A maturidade necessária para ler Machado de Assis

A maturidade necessária para ler Machado de Assis

Ei, você, futuro professor de Língua Portuguesa/Literatura, está pensando em pedir para os seus alunos lerem alguma obra de Machado de Assis, tipo Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas? Talvez não seja uma boa ideia. Na verdade, é uma péssima ideia. Você já leu Machado Realista? Se sim, viu que é algo extremamente profundo e você provavelmente compreendeu 30%. Logo, como espera que seus alunos entendam e gostem?

Machado contista é mais interessante para trazer para a sala de aula, afinal, os alunos precisam saber quem é Machado de Assis, um dos autores mais geniais do realismo brasileiro. Acredito que Machado romancista nem precisamos discutir. Entretanto, o realista não deveria NUNCA ser trabalhado em sala de aula, a menos que o professor tenha uma estratégia de abordagem incrivelmente-fantástica-ultra-sônica-envolvente-que-fará-os-alunos-amarem. Sabe por quê? Os alunos simplesmente não têm a maturidade necessária para ler Machado realista e GOSTAR!

Artigo 1 Nobel Maio  2020 - A maturidade necessária para ler Machado de Assis
Ilustração de Quinho é uma intervenção em tela do pintor norte-americano Edward Hopper.

Quando digo maturidade, não me refiro somente à idade dos alunos, mas também ao nível leitor extremamente imaturo, uma vez que alguns não finalizam nem um livro ao longo do ano. Nós, estudantes de Letras e leitores assíduos, sabemos que não somos mais os mesmos leitores de quando tínhamos 14 anos. Nosso nível evoluiu, houve uma maturação leitora que nos permitiu ler, entender e admirar a dimensão das obras machadianas. Não é algo simples, não é simplesmente entregar o texto ou exigir que o aluno leia o livro. Na realidade, fazer algo do gênero, só prova que você, enquanto professor, não estará desejando que o aluno realmente absorva algo daquela leitura.

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Sejamos realistas com o “Machado Realista”: As crianças não gostam, não entendem, acham chato, os interesses delas são outros. Seria ótimo se eles lessem, gostassem e compreendessem o quão maravilhoso é? Seria incrível! Mas isso não acontece e nós precisamos encarar a realidade enquanto futuros professores e professores já formados.

Se nem você é maduro o suficiente para entender tudo o que Machado colocou nas entrelinhas de Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, como você espera que um aluno de oitavo ano seja? Encaremos os fatos: Há uma maturidade necessária (na idade e na capacidade leitora) e os professores são injustos ao solicitarem uma leitura dessas sem uma boa estratégia de abordagem.


Leia também sobre leitura de clássicos, como Machado de Assis: Felipe Neto defende a leitura dos clássicos da literatura para jovens em fase mais adulta

Comentários
Sara Muniz

Sara Muniz

Sara Muniz, 22 anos, formada em Letras Português-Inglês, criadora e idealizadora do blog Interesses Sutis desde 2014, professora de inglês em tempo integral, escritora, revisora e redatora nas horas vagas. Trabalha para comer, viajar e comprar livros. E-mail: saramunizz@gmail.com

9 comentários sobre “A maturidade necessária para ler Machado de Assis

  1. não pude evitar de ter a vaga imprenssão de que você arrogantemente fez pouco caso de toda forma de arte além da 7th arte, pouco caso de qualquer forma de arte não clássica… conheci um “leitor assíduo” como você, um imundo, que teve a audácia de xingar de “lixo barato infantil” obras que nunca se quer pensou em consumir, pelo simples fato de serem “mangás” e “jogos eletrônicos”, formas de arte que são de fato, recém-nascidas. a mesma pessoa, logo em seguida mencionou a superioridade” de romances como “Hamlet” e, adivinha!? “Dom Casmurro”! assumindo de forma ESCROTA que todas as pessoas “maduras” necessariamente possuem gosto por “romance”, “realismo”, “drama” e “tragédia”, generos indescritivelmente INSUPORTÁVEIS para os que apreciam dos sons de espadas e armas de fogo como eu!

    eu li uma versão diminuída de Dom Casmurro a mais de 10 anos atrás, quando eu tinha não mais do que 14 anos, e obviamente, não notei nada de profundo nas entrelinhas da obra, afinal, eu não era um rapaz milagrosamente prodígio capaz de perceber e compreender o conteúdo profundo e filosófico nas obras de Machado de Assis, sem experiência de leitura nenhuma e com ridículos 14 anos de idade… mas xingar Berserk (Kentaru Miura) de “lixo barato infantil” só por não ser alguma porcaria clássica, ou só por ter gore, é implorar pelo ódio eterno de qualquer pessoa que tenha sido, advinha!? MADURA o suficiente pra consumir Berserk antes cegamente o xingar de “lixo barato infantil”! (e xingo o clássico de “porcaria” por mera revolta, não por falta de reverência! afinal, Shakespeare e Machado de Assis não tinham culpa de hoje existirem uns fanboys qualqueres de arte clássica que arrogantemente menosprezam tudo oque é moderno!)

    1. A maturidade vem com o tempo. Maturidade não significa ser “foda em algo”. Um exemplo é que atualmente milhares de pessoas com 40 ou mais nunca tiveram filhos. Te pergunto: quem é mais maduro, o homem ou mulher de 50 anos que nunca foram pais ou uma jovem de 20 anos que é mãe de uma criança de 2 anos de idade ? Vai depender do que faz parte na vida da pessoa ou o que ela já viu ou presenciou.
      Maturidade também não significa fazer a famosa “leitura crítica”, Na verdade detesto a expressão. Uma leitura deve ser acolhida.

  2. No livro ” admirável mundo novo” existe uma experiência com crianças de uma determinada classe que em contato com os livros levam choques elétricos fazendo com que, na idade adulta, não se aproximem dos livros mantendo os em suas castas inferiores..
    Não apenas Machado de Assis, mas a literatura em si deve obedecer uma idade não apenas cronológica e sim de intelectualidade.

    1. Perfeito!! Eu nunca tive livros que me “amadurecessem”, mas sempre quis ler Machado. Até que recebi o livro Dom Casmurro, já meio velho, folhas não tão bonitas. E foi um baque pra mim! Era muita coisa, mas eram coisas até simples. Acho que demorei mais no Google do que no livro kkkkk porque são muitas palavras totalmente fora do meu cotidiano. E eu continuo lendo, depois de semanas lendo (tô na página 85), porque é um livro que você lê tentando encaixar, entender e interpretar, e não é algo comum pra mim demorar tanto assim num livro. Enfim, creio que isso tudo veio de uma má seleção de livros que tive, ou talvez uma falta de cuidado em ler atentamente, e não passar loucamente o olho nos parágrafos querendo terminá-lo rápido… Machado é coisa pra se ler devagar, com um aperitivo do lado, num bom cômodo, com a mente fresca, e, ÓBVIO, com o Google aberto, porque, meu amigo… Haja palavras!

  3. Quase dormi lendo Casa Velha. Parece um romance de novela mexicana de tão chato. Muita gente se sente obrigada a gostar de certas coisas apenas por modismo. Tudo por conta da necessidade de se sentir intelectual, especial e até superior aos outros.

  4. Desde criança fui inspirado a ler (muitos colegas e professores se surpreendiam com o fato de eu simplesmente gostar de ler no meu canto) e quando, no 2º ano do Ensino Médio (17 anos), a professora pediu Dom Casmurro, eu mergulhei no texto enquanto outros nem sequer passaram das primeiras páginas. Agora, aos 20, li O Alienista e estou em Memórias Póstumas e está sendo a melhor – e nem um pouco chata – experiência que estou tendo como leitor.

  5. Perfeito!! Eu nunca tive livros que me “amadurecessem”, mas sempre quis ler Machado. Até que recebi o livro Dom Casmurro, já meio velho, folhas não tão bonitas. E foi um baque pra mim! Era muita coisa, mas eram coisas até simples. Acho que demorei mais no Google do que no livro kkkkk porque são muitas palavras totalmente fora do meu cotidiano. E eu continuo lendo, depois de semanas lendo (tô na página 85), porque é um livro que você lê tentando encaixar, entender e interpretar, e não é algo comum pra mim demorar tanto assim num livro. Enfim, creio que isso tudo veio de uma má seleção de livros que tive, ou talvez uma falta de cuidado em ler atentamente, e não passar loucamente o olho nos parágrafos querendo terminá-lo rápido… Machado é coisa pra se ler devagar, com um aperitivo do lado, num bom cômodo, com a mente fresca, e, ÓBVIO, com o Google aberto, porque, meu amigo… Haja palavras!

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