A representação de Deus na série Supernatural

A representação de Deus na série Supernatural

Esta semana, assistimos à estreia da última temporada de Supernatural. Portanto, achei que seria um momento oportuno para retomarmos o final da temporada anterior (14×20). Nesse episódio, houve um embate decisivo. Sam feriu Deus, por ele ter matado Jack, e, depois disso, todos os mortos voltaram à vida, como um exército, contra Castiel e os irmãos Winchester. Com base nessa brevíssima apresentação, já é possível estranhar várias coisas. As principais dizem respeito à maldade e à vulnerabilidade de Deus. Entretanto, essas características são realçadas ao longo de toda a série. Então, vejamos: Deus assume a forma humana (Fig. 1); chama-se Charlie Shurley (ou, simplesmente, Chuck); bebe socialmente; tem uma relação conturbada com a irmã, Amara; e faz suas incursões na área da literatura, porque gosta de brincar de escritor (o que é muito revelador e sarcástico, já que um autor também pode ser considerado o criador do universo ficcional).

Supernatural 1 - A representação de Deus na série Supernatural
Figura 1: Chuck, o Deus de Supernatural, em seu ofício de escritor Imagens disponíveis em: https://bit.ly/2VZCu93 e https://bit.ly/2P77oe0

Levando em conta que, no episódio final da temporada 14, o caráter questionável de Deus/Chuck foi revelado a partir de sua oposição a Jack, vale a pena considerarmos a condição privilegiada desse personagem, que é um nefilim. Do ponto de vista religioso, as interpretações acerca dos nefilins são diversas. Alguns estudiosos os definem como anjos caídos. Outros fazem referência ao fato de eles serem filhos de Lúcifer e mulheres humanas. Além disso, há pesquisadores que os relacionam aos gigantes do Velho Testamento. De qualquer modo, vale enfatizar, aqui, que os poderes de Jack, em Supernatural, ameaçam a supremacia Divina (ou será que, nesse caso, já podemos usar divina, com d minúsculo?), atestando mais uma vez a vulnerabilidade e a falência de Deus/Chuck. Outro dado importante, nesse aspecto, é o fato de deus ter sido ferido por Sam, no combate final da temporada 14. Todas essas características fazem de Deus um personagem comum, falível e quase humano. Inclusive, no início do episódio 20 da temporada 14, Deus diz que não pode conter Jack, um nefilim com grandes poderes (Ele, então, não é mais onipotente; assim como os heróis atuais). Entretanto, alguns minutos depois, Deus/Chuck tenta manipular Dean, inclusive barganhando com ele, para fazê-lo atirar em Jack. Porém, Dean se recusa a cumprir a ordem e o próprio Deus/Chuck mata o nefilim. Nas palavras do todo-poderoso, dono do mundo (e do seriado), Jack precisava morrer. Por isso, quando Dean recua e abaixa a arma, Deus/Chuck diz: “Não é assim que a história acaba!” (SUPERNATURAL, 2019). Essa afirmação acentua seu papel como arquiteto do mundo e do destino de todas as pessoas.

Outro dado que nos permite refletir um pouco mais sobre a metáfora de Deus/Chuck como escritor (ou criador de mundos) é a comparação com outras representações de Deus. Isso me fez lembrar de uma representação divina bem específica, que pode ser vista nesta animação: https://www.youtube.com/watch?v=_bl-MynjnCU, disponível no Youtube. O título do filme, de apenas 3 minutos e meio, é L’Animateur, bastante sugestivo, pois a história nos apresenta Deus como um titereiro, manipulando Adão e Eva como se ambos fossem apenas títeres, agindo sempre ao seu comando (Fig. 2). Esse Deus titereiro dá vida aos bonecos, animando-os, e fazendo-os representar, de modo automático, o célebre episódio do pecado original. Depois disso, com escárnio, ele tira os bonecos do Paraíso, despejando-os em um lodaçal (que simboliza o Inferno na Terra). E ainda há mais: no final da história, Deus parte em direção a outro planeta, onde, provavelmente, encenará mais uma vez o episódio bíblico, com outro Adão e outra Eva.

Supernatural 2 - A representação de Deus na série Supernatural
Figura 2: O Deus de L’Animateur, assistindo ao desempenho de seus títeres: Adão e Eva Imagem disponível em: https://bit.ly/33Oj6OY

Nessa comparação que estou sugerindo, o que nos permite associar Chuck ao protagonista do curta L’Animateur, vai além da condição de artista/criador. Essas duas representações de Deus privilegiam um perfil que contraria o senso comum. Segundo ambas, Deus não é benevolente, mas impiedoso, sarcástico e vingativo. Se o titereiro do curta de animação se regozijou ao jogar os bonecos na lama, abandonando-os à própria sorte, de mortais e, principalmente, pecadores, Chuck (que, como escritor, com certeza já tinha definido o destino de seus personagens) também faz sua vingança, matando Jack (Fig. 3) e permitindo que os mortos saiam de seus túmulos e se preparem para a batalha contra Sam e Dean. E por quê? A resposta é fácil: pelo capricho de punir os irmãos Winchester, que se desviaram do roteiro, propondo um novo final para a história imaginada e escrita por Deus/Chuck.

Supernatural 3 - A representação de Deus na série Supernatural
Figura 3: Final do episódio 20 da temporada 14 de Supernatural, quando Deus/Chuck mata Jack, em um estalar de dedos. Imagem disponível em: https://bit.ly/33QhDYy

Outro momento de Supernatural 14×20 que demonstra o caráter manipulador de Deus vem logo no início do episódio, quando Deus/Chuck tenta obrigar os irmãos Winchester a matarem Jack, o nefilim. Considerando a tão comentada onisciência divina, é claro que Chuck sabe dos laços que unem os três personagens. Aliás, é justamente isso que o faz agir daquela forma e a apreciar sadicamente toda a situação. Portanto, ao final do episódio, respeitando a origem roqueira da série, sobretudo de Dean, que não dispensa uma trilha sonora de qualidade, em seu Chevrolet Impala preto 1967, toca a música God was never on your side, de Motorhead:

He was never on your side 
God was never on your side 
Let right or wrong, alone decide 
God was never on your side…(1)  (MOTORHEAD, 2019)

Sem dúvida, a música de Motorhead resume o episódio (e toda a série, em um certo sentido), além de servir como flashforward para a temporada 15, que acabou de estrear. Sam e Dean nunca tiveram Deus como aliado. Portanto, mais uma vez, os irmãos Winchester vão precisar de toda a ajuda possível, mesmo que isso os leve a outros pactos, talvez até com o lado escuro da força.

A cena final de 14×20, que mostra os zumbis saindo dos túmulos, traduz perfeitamente a atmosfera de Supernatural, a qual sempre oscila entre o fantástico e o terror. Além disso, é preciso enfatizarmos que essa rebelião dos mortos-vivos comprova o caráter particular que Deus assume, na série: Chuck é afeito à manipulação e a represálias. Com relação a isso, e completando o flashforward anunciado pelo heavy metal de Motorhead, a profecia para a temporada 15 baseia-se na Bíblia, mais especificamente em Isaías, capítulo 8, versículos 20 a 22. De acordo com o profeta, “não haverá aurora” (BÍBLIA ON-LINE, Isaías 8:20-22) para os mortos-vivos:

Andarão errantes pela terra, fatigados e esfomeados; atormentados pela fome, agastar-se-ão e amaldiçoarão o seu rei e o seu Deus. Levantarão os olhos,
Depois olharão para a terra, e só verão misérias, escuridão e trevas angustiantes. Repelir-se-ão dentro da noite. (BÍBLIA ON-LINE, Isaías 8:20-22)

Em um mundo que obedece ao maniqueísmo e ao senso comum, Deus não poderia formar um exército de zumbis, muito menos para marchar contra seus próprios filhos. Porém, em Supernatural, essas certezas sempre são relativizadas. Tendo sido enviado por Deus ou não, é fato que o exército de mortos-vivos (Fig. 4) é apenas o primeiro dos inúmeros desafios que Chuck, brincando de escritor, reservou aos irmãos Winchester, na última temporada da série.

Do mesmo modo que o Deus de L’Animateur, Chuck ficará assistindo a tudo de camarote, just for fun! Para nossa diversão e para nossa torcida, Sam e Dean podem contar com vários aliados — entre vivos, mortos (mas que podem renascer a qualquer momento) e seres mágicos (do bem ou do mal). Portanto, considerando essa hipótese, que atende muito bem à prerrogativa atual do respeito à diversidade, serão os zumbis de Deus/Chuck contra o exército dos irmãos Winchester: Castiel e seus amigos anjos; Jack; Bobby; Kelly; Lúcifer; Rowena; Donatello; os Homens de Letras; Jody; Charlie; Claire; Samuel; talvez Metatron; Amara (quem sabe?); sem esquecer Mary e John Winchester, claro.

Supernatural 4 - A representação de Deus na série Supernatural
Figura 4: O início do fim: o apocalipse zumbi em Supernatural Imagem disponível em: <https://bit.ly/2BxGQdX>

Prontos ou não, o fim está próximo: “[…] o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão” (BÍBLIA ON-LINE, Pedro 3:10).

Nota:

  1. “Ele nunca esteve ao seu lado / Deus nunca esteve ao seu lado / Esqueça o certo ou errado, e decida sozinho / Deus nunca esteve ao seu lado.” (Tradução nossa).

REFERÊNCIAS

BÍBLIA ON-LINE. Bíblia on-line. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br>. Acesso em 15 out. 2019.

HILLIGOSS, N. L’Animateur. 23 mai. 2007. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=_bl-MynjnCU>. Acesso em 15 out. 2019.

MOTORHEAD. God was never on your side. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=F1JS-9mDefo>. Acesso em 23 jul. 2019.

SUPERNATURAL [Moriah]. Direção: Phil Sgriccia. Roteiro: Andrew Dabb. EUA, 25 abr. 2019. Eric Kripke, McG e Robert Singer; CW; Warner Channel (Temporada 14, episódio 20).

Verônica Daniel Kobs

Verônica Daniel Kobs

Professora do Mestrado e do Doutorado em Teoria Literária da UNIANDRADE. Professora do Curso de Graduação de Letras da FAE. Autora do blog Interartes (https://danielkobsveronica.wixsite.com/interartes). Pós-Doutorado na área de Literatura e Intermidialidade, realizado na UFPR. E-mail: danielkobs.veronica@gmail.com

Um comentário em “A representação de Deus na série Supernatural

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *