O mito em John Deely

William Passarini

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Retomo alegremente minha coluna no Recorte Lírico, após mais de um ano sem nenhuma publicação. É preciso dizer que estive este tempo todo ocupado com a organização do “International Open Seminar on Semiotics – a Tribute to John Deely”, sediado virtualmente na Universidade de Coimbra. Ao longo desse um ano, tive a oportunidade de aprofundar meus conhecimentos na semiótica e na filosofia, de modo que posso retomar meus textos com maior capacidade.

Desta vez, gostaria de indicar ao leitor um paper de Deely publicado em 1971, “The myth as integral objectivity”,1 onde se aprofunda a noção de mito frente aos conceitos mal compreendidos de relação e objetividade.

Aliás, uma breve pausa: o título de minha coluna, Relatio, deriva exatamente do papel central que a noção de relação desempenha na semiótica deeliana. Não posso tentar esclarecer este papel no presente texto, de modo que recorrerei apenas à seguinte citação do então Cardeal Ratzinger (o recém-falecido Papa Bento XVI), a título inclusive de atiçar a curiosidade do leitor:

“O domínio integral do pensamento em termos de substância chegou ao seu fim: agora descobre-se a relação como um modo igualmente válido e primordial de realidade”.²   

O mito em John Deely
O paper de John Deely, disponível em: https://bit.ly/3jcHI1j

Indico também a obra de Norris Clarke, a quem queira se aprofundar nesse novo enfoque metafísico que dá importância equiprimordial tanto à substância quanto à relação, pois o próprio Clarke costumava dizer que ser é ser em comunicação.

Para Deely, as relações não se dão apenas mentalmente, como se criadas apenas pela mente; muitas das relações existem independentemente da mente e mesmo transcendem a existência dos elementos relacionados. Por exemplo, uma relação de paternidade existe para além dos elementos relacionados, não pode ser reduzida a nenhum de seus elementos, pai e filho; de modo que a relação de paternidade existe realmente, mas não pode ser quantificada, ou levada a um laboratório com o fim de ser analisada microscopicamente; ela existe realmente enquanto relação, que é real mas é um ente mínimo. Esse ente mínimo, no entanto, torna-se “máximo” quando levamos em conta a noção de pessoa; no caso da tradição cristã, que aceita a realidade de três pessoas divinas, a importância é ainda maior, pois as pessoas divinas são exatamente relações.


Além disso, essa mesma concepção de relação transcende o idealismo e o realismo, pois uma mesma relação pode num determinado momento existir fisicamente, e num outro momento apenas objetivamente (objetivamente no sentido encontrado em João Poinsot, que é aquilo que existe enquanto conhecido, aquilo apreendido mentalmente; para Poinsot, objetivo é tanto esta rocha que existe fisicamente e é por mim conhecida, quanto Hamlet que nunca existiu fisicamente mas é por mim conhecido imaginativamente; a rocha e Hamlet existem objetivamente enquanto conhecidos, mas a rocha além de ser objeto é também uma coisa, possui subjetividade além de minha mente, diferentemente de Hamlet). Imagine, por exemplo, que os dois elementos que compõem uma relação de paternidade, pai e filho, faleçam: a mesma relação, com os mesmos elementos, continua sendo real, mas agora não existe mais fisicamente, porém existe objetivamente para aqueles que conheceram o pai e o filho.

Com esse enfoque, Deely inicia seu artigo dizendo que a partir do estudo do mito, pode-se evitar dois erros epistemológicos, a saber, a negação de que o ente mental seja irredutivelmente outro que o ente físico (vemos isso nos reducionismos que buscam reduzir todo conteúdo da inteligência a produtos cerebrais), e a negação da realidade da relação como um modo de ser que transcende o ser de seu fundamento ou base. Dito de outro modo, Deely usa o mito como ilustração de seus insights sobre a noção de relação.

A respeito do primeiro ponto, é suficiente citar dois trechos da nota 2:

“Mas, pode muito bem acontecer de certos processos físico-químicos e condições neurofisiológicas serem muito adequados para explicar nossa apreensão de objetos fisicamente ausentes ou inexistentes, no sentido de que os estados e processos cerebrais especificados fornecem as condições necessárias e suficientes para que se tenha uma ideia de, por exemplo, um centauro. No entanto, ainda permanece o fato de que a ideia de um centauro – que é menos do que o centauro – não é a mesma coisa que essas condições necessárias e suficientes. Se fosse verdade que, pelo fato de que a cognição pode ser explicada por referência a causas físicas e em termos de condições físicas, todas as referências arealidades mentais são supérfluas e não científicas, também seria verdade que sempre que um efeito é rastreado até suas causas, toda referência ao efeito como tal é doravante supérflua e não científica”.

“Eventos e conteúdos mentais, no entanto, não se tornam irrealidades porque podem ser atribuídos a causas físicas e às suas condições necessárias e suficientes expressas em termos físicos, tal como a música não deixa de ser música quando entendemos que é uma função pura de ranhuras num disco, numa vitrola etc.”.

Com relação ao segundo ponto, Deely define mito como quaisquer concepções a respeito da realidade que têm um impacto aqui e agora sobre a linha de conduta dos homens que possuem essas concepções, e tais concepções são consideradas verdadeiras ou provavelmente verdadeiras num sentido básico que não pode, no momento, ser estabelecido em termos inquestionavelmente evidentes. Assim, o mito é uma afirmação de crença da parte de um povo.

O mito em John Deely 1

“Em si, no entanto, pode ser verdadeiro ou falso; no sentido filosófico e científico primário, do que tem sido ou é atualmente o caso da realidade física, não é diretamente uma propriedade essencial do mito. O que é essencial é que o mito expresse um estado de coisas que, embora possa fugir da verificação física, ainda é considerado verdadeiro no sentido primário por algum indivíduo ou grupo. Assim, ‘mito’ é o nome próprio de uma proposição ou conjunto de proposições consideradas precisamente do ponto de vista de seu sucesso na existência social, independentemente de sua verdade, ou mais exatamente, apesar de seu status de verdade mais ou menos indeterminado no momento da sua aceitação social. Essa característica essencial foi adequadamente descrita por Ives Simon: ‘Um mito imita a previsão de um fato e, ao preencher as mentes e os corações dos homens com uma certa antecipação, exerce uma influência no curso da história, mesmo que os desenvolvimentos reais possam estar amplamente em desacordo com o fato antecipado’”.

O mito, portanto, transcende a verdade e a falsidade; e assim podemos compreender melhor as posições tanto dos que defendem a importância dos mitos quanto dos que entendem que os mitos devem ser superados. Assim como uma mesma relação pode existir fisicamente ou apenas objetivamente, um mesmo mito pode, com o tempo, provar-se falso ou verdadeiro; sendo verdadeiro, ele deixa de ser mito, obviamente.

Essa concepção de mito permite-nos fazer alguns esclarecimentos: primeiramente, é ingênuo ligar todo pensamento religioso ao mito. Obviamente, aquele que não participa de uma determinada tradição religiosa, entenderá essa religião como mito, como crença que não foi fundada num conhecimento certo e verdadeiro. Ainda assim, muitas das concepções religiosas podem, com o tempo e investigação, serem provadas verdadeiras. Em segundo lugar, relacionar o mito apenas com tradições primitivas é falso. Mesmo que os mitos tenham uma presença maior em sociedades primitivas, ainda há a presença marcante dos mitos em nossa sociedade contemporânea; vemos isso muito presente nas ideologias, que movem profundamente os homens, são consideradas como verdadeiras, sem necessariamente terem sido provadas como tais. Por fim, também não se pode afastar a atividade científica dos mitos, pois embora a ciência busque superar os mitos, o cientista enquanto pessoa pode ser movido por interesses mitológicos, que estão em seu background e que podem movê-lo inclusive a grandes descobertas científicas, ou mesmo a fraudes científicas.


SOBRE JOHN DEELY, LEIA TAMBÉM: JOHN DEELY – O FILÓSOFO DA VERDADEIRA ERA PÓS-MODERNA

1. O artigo de Deely, “The myth as integral objectivity” (O mito como objetividade integral), pode ser acessado pelo seguinte link https://www.pdcnet.org/scholarpdf/show?id=acpaproc_1971_0045_0000_0067_0076&pdfname=acpaproc_1971_0045_0000_0067_0076.pdf&file_type=pdf.

2. Tradução livre de uma passagem do livro que pode ser encontrado em português, “Introdução ao Cristianismo”, de Joseph Ratzinger.

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