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O crime que veio do frio, ou o Noir Nórdico

Nos últimos anos apareceram nos escaparates diversos autores de livros policiais com nomes estranhos. Os autores escandinavos, de fato, têm “nomes estranhos” e até impronunciáveis.

Nos últimos anos apareceram nos escaparates diversos autores de livros policiais com nomes estranhos. Os autores escandinavos, de fato, têm “nomes estranhos” e até impronunciáveis. Não se trata de autores escandinavos que experimentam o género literário policial, estamos mesmo na presença de um novo género literário: o chamado “Noir nórdico” ou “Noir escandinavo”. Alguns autores são bastante famosos porque estão na origem de séries da Netflix e o Noir Nórdico também designa este tipo de série televisiva.

A história do género policial é demasiado vasta e com fronteiras difíceis de traçar, Henning Mankell pergunta mesmo se quase toda a Literatura não poderia ser classificada de Literatura Policial, dos crimes da Odisseia aos diversos processos bíblicos, de Medeia a todas as carnificinas. Nos últimos decénios, a grande coroa da Literatura policial era a aproximação à Literatura, deixando, assim, de ser um género menor, de entretenimento e de uso exclusivo do público com pouca formação e sensibilidade literária.

O crime que veio do frio, ou o Noir Nórdico
Henning Mankell é para muitos o pai do género “Noir Escandinavo”.
Não tem medo de escrever uns calhamaços gigantescos, uma vez que, segundo ele, quem está preocupado com o número de páginas não é leitor: o verdadeiro leitor almeja uma experiência de leitura, não lê com o cronómetro na mão.

Um dia, na minha infância longínqua, com os meus tios, fui verificar o que a minha tia, pianista de concerto reformada, estava a ler ao serão e fui informado que lia um romance do François Mauriac, já o meu tio lutava mais com o sono do que com o livro, não o quis acordar para verificar o que lia, mas fui informado pela minha tia que ele, coitado, estava a ler um romancezito policial. Aquele “coitado” denunciava um leitor de pouca envergadura literária e o “romancezito” era mais um diminutivo humilhante. O preconceito foi-me assim inoculado em tenra idade e só Georges Simenon, muito mais tarde, me salvou.

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Geralmente o Noir Nordic tem como personagens principais polícias e investigadores oficiais, é raro o recurso a personagens bizarras e com atributos especiais, tipo Sherlock Holmes ou Poirot. Não há recurso a velhinhas particularmente perspicazes e ociosas que se movem em ambientes tipo casa de campo inglesa e famílias nobres, resolvendo mistérios entre o chá e os biscoitos com uma ajuda ténue de algum polícia normalmente bastante obtuso.

O estilo de escrita é bastante despido de ornamentos quase imitando o relatório de polícia, os procedimentos policiais e a vida monótona e pouco glamorosa de uma esquadra de polícia, no fundo, é a perspectiva de um polícia escrito com a sintaxe dos relatórios oficiais.

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Curiosamente, sendo escrito no prisma policial, há como que um apagamento da personalidade do polícia: o polícia não é nem um herói poderoso, nem um anti-herói que em meio à sua luta com o álcool, divórcio, perda dos pais, depressão, vai resolvendo os mistérios. O polícia anda por ali, é um funcionário e a sua vida simplesmente vai se cruzando com o seu trabalho.         

Tudo respira a Escandinávia: a neve, os ambientes gélidos, as sociedades organizadas e aparentemente pacíficas. O Noir Nórdico vive da tensão dessa aparente e falsa organização social com a explosão da violência dos crimes mais sangrentos, tornando-se assim, estranhamente, um estilo literário de grande denúncia sociopolítica.

Quer no  Noir nórdico escrito, quer filmado, há um ritmo narrativo marcadamente lento, típico de quem tem que atravessar estradas de neve. O ritmo urgente de investigação à norte-americana é claramente substituído pela clássica morosidade, muitas vezes, pachorrenta, no estilo do pesado Inspetor Maigret na Paris dos tempos lentos.

O Noir Nórdico segue também a imposição moderna da presença abundante de mulheres, mas, felizmente, não apenas de mulheres de beleza padronizada.

Ficam, assim, por aqui, semeadas umas pequenas recomendações de policiais dentro do género Noir Escandinavo ou Noir Nórdico, séries e livros:

 Forbrydelsen
The Killing
The Killing – História de um Assassinato (br)
The Killing: Crónica de um Assassinato (pt)
Trapped
Série islandesa
Kommissar Andri (Ólafur Darri Ólafsson) mit seiner Kollegin Hinrika (Ilmur Kristjánsdóttir)

LEIA TAMBÉM: As teorias da conspiração comprovam o gosto geral pela ficção

Bordertown
Sorjonen (Título original finlandês)
Mons Kallentoft
Um enorme talento da “nova geração”
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