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LITERATURA COMO REDE DE SENTIDOS

A fragmentação e a combinação de textos não é uma técnica nova. Já na Antiguidade Clássica, as sátiras menipeias destacavam-se por justapor gêneros e tons

Mosaico de pedras com espirais em preto, branco e tons de terra

A fragmentação e a combinação de textos não é uma técnica nova. Já na Antiguidade Clássica, as sátiras menipeias destacavam-se por justapor gêneros e tons discursivos. Entretanto, foi no início do século XX, com as vanguardas europeias, que a colagem se consolidou e passou a influenciar a escrita literária.

Algumas décadas depois, Mikhail Bakhtin teorizou sobre o uso de linguagens e gêneros distintos, dentro do discurso romanesco, quando desenvolveu o conceito de plurilinguismo. Segundo o autor: “O romance admite introduzir na sua composição diferentes gêneros, tanto literários (novelas intercaladas, peças líricas, poemas, sainetes dramáticos, etc.), como extraliterários (de costumes, retóricos, científicos, religiosos e outros)” (Bakhtin, 2014, p. 124). Posteriormente, Julia Kristeva aprimorou o conceito bakhtiniano, quando tratou da intertextualidade, e, hoje, pode-se afirmar que a maioria das obras utiliza a inserção de recortes discursivos dos mais variados tipos, em sua moldura textual.

Século após século, a literatura-mosaico assumiu diferentes estruturas e se consolidou em níveis bastante distintos. A lista é imensa, mas estes nomes já dão conta de demonstrar que não há exatamente uma regra, quando o assunto é fragmentação e colagem: Homero, a Bíblia, James Joyce, Virgínia Woolf, Dalton Trevisan, Ariano Suassuna, Valêncio Xavier, José Saramago, Luiz Ruffato…

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Sendo assim, a literatura-mosaico abrange qualquer tipo de texto, seja ele clássico ou experimental. Evidentemente, os propósitos e os estilos variam, porque são determinados pelo período literário e pelas características da linguagem do autor. Porém, o que nunca muda é o fato de a intensidade de alguns temas e a recorrência da fragmentação, ao longo da obra, provocarem rupturas, surpreendendo tanto o público quanto a crítica.

Em certas ocasiões, essa técnica textual é usada para inserir múltiplas vozes na narrativa. Em outros exemplos, a colagem provoca a relativização da autoria. Há, ainda, casos em que a meta é justapor gêneros textuais, flertando com a multimodalidade. Seguindo essa tendência, mas empregando mídias distintas, pode-se chegar a um texto plurimidiático. Por fim, vale destacar o uso da fragmentação e do mosaico para romper a linearidade temporal, por meio da inserção de flashes. Aliás, a cada ano, essa função do mosaico torna-se até mesmo necessária, para tentar fazer com que o leitor vivencie, também no texto, a aceleração que altera nossas rotinas: “(…) em matéria de temporalidade, o tempo não é mais inteiro, mas indefinidamente fracionado em quantos instantes, instantaneidades, quanto permitem as técnicas de comunicação e de telecomunicação” (Virilio, 1999, p. 57).

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Coerente com essa ideia, quando o mosaico se relaciona ao psicológico, apresentando as experiências, memórias e o pensamento dos personagens, a verossimilhança é reforçada. É como se o texto literário tentasse representar a estrutura multifacetada e a capacidade associativa da mente humana e das identidades. Conforme Italo Calvino, todos nós somos um amálgama. Não há unidade. Todos somos plurais:

Alguém poderia objetar que quanto mais a obra tende para a multiplicidade dos possíveis mais se distancia daquele unicum que é o self de quem escreve, a sinceridade interior. A descoberta de sua própria verdade. Ao contrário, respondo, quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis. (Calvino, 1998, p. 138)

Inclusive, na sociedade contemporânea, caracterizada pelo avanço tecnológico, a utilização do mosaico vai muito além da tentativa de concretizar a relação entre multiplicidade e rapidez. Esse procedimento artístico dialoga com nossa vivência diária, que é hipermidiática, ubíqua e multitelar: “(…) em interface com as máquinas, a arte busca nova energia no universo cibernético, naquele mundo híbrido e perturbador, no qual impera a conexão entre natural e artificial” (Guimarães, 2007, p. 39).

No ciberespaço, o mosaico está nas redes sociais, nos menus interativos, nos hipertextos e até nos banners publicitários que aparecem de repente, na tela, interrompendo a leitura. Além disso, há o cibridismo, fenômeno que nos faz alternar nossas vidas on-line e off line.

O mosaico está em tudo. Ele dá base ao princípio dialógico e a interação norteia todo e qualquer processo artístico e comunicativo. O mosaico também une o presente e o passado, o novo e o tradicional, o erudito e o popular, o verbal e o imagético… Esses poucos exemplos já servem para concretizar a estrutura e o ideal da literatura-mosaico, que, hoje em dia, representa e problematiza a extrema variedade de textos que escrevemos e lemos todos os dias. Sem dúvida, isso é resultado não apenas da democratização proporcionada pela Internet e pelas diversas redes sociais que existem atualmente, mas também se relaciona à multiplicidade e à ansiedade gerada pelo acesso a todo tipo de material, a qualquer hora e em qualquer lugar.

Inclusive, já há até um nome para definir esse sentimento frente à vastidão que a tecnologia digital nos proporciona: FOMO (Fear Of Missing Out). A boa notícia é que, com um pouco de boa vontade e autodisciplina, podemos controlar esse medo. Dessa forma, a cada dia que passa, o mosaico de informações que acessamos, usando as hipermídias, pode se tornar nosso principal aliado na busca ou no aprimoramento do conhecimento.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética. São Paulo: Hucitec, 2014.

CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

GUIMARÃES, Denise A. D. Comunicação tecnoestética nas mídias audiovisuais. Porto Alegre: Sulina, 2007.

VIRILIO, Paul. O resto do tempo. FAMECOS, n. 10, Porto Alegre, jun. 1999, p. 57-61.

———————-

Versão atualizada da Apresentação da revista Scripta Alumni v. 27, n. 1, publicada em julho de 2024 (disponível aqui).

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