O tempo do vírus e o nosso tempo

O tempo do vírus e o nosso tempo

Eu ainda vinha com a “noção de tempo” de quem corre nas grandes cidades, abro uma porta apressadamente para tentar despachar a consulta oncológica no hospital, deparo-me com um senhor idoso que quase foi abalroado com a minha forma bruta e apressada de querer atravessar as portas, ele percebeu que eu estava no início do processo, era um neófito das doenças graves e diz-me “aqui é tudo com calma, a primeira coisa que muda aqui é a nossa noção de tempo” e acrescentou “sabe? aqui revemos as nossas conceções”. E seguiu algaliado em busca de uma varanda vaga para fumar o cigarro da tranquilidade dos condenados à estagnação e morosidade hospitalar.

Nunca esqueci aquela figura em robe, nos hospitais e nas casas de putas (puteiros) perdemos o pudor, e aquela frase pareceu-me vagamente familiar.

Este escaravelho que invadiu o planeta também veio alterar a nossa noção de tempo, até há “um novo normal”, eufemismo para a anormalidade total. Parece que a nossa vida está parada… e está mesmo…e mais, está parada a vida de toda a gente, nem há mais vida como a tínhamos, agora teremos uma nova vida, se sobrarmos de muitas mortes.

Quando ela disse ao cirurgião oncológico “a minha vida acabou”, ele respondeu “não, o que acabou foi a tua vida cor de rosa, o cancro acaba com as vidas cor de rosa que temos na nossa mente e dá-nos uma nova vida”.

Sim, dr. Miguel Villares, acabou a nossa vida cor de rosa, os contos de fadas que tínhamos nas nossas cabeças, os restaurantes apinhados, a sofreguidão da viagem pela viagem, o consumismo vazio, agora teremos uma nova vida possível e muitas mortes.

Vamos todos rever a nossa noção de tempo, de agenda, do que significa sentir que a vida está a progredir.

2021 ia ser melhor que 2020, disseram os viciados em felicidade, mas temos de rever a noção de tempo.

Para já vamos tentar sobreviver biologicamente, depois teremos o problema da situação económico-financeira e depois veremos em que novo mundo aterrámos.

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Hoje, deitado, curtindo as manhãs frias e a melancolia das minhas ausências, lendo A Montanha Mágica, percebi de onde o senhor idoso algaliado tinha tirado a frase, só nunca pensei que a humanidade toda fosse viver nesta montanha mágica, sinto que vivemos todos num grande hospital.

“- Ah, o tempo – disse Joachim, balançando a cabeça várias vezes, sempre em frente, sem se preocupar com a notória indignação do primo. “Eles não se importam com o tempo humano, nem vais acreditar no que vês. Para eles, três semanas é apenas um dia, vais ver. Vais aprender isso tudo”, e acrescentou: “Aqui, revemos as  nossas conceções”.

Thomas Mann, A Montanha Mágica

Para já resistiremos, depois teremos uma vida diferente da cor de rosa imaginária do antigo normal.

Mas teremos de rever os nossos valores…

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Frank Wan

Frank Wan

Frank Wan é escritor, professor, pesquisador, tradutor, co-editor do Recorte Lírico, editor da Scripsi e outras. Vive, de momento, em Portugal. E-mail: ira.wan@hotmail.com

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