Por que Peaky Blinders é uma das melhores séries já feitas?

Por que Peaky Blinders é uma das melhores séries já feitas?

Comecei a assistir Peaky Blinders no boom que a série teve, em 2018, com a estreia da quarta temporada, a última até então lançada (a quinta temporada está prevista para o segundo semestre de 2019).

A série, que terá direito a um filme, é britânica, tem produção da BBC e foi criada por Steven Knight. A principal figura da série é o Tommy (ou Thomas) Shelby (Cillian Murphy), um veterano da Primeira Grande Guerra e um gangster de alta relevância pós-Guerra em Birmingham. Ao lado dos seus irmãos John e Arthur, os Shelby’s reúnem suas dores e frustrações provocadas na guerra para uma verdadeira guinada da família em toda a Inglaterra, com rixas internas (sobre apostas, principalmente) e brigas entre famílias, sobretudo italiana, narrada na quarta temporada de Peaky Blinders.

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Os irmãos Shelby. (Foto: Reprodução/BBC)

Dito isso, desenvolverei cinco questões que me levam a crer que Peaky Blinders tem uma das melhores produções, enredos, contextos históricos e é, de fato, uma das melhores séries já feitas pelo segmento.

Figurino gangster

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Os Peaky Blinders. (Foto: Reprodução/BBC)

Eu acredito que um dos elementos mais relevantes da série é o figurino gangster utilizados pelos irmãos Shelby e os demais Peaky Blinders. Diferentemente do estilo típico italiano ao qual nos acostumamos a ver na telona, como em O Poderoso Chefão, ou na telinha, como em The Sopranos, Peaky Blinders aponta para um visual mais arrojado, mesmo tendo influência da classe operária inglesa do início do Século XX. Ternos justos, quase sempre com cores mais fortes (como preto, cinza e azul marinho), sobretudo, quase sempre, gravatas finas (aparentemente de seda), relógios da época, que dão um toque ainda mais elegante às roupas, e o diferencial dos Peaky Blinders, os seus chapéus, mais conhecido no Brasil como boina oitavada.


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De fato a boina é relevante para o contexto da série, pois ela era muito utilizada pelos trabalhadores (reza a lenda que o Lenin, revolucionário russo, difundiu o uso por todo o mundo). Porém a boina dos Peaky Blinders tinha ainda um elemento “surpresa”, que ressignificava os cortes de cabelo, uma navalha era pressa às partes internas de suas boinas e, claro, isso não era um recurso estilístico, mas tinha um fim estritamente de luta, de combate, visto que os Blinders atacavam os seus inimigos nos olhos, com as boinas, cegando-os e vencendo (quase sempre) os embates.

Pós-Guerra

O Pós-Guerra é interessante destacar e é um sub-elemento do contexto histórico, que destacarei logo mais, entretanto merece tratamento especial pela condição psicológica dos personagens, sobretudo do Thomas e do Arthur, que sofrem muito com essa condição de veteranos.

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Tommy Shelby. (Foto: Reprodução/BBC)

O destaque ainda vale pela aproximação com Downton Abbey, outra série britânica temporal à Peaky Blinders, que acabam levantando temas semelhantes depois do término da Primeira Guerra Mundial.

Luta de Classes e Contexto histórico

Citarei aqui também Downton Abbey sobretudo pela luta de classes, tema muito relevante na série pois tratava diretamente de famílias reais britânicas e o contraste com os seus funcionários (classe operária) em suas mansões. Em Peaky Blinders o foco é diretamente a classe operária, dando voz ao outro lado, por assim dizer. É preciso, lógico, fazer um adendo a questão da família Shelby ser vista como privilegiada dentre os seus e até com muito temor, por sua condição social, bélica e seu patrimônio.

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Freddie Thorne e Ada Shelby, em segundo plano. (Foto: Reprodução/BBC)

Um dos personagens que melhor tratará a luta de classes na série é a Ada Shelby (Sophie Rundle) que é irmã do Thomas. Ela é casada com o líder sindical Freddie Thorne (Iddo Goldberg) que também lutou na Guerra, ao lado dos Shelbys. Ada será influenciada diretamente pelo Comunismo russo e trará esses ideais à família e à comunidade em Birmingham. É corriqueiro assistir, entre uma bala e uma navalha, paralisações organizadas pelos operários, encontros debaixo de pontes, às escondidas, e a revolta por direitos iguais. Esse tema e o contexto histórico/social que envolvem a luta de classe é, certamente, um dos melhores assuntos da série Peaky Blinders.

Um outro tema trazido na série é a “ajuda” (forçada, lógico) dos Peaky Blinders ao Primeiro Ministro Winston Churchill, no combate ao Comunismo e na desarticulação dos projetos russos na Inglaterra. A citação ao Churchill, por si só, já é interessantíssima à série e agrega no contexto histórico.

O feminismo

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O movimento feminista do início do Século é pano de fundo na série. (Foto: Reprodução/BBC)

Ada Shelby, Polly Gray (a tia Polly, interpretada por Helen McCrory) e Lizzie Starke são algumas das personagens que mais vemos desenvolvendo esse contexto do feminismo na série. Tão somente por elas tratarem as questões da família, com participação direta nas decisões (sobretudo da Tia Polly, que era a tesoureira da família), já traz o brilhantismo feminino das personagens e revela essa integração da mulher no trabalho.

Uma das cenas marcantes é quando a todas elas (como mostra a imagem acima) decidem seguir para uma passeata, juntas, de braços dados, simbolizando essa luta história por direitos iguais entre homens e mulheres. Na quarta temporada é interessante vê-las votando, outro símbolo da luta.

Desenvolvimento psicológico

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Tommy Shelby. (Foto: Reprodução/BBC)

Por fim, um fator marcante na série é a questão psicológica dos personagens e por que elas agem da forma que o fazem. A primeira análise é a do próprio Tommy, o irmão que mais sofre com o pós-Guerra. Essa dor, latente desde o primeiro episódio da série, incomoda-o em muitos aspectos e acaba influenciando diretamente em suas ações. Tommy Shelby tem sido estudado e é um “exemplo” de liderança, negociação e a questão comportamental em si, muitos blogs têm falado sobre isso. Porém esse transtorno pós traumático afeta, principalmente, os relacionamentos amorosos de Tommy, que o fazem não se envolver por muito tempo com quase ninguém, exceto pela Grace (Annabelle Wallis), com quem ele acaba casando.

Mas não é só sobre relacionamentos amorosos que o sofre o principal personagem de Peaky Blinders, o gangster tem problema de relacionamento até entre os seus pares, sobretudo na confiança. Quem mais sofre com isso é o seu irmão (que é mais velho), o Arthur. Não obstante a a linha de progressão psicológica do líder dos Peaky Blinders é decadente, pois percebe-se claramente que ele “acalma-se” e se sente mais “frouxo”, em determinados momentos que precisa matar, por exemplo.

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Arthur Shelby. (Foto: Reprodução/BBC)

Porém, quem mais vale à pena destacar psicologicamente na série é o Arthur. Personagem redonda (definidas por vários traços diferentes), nada linear. Seu transtorno é muito complexo e na medida em que ele se afunda nas bebidas, cocaína e prostituição, Arthur fica imerso em uma nuvem negra de falta de confiança (sobretudo na pessoa do Tommy), violência ao extremo, como em cenas em que ele continua a bater em algum sujeito já morto ou desacordado, e até mesmo na convivência com a família.

Arthur se vê em uma guerra psicológica ainda maior quando se casa com Linda (Kate Phillips), uma mulher religiosa que tenta, a todo custo, o tirar do lado negro do crime e dos jogos. O personagem trava, portanto, uma luta interna que dura até o último episódio da quarta temporada, a última lançada até a data de lançamento deste texto.

Cássio de Miranda

Cássio de Miranda

Editor da Recorte Lírico. Baiano, mas exilado no Sul do país. Escreve sobre livros, filmes e séries. Pai, professor e escritor, não necessariamente nessa ordem. E-mail.: cassiodemiranda91@gmail.com; cassiodemiranda@recortelirico.com.br;

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