“O poço”, o coronavírus e o individualismo social

“O poço”, o coronavírus e o individualismo social

A Netflix lançou ontem, 20/03, com uma pertinência ímpar, o filme “O poço” (The Hoyo, em espanhol), do diretor Galder Gaztelu-Urrutia. Em seu longa de entrada, Galder faz uma crítica aberta, direta e contundente. Aclamado nos principais festivais de cinema mundiais, o filme não poderia ser mais congruente com o atual cenário do mundo do que agora. E começo a explicar tal relevância abaixo, a começar pelo enredo do filme:

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Goreng, interpretado pelo espanhol Iván Massagué, desperta em um ambiente de concreto, similar à prisão, após voluntariar-se em troca de um hipotético certificado homologado (símbolo de liberdade). Dois buracos retangulares, uma na parte de cima e outro embaixo, e vários “andares” inferiores e superiores. No buraco, uma passagem de comida, que se inicia no nível 1 até um indeterminado (mais de 200…), atendendo as “três classes de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem”, como introduz ao Goreng o senhor Trimagasi (Zorion Eguileor). Duas pessoas por nível, sendo o deles o 48, definido pelo remanescente como um bom nível, visto que comerão as sobras de “apenas” 47 níveis.

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O “novo morador” demora a entender a dinâmica do poço e, além de nega-se a se alimentar, se esforça, sem sucesso, em mudar a dinâmica da passagem de comida nos andares, sendo desestimulado pelo companheiro, pois não deveriam falar com os moradores de baixo, pois são inferiores, e não conseguiria contato com os de cima, pelo óbvio, claro.

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Dito tudo isso, afirmo que o filme é uma distopia muito bem feita, com metáforas que são bem claras, embora profundas. Já no primeiro diálogo, há crítica, sem dúvidas, pois ao argumentar que o consumo correto nos andares superiores fortalece a partilha e evita que os moradores baixos morram de fome, logo é acusado de ser comunista. Não lhe parece um discurso atual de rede (anti)social? A qualquer sinalização de partilha, estas condenado por um movimento que, às vezes, nem se conhece. Somente um dos grandes problemas da polarização política no Brasil e no mundo.

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O filme é repleto de pequenas metáforas, como dito acima, que compõem a maior, o próprio poço, que é, sem dúvidas, a maior personagem do longa. Tais alegorias vão se diluindo no decorrer do enredo, como por exemplo o suicídio, homicídio, canibalismo e a loucura.

Não é nenhuma coincidência alguns dos principais temas do filme, como o individualismo, estar nas principais manchetes do país, com o problema global do momento, o coronavírus:

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No mundo real e na distopia temos cenários de escassez, provocando o que há de pior no ser humano quando se está submetido a situações extremas de pressão, alto risco e fome. O que estamos vivendo com o coronavírus é raro e pode (e deve) nos ensinar, educar. Humanizar-nos, antes que tudo.

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A alegoria do poço e o seu mecanismo de distribuição de alimentos é válida, sobretudo pois antes de qualquer nível habitável, havia um banquete, ou seja, o universo tem fontes riquíssimas para todos e nos proporciona compartilhar, embora muitas das vezes só decidimos deixar migalhas e utensílios sujos e quebrados a quem inferimos, diante de nós, como inferiores.

Cássio de Miranda

Cássio de Miranda

Editor da Recorte Lírico. Baiano, mas exilado no Sul do país. Escreve sobre livros, filmes e séries. Pai, professor e escritor, não necessariamente nessa ordem. E-mail.: cassiodemiranda91@gmail.com; cassiodemiranda@recortelirico.com.br;

7 comentários sobre ““O poço”, o coronavírus e o individualismo social

  1. O distanciamento e o aperto de mão não concedido mostra que estava óbvio que iríamos passar por esse momento do novo corona vírus.
    Outro detalhe óbvio ” Gula” eu escolho o que comer depois como de tudo um pouco… Se todos comecem o que pedem ninguém ia morrer de fome

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