[wpdreams_ajaxsearchlite]
Anúncio

‘Nada a temer’, ou a morte que flui na escuridão

“Nada a temer” (Nothing to be frightend of) é um cruzamento de memórias pessoais e reflexões sobre a morte. Barnes reconstitui por alto as memórias

“Nada a temer” (Nothing to be frightend of) é um cruzamento de memórias pessoais e reflexões sobre a morte. Barnes reconstitui por alto as memórias pessoais que tem dos pais, da presença destes na sua infância e da forma como morreram.

Na verdade o livro não passa de uma colecção de conversas de café de ateus sobre a morte, pura filosofia de pacotilha. Os conceitos e ideias que são explanados podem ser ouvidos todos os dias em qualquer local do mundo ao balcão de uma cervejaria local, “sabemos nós lá o que acontece depois de mortos”, “acreditam mas não têm provas”, “não tenho medo de morrer, tenho medo é de sofrer”. É quase mágica a capacidade humana de mobilizar clichés nos momentos mais importantes da vida, como seja a morte, a doença ou o sofrimento em geral. É nestes momentos que deveríamos pensar um pouco mais profundamente, mas, se calhar, é também nestes momentos que entendemos certos clichés.

Barnes vai destilando toda a amargura mascarando tudo com sentido de humor. O envelhecimento dos pais, seus sucessivos ataques cardíacos, perda de memória e mobilidade e a decrepitude em geral que os conduzem à inevitável morte. Olha para as mortes dos que lhe são próximos, para a morte de personagens famosos, para a morte das suas figuras de referência (toujours Flaubert) e tenta prever a sua própria morte.

Nada a temer, ou a morte que flui na escuridão

Na angústia recorremos aos que amamos e nos amaram, aos que fizeram o nosso mundo, na morte ou nos isolamos ou fazemos uma chamada geral de solidariedade. Barnes, como ainda está vivo, evoca toda a história dos pais, do irmão, da família próxima e vai para a dispensa da cozinha literária onde sempre trabalhou, traz todos em seu auxílio: Daudet, Zola, Somerset Maugham, Montaigne, Flaubert, Jules Renard.

Anúncio

Quem acusa o livro de não ter consistência, é porque não entendeu a sua démarche. Justamente, não é suposto ser um tratado multidisciplinar sobre a morte, mas traduzir o pensamento do homem comum e a sua angústia perante a morte, daí a repetição, os saltos sequenciais, o contraste de estilos literários, a pobreza estilística.

O livro exala a ansiedade perante a morte. Repete-se. As ideias aparecem, desaparecem e são repetidas, como quando apagamos a luz à noite e começamos a pensar na morte, na nossa morte e isso faz-nos lembrar todas as mortes do nosso repertório: as hospitalizações, as vigílias, os funerais. Todos os dias volta a mesma sensação e voltam as mesmas memórias. Barnes filma este ritornelo nocturno. “E os mortos continuam fluindo na escuridão”, como diz o verso de Carlos Heinig.

Anúncio
VEIAS

Os riachos que fluem na escuridão,
Vão secando, depois de muito tempo.
E vão deixando nus os veios.
Somente a escuridão e nada.
Nem a cadeira na varanda.
Nem a lua esperando o teto.

Os riachos mudos
Que fluem na escuridão,
E dilatam e enchem tudo
E sorvem até o som e o vento.
Que falam os vivos e os mortos
E congelam os vivos.

Um mapa desses rios, como rabiscos,
De onde um conta-gotas
Planeja toda uma vida.
E tem a clemência de dar alguns anos,
Mesmo que eles nem sejam tão necessários.
E os riachos trazem os mortos.
E os mortos, continuam fluindo na escuridão.

Carlos Heinig
A 02 de julho de 2021.
Carlos Heinig no Cemitério da comunidade luterana, Blumenau, Santa Catarina

LEIA TAMBÉM: As teorias da conspiração comprovam o gosto geral pela ficção

0 0 votos
Classificacao do Artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários

Giro Recorte Lírico

A Roda do Tempo: O Filme | Saiba Tudo Sobre The White Tower
23 out

A Roda do Tempo: O Filme | Saiba Tudo Sobre The White Tower

A expansão do universo literário é um fenômeno cada vez mais frequente na indústria do entretenimento. Um exemplo notável disso

Asas da Ambição: 2ª Temporada | Uma Análise Profunda da Série da Netflix
15 dez

Asas da Ambição: 2ª Temporada | Uma Análise Profunda da Série da Netflix

A primeira temporada de "Asas da Ambição" foi um sucesso, mas é na segunda temporada que a série realmente mergulha

A Proposta: Comédia leve que embala a Sessão da Tarde (29/05) | Tem na Netflix?
29 maio

A Proposta: Comédia leve que embala a Sessão da Tarde (29/05) | Tem na Netflix?

Nesta segunda-feira, 29/05, a Sessão da Tarde apresentará um filme encantador que promete prender a atenção dos telespectadores: "A Proposta"

O Dia do Chacal Episódio 7 com Final Explicado e Reviravoltas de Tirar o Fôlego
21 nov

O Dia do Chacal Episódio 7 com Final Explicado e Reviravoltas de Tirar o Fôlego

O Dia do Chacal Episódio 7, série disponível no Disney+, traz uma narrativa cheia de tensão e reviravoltas. Enquanto o

Demolidor: Renascido Temporada 2 – Episódio 5 é um Massacre de Adrenalina
17 abr

Demolidor: Renascido Temporada 2 – Episódio 5 é um Massacre de Adrenalina

Crítica do episódio 5 da temporada 2 de Demolidor: Renascido. Matt Murdock volta com tudo nessa sequência bombástica que entrega ação, drama e reviravoltas absurdas.

Oberlan Rossetim, autor de ‘Cócegas na coceira’, confidenciou sua poesia ao Recorte Lírico
21 set

Oberlan Rossetim, autor de ‘Cócegas na coceira’, confidenciou sua poesia ao Recorte Lírico

Hoje é dia de poesia, sim senhor! Entrevistamos o autor curitibano Oberlan Rossetim (27), que nos apresentou o seu novo

Posts Relacionados

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x