Sócrates, personagem de Platão ou o Xaropinho platônico

Sócrates, personagem de Platão ou o Xaropinho platônico

O de ombros largos

A VERDADE SOBRE SANCHO PANÇA

Sancho Pança, que por sinal nunca se vangloriou disso, no curso dos anos conseguiu, oferecendo-lhe inúmeros romances de cavalaria e de salteadores nas horas do anoitecer e da noite, afastar de si o seu demônio ― a quem mais tarde deu o nome de D. Quixote ― de tal maneira que este, fora de controle, realizou os atos mais loucos, os quais no entanto, por falta de um objeto predeterminado ― que deveria ser precisamente Sancho Pança ―, não prejudicaram ninguém. Sancho Pança, um homem livre, acompanhou imperturbável, talvez por um certo senso de responsabilidade, D. Quixote nas suas sortidas, retirando delas um grande e proveitoso divertimento até o fim de seus dias.

Franz KAFKA, Narrativas do espólio

O jovem Arístocles caminhava em direção ao Ginásio. Altivo, sentia os olhos dos homens mais velhos percorrendo o seu corpo. Gostava disso. Sabia-se desejado. Em sua casa, dizia-se, “à boca pequena”, que era filho natural do grande Sólon, legislador e poeta. Uma reunião que havia durado mais do que o previsto, na casa da sua família, e Sólon resolveu se distrair um pouco com a sua mãe, companheira de outros folguedos. De seu pai, daquele que havia lhe dado um nome, não se dizia nada e este nada dizia. Arístocles sabia que seria poeta e legislador.

Enquanto caminhava, um homem mais velho, sujo e careca, em um grego de plebe e trincheira, lhe manda uma graçola:

“Τι κώλο, ελάτε, ελιά?”

Ele olha com desprezo. Nota que o homem não está só. Aliás, encontra-se acompanhado de alguns conhecidos seus. Sozinho, melhor não revidar. Segue reto ao ginásio.


“Quem era aquele homem que acompanhavas ontem, Apolodoro?”

“Não o conheces, Arístocles? É o famoso Sócrates, o herói da guerra, que conversa com as pessoas de bem no meio da rua”.

“Aquele do Aristófanes?”

“Sim, mas ele não é só o do Aristófanes, o personagem bufo das comédias. Ele passa o dia conversando e instruindo pessoas sobre a sua visão e sua religião antiga, a das primeiras mulheres. Na guerra, teve por companheiro o bruto do Xenofonte, eternamente seu erastes, nunca bafejado pelas dádivas de Anteros. Ele não cobra pela conversa, como diz, maledicentemente, o nosso Aristófanes. Quando recebe algo, é vinho. Que toma na frente daquele que ofertou, não importa a quantidade”.

“É então um bêbado”.

“Jamais fica bêbado, Arístocles”.

“E as palavras vulgares, de onde vêm, querido Apolodoro?”

“Das ruas, da vida real, querido Arístocles. Nem todos são nobres, como nós, como tu”.

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Arístocles soube da prisão do tal Sócrates, acusado de corromper a juventude ateniense. Sorriu, vendo a que ponto estavam chegando as autoridades. Era sinal dos tempos ímpios que se preocupassem com bêbados nas ruas e não em realmente governar, em dar a quem mereça o governo sobre os outros. Esse era o governo “dos homens de bem”. Como distração, foi ver aquilo que estava se tornando um famoso julgamento. O julgamento do bêbado do Licabeto, dizia em voz alta e sorria.


A causa da família de Arístocles fora derrotada. Atenas perdera a guerra para Esparta. Era questão de dias a invasão, a derrota, e, finalmente, a decadência. Viajando para a Sicília, em uma pequena fuga, encontrou-se na casa de Euclides, o grande matemático, que lhe mostrou os princípios pitagóricos do ser. Ficou deslumbrado. Com o auxílio da matemática, antevia o que sempre adivinhara, que o Deus é o número e não uma metáfora azeda de nós. Deus é uno e verdadeiro, como no texto antigo de Parmênides. Mas sem charadas. Conseguiu, de seu anfitrião, outros textos. Além disso, pôde, com a ajuda de Euclides, realizar uma viagem ao Egito.

Lá, entrou em contato com os sacerdotes. Mais acessíveis (devido ao “recente” domínio dos faraós negros, do grande faraó Piye, o Senhor das Duas Terras, restaurador do Egito), os conhecimentos de milênios conheciam a luz do dia. Aqueles, os sacerdotes, eram verdadeiros amigos do saber. Um modelo de governo e controle. Arístocles ficava cada dia mais deslumbrado com a organização do cosmos. Na segunda Tebas, a egípcia, encontrou-se com magos, mas estes se mostraram meros burocratas do Ser, tentando velar o Ser com jogos de magia e aparência. Do Egito, já tinha o que bastava.


Alguns anos depois, novamente na Sicília, Arístocles tentaria aplicar o “modelo egípcio”, de saber e política, com a ajuda de seu erômenos, Dion, sobrinho do rei Dionísio I. Mas Dionísio mostrou-se digno de seu nome, mais beberrão e volúvel que o usual, apenas mera cópia do falso deus. Tendo que fugir da Sicília rapidamente, como antes de Atenas, Arístocles encontrava-se inconsolável. Não veria a sua República ganhar vida. Não veria o seu ideal tomar forma na realidade. Sabia da natureza dos homens, mas acreditava ser possível, com força e justiça, governar para o melhor.


Em Atenas, Arístocles, caminhando em direção ao Ginásio, indo admirar os belos corpos dos jovens, lembrou-se de uma tarde antiga, e da vulgaridade de um velho bêbado, que, usando a desculpa da chegada de um navio, conseguira adiar a morte e fugira durante a noite para algum lugar desconhecido. De um velho que ninguém lembrava mais.

E entendeu.

O herói, a fantasia, o tempo, o controle. Entendeu e saiu correndo, como um nobre não deve fazer – de volta para sua casa, no Jardim de Academios.


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Patrício Alves

Patrício Alves

Pai, professor e poeta.

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