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Literatura e Ecocrítica: Nós Somos Todas as Flores

Agora, chove dentro de mim, em minhas folhas se demoram gotas, suspensas entre um e outro Sol. Em mim pousam cantos e sombras e eu

Agora,
chove dentro de mim,
em minhas folhas se demoram gotas,
suspensas entre um e outro Sol.

Em mim pousam
cantos e sombras
e eu não sei
se são aves ou palavras.

(COUTO, 2014, p. 14)

Privilegiando as plantas, a poeta Sigrid Renaux contribui para que “[…] ambientes sociais e naturais sejam reconhecidos como inseparáveis” (GIFFORD, 2009, p. 255), além de possibilitar a socialização do homem com o mundo ainda desconhecido da flora. Considerando esse aspecto, os versos de Sigrid Renaux reapresentam espécies do cotidiano, nomeando-as. Isso demonstra uma clara tentativa de neutralizar o fenômeno conhecido como “cegueira botânica” (URSI et al., 2018, p. 13):

[…] que remete ao fato de as pessoas apresentarem, em geral, pouca percepção sobre as plantas que as circundam, com “sintomas” como a desatenção em relação às plantas presentes no cotidiano, a ideia de que os vegetais são apenas cenário para a vida animal […]. (URSI et al., 2018, p. 13, grifo no original)

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Entretanto, em muitos versos, a autora vai além da nomeação e, por meio da prosopopeia, investe na personificação: “inconsoláveis / as aroeiras rasgadas por fios de luz / alastram seus braços / ao encontro das calçadas” (RENAUX, 2019, p. 19). Nesse poema, os ramos da aroeira (Schinus terebinthifolia) são descritos como “braços”. Dessa forma, a planta é associada a uma característica comumente atribuída aos humanos. O mesmo ocorre com certo tipo de bromélia, popularmente chamada de barba-de-velho, também em referência a um aspecto do corpo humano. Essa planta é epífita e, portanto, apenas se apoia em árvores de grande porte, sem nutrir-se dela (Fig. 1).

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Literatura e Ecocrítica: Nós Somos Todas as Flores
Figura 1: Barbas-de-velho (Tillandsia usneoides) no Pinheiro Araucária (Araucaria angustifólia). (Foto: Verônica Daniel Kobs/Reprodução)

Embora a relação entre plantas e humanos contrarie o senso comum, essa desmistificação é necessária, a fim de consolidar a vida vegetal, afinal, de acordo com Evando Nascimento:

[…] as plantas não somente sentem, mas também pensam. Com seus próprios instrumentos e intuições, elas estabelecem estratégias de colaboração e algumas vezes de conflitos com outros viventes, de sua mesma ou de outras espécies. (NASCIMENTO, 2017)

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Assim como a perspectiva ecocrítica visa aprimorar a experiência do homem com o mundo circundante, em seus versos, Sigrid Renaux mostra o valor da união e das mútuas contribuições: “o orvalho repousa nas folhas / do resedá rosa / aguardando o amanhecer” (RENAUX, 2019, p. 64). Do mesmo modo que palavra “amanhecer” conecta noite e dia, o orvalho, na cena descrita, integra a mesma paisagem do resedá (Lagerstroemia indica). Coerente com o conteúdo e com o sentido dos versos, no plano formal a autora privilegia a paronomásia, que Massaud Moisés define como um tipo de “associação” (MOISÉS, 2004, p. 42-43). Como figura de som, similar à assonância e à aliteração, a paronomásia “resedá rosa” possibilita que determinados fonemas surjam em duas ou mais palavras, evidenciando similaridade sonora, em termos semanticamente distintos.

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Com o objetivo de desconstruir a ideia do homem como ser supremo na natureza, a literatura pautada pela ecocrítica estimula a alteridade, visando à integração e ao sentimento de irmandade. Sob essa perspectiva, a cooperação só pode ser ativada com a focalização dos macrocenários naturais, conforme os princípios do overview effect (ou efeito de olhar de cima). Dessa forma, as cadeias de ação e reação envolvendo vegetais, animais, minerais e humanos tornam-se mais perceptíveis (Fig. 2).

Figura 2: A união dos reinos animal e vegetal: pássaro Cambacica (Coereba flaveola) na flor de Hibisco (Hibiscus rosa-sinensis). (Foto: Leonir Kobs/Reprodução)

De acordo com o cientista e ativista Antonio Donato Nobre, “[…] existe um desastre cognitivo na sociedade ocidental, que ocorreu principalmente na Europa, do divórcio entre a chamada mente racional […] e a cognição ampla, intuitiva, holística, integrativa” (CYPRIANO, 2020). Em entrevista concedida a Juremir Machado da Silva, Aílton Krenak, autor de Ideias para adiar o fim do mundo, retoma essa questão do europeísmo, associando-a ao especismo, quando expõe o que, segundo ele, constitui o principal entrave para a visão ecocrítica:

Tanto a humanidade europeia quanto as sub-humanidades projetadas ignoram que existem milhões de outros seres que nos fazem companhia. Alguns deles são muito sutis como um colibri ou uma borboleta. Outros têm a virulência de um covid. Eles estão aí. Não estamos sozinhos neste universo. (SILVA, 2020)

Na produção poética de Sigrid Renaux, o senso de conjunto reflete-se em versos que promovem a identificação necessária entre o humano e os demais elementos naturais, na tentativa de anular a hierarquia: “sou o que vejo / as folhas ao vento / o universo azul / o sol nas estrelas” (RENAUX, 2019, p. 27). Dando continuidade a esse processo que iguala, em vez de diferenciar e escalonar, há versos em que o eu lírico realça a natureza como metáfora, nas descrições relacionadas com a memória e com o intelecto humanos: “das relvas da mente / surgem flores distraídas / trêmulas de alegria e saudade” (RENAUX, 2019, p. 70). Na visão dos estudiosos das artes, a literatura é apontada de modo unânime, quando se trata de exemplificar o uso dos preceitos mais básicos da ecocrítica. Aílton Krenak menciona isso, na citação transcrita a seguir:

A vida é a mesma em mim, em você, numa lagarta, numa borboleta, num dinossauro, num rinoceronte. Os poetas dizem isso. […]. Uma pessoa humana pode se relacionar com uma montanha, com um rio, com uma floresta, com uma árvore, com um pássaro. Não tem essa divisão que a cultura no ocidente estabelece e para a qual isso vai ser uma confusão, um caos ontológico. (SILVA, 2020)

Diante disso, é primordial que as pessoas compreendam o mundo como um sistema, no qual as interseções criam dependência e irmandade, gerando a necessidade do cuidado mútulo. Nós somos os rios, as plantas, o ar, as pedras, a terra e os animais. Somos o mundo — e o mundo inteiro está em nós.

Excerto do artigo “Versos florais de Sigrid Renaux”, de Verônica Daniel Kobs, publicado na Revista Cerrados (UnB), v. 31, n. 60, dez. 2022, p. 103-113.

REFERÊNCIAS:

COUTO, M. Árvore. In: COUTO, M. Vagas e lumes. Lisboa: Caminho, 2014, p. 14.

CYPRIANO, Fabio. Somos natureza. 30 out. 2020. Disponível em: <https://artebrasileiros.com.br/arte/seminario/ailton-krenak-naiara-tukano-antonio-nobre-falam-natureza-e-cultura-seminario-artebrasileiros/>. Acesso em: 28 mar. 2022.

GIFFORD , Terry. A ecocrítica na mira da crítica atual. Terceira margem, n. 20, p. 244-261, jan.-jul. 2009.

MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. Edição revista e ampliada. São Paulo: Cultrix, 2004.

MORTON, Timothy. Ecology Without Nature: Rethinking Environmental Aesthetics. Cambridge: Harvard University Press, 2009.

NASCIMENTO, Evando. Clarice e as plantas: uma literatura pensante. 12 dez. 2017. Disponível em: <https://revistacaliban.net/clarice-e-as-plantas-uma-literatura-pensante-22f3c3111f38?gi=e0fadf7b6135>. Acesso em: 16 abr. 2022

RENAUX, Sigrid. Luzes na selva. Curitiba: Appris, 2019.

SILVA, Juremir Machado da. Entrevista com Ailton Krenak. 22 nov. 2020. Disponível em:

<https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/entrevista-com-ailton-krenak-1.524763>. Acesso em: 15 abr. 2022.

URSI, Suzana et al. Ensino de botânica: conhecimento e encantamento na educação científica. Estudos avançados, n. 32(94), p. 7-24, 2018.

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