Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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[Conto] Paulus

17 de julho de 2017

Categorias:Conto Tags:,

Conto - Paulus

Era ensurdecedor e constante, a batida produzia um ruído infinitamente incomodo. O menino divaga em seu sono matutino não distinguindo mais entre sonho e realidade. Aquele som estremecia sua alma convertendo o descanso em cansaço, era constante aquele ruído.

Em meio ao delírio, a criança viu o sol bater insistentemente no vidro da janela, querendo entrar para despertá-lo de seu sonho inconstante. Em uma tentativa sonambular de atender o astro radiante, Paulus enroscou seus dedos na toalha rasgada e pútrida que tentava, inutilmente, evitar a entrada de luz na palhoça, rasgando-a e derrubando o cabo de vassoura usado como varão. A madeira decomposta acerta o menino no pé, despertando-o finalmente de seus devaneios.

Paulus concebe enfim estar acordado, agora procura o som causador de sua utopia, algo está obstinadamente chocando-se à vidraça. Ainda sob o efeito sonífero levantou-se cambaleante, tocando seus pequeninos pés sujos no piso gelado. O garoto contorna o pedaço de colchão que apropriou como cama e sobe em um banco de madeira onde repousam restos de comida em uma vasilha suja. O impulso que faz para alcançar o vitral derruba um talher que ele chama de colher, mas que na verdade era uma chapa de metal retorcido.

Desajeitadamente, Paulus sobe no banco ainda em estado pós-sono. Ele procurou apoio com as mãos na parede de alvenaria, sem reboco, da cabana. Levantou-se na ponta dos pés para puxar o restante do trapo que estava preso no vidro craquelado. Então ele se depara com seu provocador, uma mosca. Ela batia com todas as suas forças no vidro, tentando perpassá-lo. O menino não acreditava que um ser tão pequeno poderia causar tanto barulho.

– Ei amiguinha, você me acordou – disse Paulus amigavelmente – você pode sair por ali, olha – o menino apontava para um buraco no canto superior do quarto, que vertia água, como uma cachoeira, em dias chuvosos.

Percebendo que ela insistia em bater no vidro em busca de liberdade, Paulus começou a observá-la em sua movimentação frenética e obstinada. A pequenina mosca chocava-se em média quatro vezes contra o vidro, então, voava pela sala contornando-a, depois, vindo da parede posterior, cruzava o cômodo, como se pegasse um impulso, batia mais forte do que antes e assim ela repetia seu ciclo.

O menino compadeceu-se pelo pequeno inseto, e até tentou capturá-lo por uma ou duas vezes, mas percebendo sua velocidade na fuga, logo desistiu. O próximo passo era ajudar a mosca a sair pela janela, mais uma vez, subindo no banco, ele tentou em vão forçar a janela para libertar sua amiga. Quando um homem velho e barbudo entrou pela porta, parcialmente desintegrada, ele observou a tentativa do menino em levantar o vidro.

– O que fazes aí garoto? – Gritou o velho. Quando falava, uma quantidade gigantesca de saliva era expelida de sua boca sem dentes.

 – Estou tentando abrir a janela para…

– Você quer sair, não é? Garoto rebelde. Ingrato! – Continuou o homem, sua barba era branca e estava toda suja, parecia um cachorro recém-alimentado.

 – Não, senhor! Eu só estav…

– Cale-se seu verme! Coma sua gororoba e vá se preparar! Tu não vais fugir do trabalho de hoje! – Ele jogou um saco pesado na direção do menino. O saco abriu-se e espalhou algo no chão, migalhas de comida. E saiu promovendo um estrondo ao fechar a porta.

De volta ao piso gelado, Paulus ajoelha-se e abre o pacote estirado no chão. Lá ele encontra o mesmo café da manhã de todos os dias, migalhas de pão e uma massa indefinida, que lembrava os salgados de sua mãe, só que este era sem gosto algum. Desanimadamente come sua refeição e ouve, novamente, o som da mosca a bater na vidraça. Então se lembra da missão que tem para aquela manhã, ajudar a mosca em sua fuga. O pequenino precisava ser rápido, logo o velho voltaria para levá-lo às ruas. Abandona o saco de migalhas e volta-se a janela, agora ele tentara guiar a mosca com o pedaço de madeira até a fenda na parede, mais uma tentativa nula. O que ela está querendo? Pensou o menino. Ela quer sair, mas não segue o caminho mais fácil.

O tempo havia passado rapidamente e o homem podia chegar a qualquer momento, Paulus ainda não chegara a uma solução, a situação estava crítica e ele não queria que a amiga inseto ficasse ali presa, assim como ele ficava. Chegou a pensar em quebrar o vidro usando a madeira e sair numa fuga em parceria com a mosca. Desistiu. O barulho chamaria a atenção do velho e logo ele o encontraria de novo, como já aconteceram nas tentativas anteriores.

Um chute na porta. O barulho assusta Paulus e ele cai no chão. O velho entra rapidamente com um cinto em mãos e dispara-o contra a face do menino. Paulus pode sentir o couro rasgando sua face e envolvendo seu pescoço, sentiu uma tontura com o impacto, a vontade de chorar chegou até sua garganta, mas não o fez.

– Eu falei para você comer e se aprontar para trabalhar, vagabundo. Ficará sem comida amanhã – Gritou o velho com a cusparada de costume, ele aproximou-se tanto do menino que agora aquela saliva alcançava seu rosto.

 – Eu não vou trabalhar para você! – Gritou o menino com coragem, enquanto se levantava.

– Até parece que você tem opção! – Respondeu o carrasco.

– Tenho sim. Não importa o que eu faça você vai sempre me bater. Então escolho não te obedecer! – Retrucou o garoto, transformando toda sua dor em ódio, levou sua mão ao pescoço e sentiu o sangue escorrendo pela camiseta.

O velho, calmamente, troca o cinto de mão, a fivela toca o chão fazendo um barulho de correntes. O novo golpe agora acerta o menino diretamente na cabeça. Como que se estivesse esperando, Paulus apenas pisca, não movimenta nenhum dedo, não chora e não geme.

– Você acha que as surras diárias não podem piorar? Você não é nada garoto, só é uma forma de me dar dinheiro.

A terceira cintada pareceu com a força multiplicada, ela deu a volta pela sua cabeça e acertou fortemente a bochecha do menino com a pesada fivela. Agora o impacto foi tamanho que ele caiu desnorteado mais uma vez no piso. Na queda, sua cabeça bateu fortemente e ele viu a sala escurecer ao seu redor, era como uma luz que acendia e apagava. Quase desacordado, Paulus viu a poça de sangue formar-se vagarosamente, sua boca sangrava e um pedaço de dente estava no chão. Em meio à tamanha dor e ainda desnorteado, ele conseguiu visualizar a mosca dando voltas no quarto, como se estivesse agitada. Se lembrou que ainda não conseguira libertar a pequenina.

O homem sai. Ouve-se o trancar da fechadura. A dor ainda estava ali, agora ele poderia sucumbir. Desmaiou. Paulus tinha vencido a batalha, não precisou ser escravo do velho naquele dia, mas quando ele acordasse teria um problema ainda maior, sobreviver, além de soltar a mosca que continuava a bater no vidro.

Sirenes produziam um som alto que reverberam na cabana, as batidas de portas revelavam uma grande quantidade de veículos à porta. Luzes vermelhas piscavam intermitentemente reluzindo no vidro da janela. Paulus não consegue acordar completamente, está envolto em seu sangue gelado. A porta é arrombada, estilhaços espalham-se pela casa. Homens chegam até ele, há um despertar parcial. Paramédicos checam seus sinais vitais. No andar a cima, podem-se ouvir falatórios e discussão, som de coisas quebrando, móveis sendo arrastados. É uma luta, Paulus achou. Ouve-se um disparo seguido de silêncio. A mosca, onde ela está? Ele lembrou. Procurou-a pela sala, nada viu.

– Não se mexa amiguinho, tudo está bem agora. – Disse o paramédico amigavelmente.

Então uma face resplandecente apareceu para Paulus, trazia consigo um brilho intenso e natural. Ele não conseguia focalizar o rosto, a claridade era tamanha e misturava-se à vermelhidão produzida pelas viaturas.

– Paulus, você está bem?   – A voz suave era inconfundível.

Mamãe? Ele não conseguia falar tamanha a pancada que sofrera. Então, magicamente, um rosto se formou em sua frente, era um anjo. Já não sabia quanto tempo esperava por poder ver aquela feição perfeita e agradável, a saudade era tamanha e ele perdeu a noção do tempo que ficara ali, sob a escravidão do velho malvado. Quando sua mão o tocou se lembrou do calor dos abraços diários que recebia, do bolinho que ela fazia toda manhã com um sabor inconfundível.

 – A mosca? – Perguntou o garoto para sua mãe, quase inaudível. Ele apontava para a janela.

 – O que meu filho? – Disse a mãe aproximando-se para tentar ouvir.

– A mosca mamãe – replicou, agora com mais volume.

 – Que mosca meu amor? – Ela olhava para a direção apontada, mas nada via.

Depois de um tempo observando a sala, o menino pensou que a mosca poderia ter fugido pela porta aberta ou que estava em algum canto amedrontada. Já com a capacidade de falar quase recuperada ele agradece a mãe por ter vindo resgatá-lo.

– Achei que não iria chegar nunca, mamãe – disse com rouquidão.

– Eu estava te procurando, Paulus. Demoramos, mas te encontramos. Tudo ficará bem agora – respondeu a mãe com amor nas palavras.

 – Desculpe por demorar mamãe. Eu tentei fugir, mas ele me pegava novamente e me batia cada vez mais.

 – Não peças desculpas, meu filho – disse com lágrimas nos olhos.

– Eu só queria ajudar a mosca filhote ir embora. Mas como duas crianças poderiam escapar daqui?

 – Mosca filhote? – Perguntou a mãe para continuar o assunto.

– Sim. Nós éramos reféns aqui. Tentamos escapar, mas por ser pequeno e fraco não quebramos o vidro. As crianças precisam de seus pais para quebrar o vidro, e a mosca estava sozinha. Você me encontrou mamãe, espero que a mãe dela encontre-a também. Uma velha mosca malvada pode capturá-la novamente! – ele chorou silenciosamente.

Sua mãe ficou sem palavras, sem demonstrar desespero às lágrimas caíram de seus olhos e ela imaginava tudo que seu pequeno filho passou ali. Com a voz embargada Paulus indaga-a:

– Por que os adultos ficam malvados, mamãe?

Foram suas últimas palavras antes do ar não soprar mais em seus pulmões.

Era ensurdecedor e constante, a batida produzia um ruído infinitamente incomodo. O menino divaga em seu sono matutino não distinguindo mais entre sonho e realidade. Aquele som estremecia sua alma convertendo o descanso em cansaço, era constante aquele ruído.

Em meio ao delírio, a criança viu o sol bater insistentemente no vidro da janela, querendo entrar para despertá-lo de seu sonho inconstante. Em uma tentativa sonambular de atender o astro radiante, Paulus enrosca seus dedos na toalha rasgada e pútrida que tentava, inutilmente, evitar a entrada de luz na palhoça, rasgando-a e derrubando o cabo de vassoura usado como varão. A madeira decomposta acerta o menino no pé, despertando-o finalmente de seus devaneios.

Paulus concebe enfim estar acordado, agora procura o som causador de sua utopia, algo está obstinadamente chocando-se à vidraça. Ainda sob o efeito sonífero levanta-se cambaleante, tocando seus pequeninos pés sujos no piso gelado. O garoto contorna o pedaço de colchão que apropriou como cama e sobe em um banco de madeira onde repousam restos de comida em uma vasilha suja. O impulso que faz para alcançar o vitral derruba um talher que ele chama de colher, mas que na verdade era uma chapa de metal retorcido.

Desajeitadamente, Paulus sobe no banco ainda em estado pós-sono. Ele procurou apoio com as mãos na parede de alvenaria, sem reboco, da cabana. Levantou-se na ponta dos pés para puxar o restante do trapo que estava preso no vidro craquelado. Então ele se depara com seu provocador, uma mosca. Ela batia com todas as suas forças no vidro, tentando perpassá-lo. O menino não acreditava que um ser tão pequeno poderia causar tanto barulho.

– Ei amiguinha, você me acordou – disse Paulus amigavelmente – você pode sair por ali, olha – o menino apontava para um buraco no canto superior do quarto, que vertia água, como uma cachoeira, em dias chuvosos.

Percebendo que ela insistia em bater no vidro em busca de liberdade, Paulus começou a observá-la em sua movimentação frenética e obstinada. A pequenina mosca chocava-se em média quatro vezes contra o vidro, então, voava pela sala contornando-a, depois, vindo da parede posterior, cruzava o cômodo, como se pegasse um impulso, batia mais forte do que antes e assim ela repetia seu ciclo.

O menino compadeceu-se pelo pequeno inseto, e até tentou capturá-lo por uma ou duas vezes, mas percebendo sua velocidade na fuga, logo desistiu. O próximo passo era ajudar a mosca a sair pela janela, mais uma vez, subindo no banco, ele tentou em vão forçar a janela para libertar sua amiga. Quando um homem velho e barbudo entrou pela porta, parcialmente desintegrada, ele observou a tentativa do menino em levantar o vidro.

– O que fazes aí garoto? – Gritou o velho. Quando falava, uma quantidade gigantesca de saliva era expelida de sua boca sem dentes.

 – Estou tentando abrir a janela para…

– Você quer sair, não é? Garoto rebelde. Ingrato! – Continuou o homem, sua barba era branca e estava toda suja, perecia um cachorro recém-alimentado.

 – Não, senhor! Eu só estav…

– Cale-se seu verme! Coma sua gororoba e vá se preparar! Tu não vais fugir do trabalho de hoje! – Ele jogou um saco pesado na direção do menino. O saco abriu-se e espalhou algo no chão, migalhas de comida. E saiu promovendo um estrondo ao fechar a porta.

De volta ao piso gelado, Paulus ajoelha-se e abre o pacote estirado no chão. Lá ele encontra o mesmo café da manhã de todos os dias, migalhas de pão e uma massa indefinida, que lembrava os salgados de sua mãe, só que este era sem gosto algum. Desanimadamente come sua refeição e ouve, novamente, o som da mosca a bater na vidraça. Então se lembra da missão que tem para aquela manhã, ajudar a mosca em sua fuga. O pequenino precisava ser rápido, logo o velho voltaria para levá-lo às ruas. Abandona o saco de migalhas e volta-se a janela, agora ele tentara guiar a mosca com o pedaço de madeira até a fenda na parede, mais uma tentativa nula. O que ela está querendo? Pensou o menino. Ela quer sair, mas não segue o caminho mais fácil.

O tempo havia passado rapidamente e o homem podia chegar a qualquer momento, Paulus ainda não chegara a uma solução, a situação estava crítica e ele não queria que a amiga inseto ficasse ali presa, assim como ele ficava. Chegou a pensar em quebrar o vidro usando a madeira e sair numa fuga em parceria com a mosca. Desistiu. O barulho chamaria a atenção do velho e logo ele o encontraria de novo, como já aconteceram nas tentativas anteriores.

Um chute na porta. O barulho assusta Paulus e ele cai no chão. O velho entra rapidamente com um cinto em mãos e dispara-o contra a face do menino. Paulus pode sentir o couro rasgando sua face e envolvendo seu pescoço, sentiu uma tontura com o impacto, a vontade de chorar chegou até sua garganta, mas não o fez.

– Eu falei para você comer e se aprontar para trabalhar, vagabundo. Ficará sem comida amanhã – Gritou o velho com a cusparada de costume, ele aproximou-se tanto do menino que agora aquela saliva alcançava seu rosto.

 – Eu não vou trabalhar para você! – Gritou o menino com coragem, enquanto se levantava.

– Até parece que você tem opção! – Respondeu o carrasco.

– Tenho sim. Não importa o que eu faça você vai sempre me bater. Então escolho não te obedecer! – Retrucou o garoto, transformando toda sua dor em ódio, levou sua mão ao pescoço e sentiu o sangue escorrendo pela camiseta.

O velho, calmamente, troca o cinto de mão, a fivela toca o chão fazendo um barulho de correntes. O novo golpe agora acerta o menino diretamente na cabeça. Como que se estivesse esperando, Paulus apenas pisca, não movimenta nenhum dedo, não chora e não geme.

– Você acha que as surras diárias não podem piorar? Você não é nada garoto, só é uma forma de me dar dinheiro.

A terceira cintada pareceu com a força multiplicada, ela deu a volta pela sua cabeça e acertou fortemente a bochecha do menino com a pesada fivela. Agora o impacto foi tamanho que ele caiu desnorteado mais uma vez no piso. Na queda, sua cabeça bateu fortemente e ele viu a sala escurecer ao seu redor, era como uma luz que acendia e apagava. Quase desacordado, Paulus viu a poça de sangue formar-se vagarosamente, sua boca sangrava e um pedaço de dente estava no chão. Em meio à tamanha dor e ainda desnorteado, ele conseguiu visualizar a mosca dando voltas no quarto, como se estivesse agitada. Se lembrou que ainda não conseguira libertar a pequenina.

O homem sai. Ouve-se o trancar da fechadura. A dor ainda estava ali, agora ele poderia sucumbir. Desmaiou. Paulus tinha vencido a batalha, não precisou ser escravo do velho naquele dia, mas quando ele acordasse teria um problema ainda maior, sobreviver, além de soltar a mosca que continuava a bater no vidro.

Sirenes produziam um som alto que reverberam na cabana, as batidas de portas revelavam uma grande quantidade de veículos à porta. Luzes vermelhas piscavam intermitentemente reluzindo no vidro da janela. Paulus não consegue acordar completamente, está envolto em seu sangue gelado. A porta é arrombada, estilhaços espalham-se pela casa. Homens chegam até ele, há um despertar parcial. Paramédicos checam seus sinais vitais. No andar a cima, podem-se ouvir falatórios e discussão, som de coisas quebrando, móveis sendo arrastados. É uma luta, Paulus achou. Ouve-se um disparo seguido de silêncio. A mosca, onde ela está? Ele lembrou. Procurou-a pela sala, nada viu.

– Não se mexa amiguinho, tudo está bem agora. – Disse o paramédico amigavelmente.

Então uma face resplandecente apareceu para Paulus, trazia consigo um brilho intenso e natural. Ele não conseguia focalizar o rosto, a claridade era tamanha e misturava-se à vermelhidão produzida pelas viaturas.

– Paulus, você está bem?   – A voz suave era inconfundível.

Mamãe? Ele não conseguia falar tamanha a pancada que sofrera. Então, magicamente, um rosto se formou em sua frente, era um anjo. Já não sabia quanto tempo esperava por poder ver aquela feição perfeita e agradável, a saudade era tamanha e ele perdeu a noção do tempo que ficara ali, sob a escravidão do velho malvado. Quando sua mão o tocou se lembrou do calor dos abraços diários que recebia, do bolinho que ela fazia toda manhã com um sabor inconfundível.

 – A mosca? – Perguntou o garoto para sua mãe, quase inaudível. Ele apontava para a janela.

 – O que meu filho? – Disse a mãe aproximando-se para tentar ouvir.

– A mosca mamãe – replicou, agora com mais volume.

 – Que mosca meu amor? – Ela olhava para a direção apontada, mas nada via.

Depois de um tempo observando a sala, o menino pensou que a mosca poderia ter fugido pela porta aberta ou que estava em algum canto amedrontada. Já com a capacidade de falar quase recuperada ele agradece a mãe por ter vindo resgatá-lo.

– Achei que não iria chegar nunca, mamãe – disse com rouquidão.

– Eu estava te procurando, Paulus. Demoramos, mas te encontramos. Tudo ficará bem agora – respondeu a mãe com amor nas palavras.

 – Desculpe por demorar mamãe. Eu tentei fugir, mas ele me pegava novamente e me batia cada vez mais.

 – Não peças desculpas, meu filho – disse com lágrimas nos olhos.

– Eu só queria ajudar a mosca filhote ir embora. Mas como duas crianças poderiam escapar daqui?

 – Mosca filhote? – Perguntou a mãe para continuar o assunto.

– Sim. Nós éramos reféns aqui. Tentamos escapar, mas por ser pequeno e fraco não quebramos o vidro. As crianças precisam de seus pais para quebrar o vidro, e a mosca estava sozinha. Você me encontrou mamãe, espero que a mãe dela encontre-a também. Uma velha mosca malvada pode capturá-la novamente! – ele chorou silenciosamente.

Sua mãe ficou sem palavras, sem demonstrar desespero às lágrimas caíram de seus olhos e ela imaginava tudo que seu pequeno filho passou ali. Com a voz embargada Paulus indaga-a:

– Por que os adultos ficam malvados, mamãe?