açougueiro, deixa a mulher preguiçosa (e possível traidora) na cama, vai à biblioteca, à imprensa, até à maternidade. E, no meio disto tudo, um incidente bem desagradável: a morte do Dignam. Memento mori. Vai ter de sair ao sol de traje preto. Mesmo em pleno verão. Vai ter de encarar a morte (e lembrar a dolorosa morte de seu rebento, ainda criança e a de seu pai, por suicídio.).

Ele já, logo, apresenta o Caronte, quer dizer, o Zelador dos dublinenses. Ninguém quer ficar mal com ele. Tenta mudar os pensamentos o tempo inteiro, o anúncio, como o envelope ficou marcado (ou não), se vai ficar preso nos correios, enfim. Como sua vida continuará depois do funeral, daquele evento – vamos dizer – burocrático.

E ele começa a tornar-se sombrio. Vai falando sobre os fogos-fátuos, dos cadáveres em putrefação numa mistura byroniana ou baudelaireana. Algo do tipo. Naturalmente, pensa sobre sexo e amor, como eles podem ser parecidos com a morte. Ou serem uma representação da morte.

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Justamente falando da morte dos outros, dos corpos podres, do líquido e do bom adubo que eles produzem, ele consegue evitar pensar nos seus mortos e na sua própria morte. Todos nós fazemos isso: evitamos pensar na morte. Mesmo quando ela está ali, logo ao lado; fazemos questão de ignorar o elefante no meio da cozinha. Ele lembra até da clássica cena dos coveiros de Hamlet. Das histórias de fantasmas, que são um clássico aos anglo-saxônicos.

Dois para sexta-feira, dia 17. Mais dois. Ou menos dois. O fato é que o campo santo, à parte da cidade, onde a ‘vida’ habita e para onde o Sr. Bloom irá depois continua em pleno vapor, com indivíduos que se acham imortais, porque saudáveis. Ele, também, tem de almoçar, tomar banho, masturbar-se e – por fim – chegar à casa e deitar-se mais uma vez (talvez a última?) em sua cama, ao lado de Molly. A morte, no dia 16, para o Leopold foi apenas um compromisso. O velório de um amigo querido. Mas, mesmo assim, o diabo não deixou de aparecer com seu casaco fashion. O número treze. A carta da morte no tarot. Sr. Bloom não acredita muito nisso, mas leva sempre uma batata consigo. Aos supersticiosos ou não, eis o texto:

HADES

[…]

Sr. Bloom admirava a presença massiva do zelador. Todos querem ficar às boas com ele. Camarada decente, John O’Connel, um tipo dos bons. Chaves: como o anúncio do Shaves: sem medo de alguém sair, sem qualquer tipo de verificação ou aprovação. Habeas Corpus. Eu tenho de dar uma olhada naquele anúncio depois do funeral. Eu escrevi Ballsbridge no envelope que tive de esconder quando ela me atrapalhou escrevendo para a Martha. Espero que não fique encalhado no arquivo morto do correio. Poderia estar melhor barbeado. Cinzenta barba crescendo. É o primeiro sinal quando os cabelos começam a ficar grisalhos e os modos, rabugentos. Fios prateados entremeando os cinza. Ser a mulher dele. Fico imaginando as pompas dele para as moças. Saiamos e vivamos no cemitério. Balance isto diante dela. Cortejando a morte… Tons de noite pairando aqui com todos esses mortos espalhados por aí. As sombras das tumbas quando os cemitérios bocejam e Daniel O’Connel era descendente do que se poderia chamar de uma estranha raça de homens exemplares e católicos do mesmo modo que uma sombra gigante no escuro. Fogo-fátuo. Gás das sepulturas. Manter a mente dela longe disso para conceber. Mulheres são especialmente sensíveis. Contar a ela uma história de fantasmas na cama para fazê-la dormir. Você já viu um fantasma? Bom, eu já. Era uma noitebreu. O relógio cravava a meia-noite. Ainda assim davam uns beijos, se devidamente chaveados. Putas nos cemitérios turcos. Aprendem qualquer coisa, se pegas bem novinhas. Você consegue arrumar uma viuvinha aqui. Homens gostam da coisa. Amor entre as sepulturas. Romeu. Apimenta o prazer. Em meio da morte nós estamos na vida. Os extremos se tocam. Tantalizante para os pobres finados. Cheiro de bifes grelhados para os mortos de fome mastigando suas próprias entranhas. Desejo de chatear os outros. Molly querendo fazer na janela. Ele tinha oito filhos afinal de contas.

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Ele tinha visto numa boa parte do seu tempo, caindo ao seu redor campo após campo. Campos santos. Mais espaços se eles fossem enterrados de pé. Sentados ou de joelhos não dá. Em pé? Suas cabeças podem vir à tona em algum deslizamento de terra com a mão apontando. Todo favo de mel no chão deve ser: células oblongas. Ele mantém tudo arrumado ele cuida muito também, aparando a grama e as bordas do túmulos. A grande jogada do Major Gamble é chamar seu jardim de Mount Jerome. Bem e é mesmo. Deveria ter dorme-dorme. Cemitérios chineses com papoulas enormes crescendo e produzindo o melhor ópio o Mastiasnky me contou. Os Jardins Botânicos são logo ali. É o sangue afundando na terra que dá vida nova. A mesma coisa disseram aqueles judeus que mataram o menino cristão. Todo homem tem seu preço. Bem preservados os gordos cadáveres dos senhores, epicúreos, inestimáveis para as frutas do jardim. Uma barganha. Pela carcaça de William Wilkinson, auditor e contador, tardiamente falecido, treze libras treze e seis. Com todos os agradecimentos.

Eu ousaria dizer que a terra fica gorda com o adubo de cadáver, ossos, carne, unhas, sepulturas. Terrível. Ficando verde e rosa, decompondo-se. Apodrece bem rápido na terra úmida. Os velho magros mais duros. Então, uma espécie de sebo de queijo. Então, eles começam a empretecer, uma melaço escorrendo deles. Então, eles secam. Traçasdamorte. É lógico que as células ou que quer que seja continuem vivendo. Vão Mutando-se. Vivem para sempre praticamente. Nada se alimenta e elas comem a si mesmas.

Mas eles têm de criar uma porrada de larvas. O solo deve estar simplesmente girando com eles. Suas cabeças simplesmente giram. Essas garotinhas da praça. Ele parece alegre o suficiente para isso. Dá a ele um senso de poder ver os outros afundando. Fico me perguntando como ele vê a vida. Contando suas piadas também: aquece os berbigões do coração. O único sobre o boletim. Spurgeon foi para o céu às quatro da manhã de hoje. Onze da noite (hora de baixar as portas). Ainda não chegou. Peter. Os próprios mortos que os homens de qualquer maneira gostariam de ouvir uma piada estranha ou as mulheres, para saber o que está na moda. Uma pera suculenta ou um ponche de madame, quente, forte e doce. Mantenha fora da umidade. Você tem de dar uma risada às vezes é a melhor maneira de fazer as coisas de forma adequada. Os coveiros em Hamlet. Mostra o profundo conhecimento do coração humano. Não faziam piadinhas sobre a morte por dois anos pelo menos. De mortuis nil nisi prius. Sair de luto primeiro. Duro de imaginar seu funeral. Parece brincadeira. Ler o próprio anúncio de obituário dizem que dá vida longa. Dá pra você uma segunda chance. Nova concessão de vida.

– Quantos você tem para amanhã? O zelador perguntou.

– Dois. Corny Kelleher falou. Dez e meia e onze. Carrinho de mão havia parado de rodar. Os enlutados se divido em duas fileiras para cada lado buraco, pisando com cuidado nas bordas dos túmulos. Os coveiros carregaram o caixão à altura do nariz, enrolando as faixas em volta do caixão.

Entendo ele. Nós vamos enterrar César. Seus idos de março ou junho. E ele não sabe quem está aqui e não se importa minimamente.

Agora quem é aquele paudeviratripas de trench-coat? Agora quem é ele é que eu gostaria de saber? Agora eu dava uma prenda para quem soubesse quem ele é. Sempre alguém que você nem sonhava. Uma camarada pode viver a própria vida inteiramente sozinho. Claro que pode. Mas ainda assim, ele teria que arranjar alguém para dar um empurrãozinho depois que ele morresse mesmo que pudesse cavar a própria cova antes. Todos nós fazemos isso. Apenas os homens enterram. Não as formigas também. Primeira coisa que atinge alguém. Enterrar os mortos. Vamos dizer que Robinson Crosué seja razoável. Bom, então talvez uma sexta enterrou ele. Toda sexta-feira enterra uma quinta se você olhar bem de perto.

Ó, pobre Robinson Crosué,

Você pôde fazer isso, é?

Pobre Dignam! Seu último repouso na terra nesse caixão. Quando você pensa neles todos e no tanto de madeira gasta nisto tudo. Tudo corroído ao redor. Eles podiam inventar um belo rabecão com um tipo de rampa em que o presunto desliza por ali até no buraco. Ah mas eles poderiam enterrar os camaradas por engano. Eles são muito peculiares. Enterrem a mim em minha terra natal. Pedacinho de barro da terra santa. Apenas uma mãe com um filho natimorto podem ser enterrados no mesmo caixão. Eu sei bem o que isso significa. Eu que sei. Pra dar proteção à criança enquanto for possível, mesmo embaixo da terra. A casa de um irlandês é seu próprio caixão. Embalsamar em catacumbas, múmias, a mesma coisa.

O Sr. Bloom manteve-se bem atrás, com o chapéu na mão, contando as cabeças à mostra. Doze. Eu sou o treze. Número da morte. De onde diabos ele apareceu? Ele não estava na capela, juro de péjunto. Superstição boba essa do número treze.

Suave e macio Ned Lambert estava metido em seu traje de Tweed. Tingido de carmim. Eu tinha um igualzinho quando nós vivíamos na Lombard Street West. Elegante companheiro que ele foi. Costumava trocar de terno três vezes ao dia. Tem que levar aquele meu traje cinza pro Mesias revirar. Opa. Está tingido. Sua esposa eu esqueci que ele não é casado. A locatária ajeitou os fios para ele.

[…]

REFERÊNCIA:
JOYCE, James. Ulysses. New York: Modern Library, 1934. 783p.
Carlos Eduardo Heinig

Carlos Eduardo Heinig

Graduado em Letras Português-Inglês pela Universidade Regional de Blumenau, Mestrando em Estudos da Tradução na Universidade Federal de Santa Catarina. É poeta, escritor e ensaísta. E-mail: cc.eduardohhhh@gmail.com

2 comentários sobre “Um pedaço do inferno: traduzindo um trecho de “Ulysses”

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