O preço das coisas para os racistas

O preço das coisas para os racistas

Um novo estabelecimento foi inaugurado na parte mais central da cidade, que é para atrair o público e maior possibilidade de sucesso comercial. Uma senhora entrou nele e gastou mil reais. Esse é o custo de um dos pacotes de entretenimento. Ansiosa, provavelmente sem ter muito o que fazer em seus dias de mordomia, já que vive de pensão do falecido pai militar – e por isso decidiu jamais ter algum casamento durante toda a vida -, quis usar o produto ali mesmo. Escolheu uma jovem negra e a humilhou de todas as formas possíveis. Chamou o cabelo de sujo e de palha de aço, chamou de parideira, de escrava que deveria voltar pra senzala. Também chamou de macaca preta e nojenta. O pacote ainda deu o direito de a mulher dar dois tapas na cara da jovem, arranhá-la, e no fim, mesmo sob olhares e reprovação de diversas testemunhas, ironizá-la. “Se você quisesse mesmo se defender tinha que ter nascido branca”, disse.

O estabelecimento é uma delegacia. O pacote é a lei que ameniza crimes de racismo os transformando em injúria racial. Mulher, branca e da elite social, pagou e fez. Segundo palavras da racista, “não vai dar em nada”. A ordem dos fatores foi pura ficção, mas não altera o produto. Depois de humilhar e agredir, a mulher desembolsa uma fiança de mil reais. Esse é o preço das coisas para ela que pode, tudo paga. E para a jovem humilhada?


Infelizmente poucos elementos aqui são ficcionais. Aconteceu em uma semana de julho, no final da segunda década do século XXI, na cidade de São Paulo. É bom localizar no tempo para que notemos o quanto ainda temos de comportamento escravagista cerca de 130 anos depois da abolição da escravatura. A Lei Áurea foi assinada em 1888. Coube no início deste artigo a reversão da narrativa para percebermos o quanto é fácil ser racista no Brasil. Para crimes de injúria racial, que foi onde a polícia encaixou o caso acima, cabe fiança. Crime de racismo, não. A jovem paulista, além de lutar contra os próprios racistas, tem uma luta ainda mais pesada contra quem é permissivo. Seja quem apura os crimes, seja quem não interfere nos comportamentos dos seus próximos, seja quem nega que exista racismo no Brasil. Com o agravante de lutar sendo mulher em uma grande estrutura machista presente em todos os cantos da sociedade.

A vida dessa menina segue machucada não só pelo arranhão no rosto, mas por toda a trajetória. Não a conheço, a não ser por seu relato. Não duvidaria acertar o bingo de sua vida. Se você for negro, tente ver quantas destas questões abaixo já aconteceram com você:

  • Foi o primeiro suspeito de um crime só por ser negro;
  • Se frequentou escola privada, possivelmente era o único negro da sala;
  • Na universidade pública foi raro deparar-se com um professor negro;
  • Se mulher, já são taxadas de objetos sexuais;
  • Dizem que você deveria raspar a cabeça, se homem. Dizem que você deveria alisar o cabelo, se mulher;
  • Se um negro usar terno não é chamado de empresário ou advogado, mas de manobrista ou segurança;
  • O negro sempre é alvo de olhares se frequentar lugares mais luxuosos;
  • Na escola o menino negro possivelmente era o último a ser escolhido nas quadrilhas de festas juninas (esse foi um relato de um amigo, o ator Rodrigo Átila);
  • Você nem é tão negro (a);
  • Pela noite, se é homem negro sozinho é sempre parado por policiais.

Quantos pontos você marcou? Não precisa dizer. O importante é saber o que podemos, todos, fazer para seguir lutando contra esse quadro. Primeiro, esclarecer sempre. A prática da conversa sobre o tema é uma boa ferramenta para diminuir esse tipo de pensamento criminoso. Usar as redes sociais não só para brigar, mas para informar (fontes confiáveis, por favor). Repreender as pessoas que acham que humilhar negros (e tantas outras minorias) é algum tipo de piada. Não tem graça e só contribui para reforçar preconceitos. E, por fim, abraçar sempre.

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Embora Salvador tenha a maior concentração de negros do Brasil, ainda apresenta a maior desigualdade entre brancos e negros no país. (Foto: Guia Negro)

Deixo algumas dicas para que possamos aprender mais sobre tudo o que é o Brasil, principalmente nessa questão. O programa “Espelho”, de Lázaro Ramos, no Canal Brasil. O livro “Na Minha Pele” do mesmo Lázaro. Vale a pena ver tudo que o Emicida faz, desde suas músicas a entrevistas e debates. Vale também assistir aos diversos canais no Youtube que esclarecem sobre ser negro nos tempos atuais como o do Spartakus Santiago, vários vídeos do canal A Casa do Saber, entre outros. Indico também o livro “Quarto de Despejo: diário de uma favelada” de Carolina de Jesus. Ah, deixo claro que não quero confete (como diriam algumas pessoas ao ver que não sou negro e tento contribuir de alguma forma para a diminuição do racismo, o tal do “lugar de fala” que concordo, só é necessário saber delimitar direito quem é o seu inimigo, tudo bem?).

Que crime de racismo seja tratado como crime de racismo e ponto. Nada de mil reais para liberar que racistas possam humilhar negros por aí. Sabemos que é demorado, é pesado, é cruel, mas um dia a gente chega ao refrão daquela música baiana, o lugar com maior concentração de negros fora da África, que diz “eu queria que essa fantasia fosse eterna, quem sabe um dia a paz vence a guerra e viver será só festejar, eô eô”. Quem sabe? Que a menina que sofreu tanto possa viver em paz. Que viver seja só festejar, mesmo que isso seja fantasioso demais. Que a gente não alcance o objetivo, o que pode valer demais nisso é a tentativa. Você está ao menos tentando?


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Thiago Kuerques

Thiago Kuerques

Thiago Kuerques, iguaçuano, é contista, cronista e romancista tendo publicado O Cara Que Não Publicava Livros (2012), Ensaio dos Poemas Pelados (2013), Território (2017), A Balada do Esquecido (2018) e Tordesilhas (2019). Atua como jornalista no Site da Baixada. Em 2017 venceu o Prêmio Baixada na categoria Literatura. É professor de literatura em formação pela UFF. Realiza oficinas de escrita criativa, microcontos e palestras literárias para jovens e adultos.

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