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Um Vulcano moderno

Qual a primeira lembrança da infância? Qual a mais funda lembrança de expressão – ou, se o leitor preferir, qual o primeiro insight de comunicação

Qual a primeira lembrança da infância? Qual a mais funda lembrança de expressão – ou, se o leitor preferir, qual o primeiro insight de comunicação com o mundo exterior? No meu caso, foi a recusa de um pequeno Hefesto (ou Vulcano) que afirmava não ter mãe.

Poeta Raïssa Maritain, 1883 – 1960. (Foto: Reprodução/Domínio Público)

A escritora francesa Raïssa Maritain abre seu livro “As grandes amizades” assim:

“A minha primeira lembrança é de quando eu era muito pequenina. Tenho pouco mais de dois anos e meio, minha irmãzinha Vera está para nascer. Naturalmente, que não sei disso. Mas vejo-me em pé, encostada às pernas de meu pai, que está sentado e chora diante da porta fechada do quarto de mamãe. Aconchego-me a ele, procuro consolá-lo, mas levam-me para a casa de minha amiga Clara, a grande amiga de minha primeira infância, e, logo depois, me vêm contar que tenho uma irmãzinha. A primeira imagem, pois, que me ficou na memória é a de meu pai, que chorava; a segunda é a de meu desejo de fazer desaparecer o seu desgosto…”

“As Grandes Amizades”,
Raïssa Maritain . (Imagem: Editora Agir)

Aprendi com o filósofo alemão Eric Voegelin (“Anamnese”) sobre o peso, a importância das “experiências anamnésicas”, isto é, “relembrar aquelas experiências que abriram fontes de estímulo, de onde resultou a vontade para mais reflexão filosófica.” Penso que em igual medida tais experiências podem ser úteis para o trabalho artístico, seja na pintura, na poesia, na prosa, e até na crônica em sua frágil transitoriedade. Diz Voegelin:

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“1. Meses.
Minha mais antiga recordação datável leva-me de volta a Colônia.
Minha mãe levava-me consigo em suas compras. Numa padaria, a vendedora expressou uma admiração apropriada pela criaturinha que mal podia andar e perguntou minha idade. Minha mãe informou-a: catorze meses [Monate].
Recordo um sentimento geral de orgulho acerca da atenção dada a mim, e um sentimento de significado especial ao aprender que eu era uma coisa como “Monate”. A palavra tinha peso; a sonoridade do O com a consoante nasal subsequente pode ser a responsável pela fascinação de algo misterioso.
Essa recordação não é nem provada nem influenciada por informação da parte de minha família. Tanto quanto sei, eu mesmo a contei quando tinha mais de vinte anos, atraindo apenas a incredulidade de meus pais.”

É do psicólogo Carl Jung em sua biografia (“Memórias, Sonhos, Reflexões”) a observação sobre a importância desses “experimentos de memória” que com maior ou menor esforço advêm à consciência e alargam o horizonte criativo.

“Diante dos acontecimentos interiores, as outras lembranças empalidecem: viagens, relações humanas, ambiente. Muitos conheceram a história do nosso tempo e sobre ela escreveram: será melhor buscá-la em seus escritos, ou então ouvir o seu relato. A lembrança dos fatos exteriores de minha vida, em sua maior parte, esfumou-se em meu espírito ou então desapareceu. Mas os encontros com a outra realidade, o embate com o inconsciente, se impregnaram de maneira indelével em minha memória. Nessa região sempre houve abundância e riqueza; o restante ocupava o segundo plano.”

Segundo o crítico e professor de Literatura Rodrigo Gurgel “recordar nosso passado não pode ser um exercício de idealização. O diálogo com o “eu” que nos observa e, ao mesmo tempo, envolto pela neblina do tempo, nos dá as costas e caminha de volta à infância, precisa estar impregnado daquela tensão que ressurge sempre que nos debruçamos sobre o poço da verdade. É o homem de carne e osso que busco quando olho sobre meus ombros na direção da juventude, da infância. Mas não se trata de revisitar um horizonte ensolarado. Trata-se, ao contrário, de repetir as caminhadas de Miguel de Unamuno pelo claustro do Monastério de Santo Estevão, em Salamanca, debruçar-se sobre o poço, no pátio das Cisternas, e gritar “Eu…eu…eu!” – para que o eco do passado, ao repetir o pronome, reafirme minha existência.”

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Rodrigo Gurgel, autor de
“Crítica, literatura e narratofobia”. (Foto: Acervo Pessoal)

Que o leitor desta crônica possa desfrutar desta busca de Gurgel (“Crítica, literatura e narratofobia”), de Unamuno, de tantos outros poetas e escritores que valorizam o exercício voegeliano das “experiências anamnésicas”.

De minha parte, gostaria de empreender aqui um exercício novo, que o formato de “Recorte lírico” me providencia com tanta generosidade.

Cabe-me empreender uma busca entre as “camadas do meu ser” – para que, tal como no caso de Rodrigo Gurgel, encontre a “correspondência com os livros”, com as bibliotecas que frequentei e a que formei ao longo destes meus 64 anos de vida.

Desejo reafirmar o valor da linguagem como a corda de socorro que me retirou de um poço bem fundo, de uma infância miserável, da condição de órfão de pai e cuja primeira lembrança é apegar-se ao corpo da avó, dizendo que não queria estar com a genitora que abandonara o menino à sorte dos parentes.

– Não tenho mãe, disse e, na insistência daquela que nunca o amou, repetiu a ofensa máxima para alguém de cinco anos: “Feia!”

Foi descobrindo a linguagem, aparando-me no mundo dos livros, que me salvei de algumas neuroses e ainda tento me livrar de outras.

Quando uma meia-irmã me telefonou anunciando a morte de nossa genitora, pensei: “com ela não tive vínculos em vida; não os terei na morte”.  O que é uma inverdade, pois estamos todos ligados neste limiar agônico entre vida e morte para sempre, com a certeza única de que o drama da existência é a única prova de nossa finitude.

O drama dessa lembrança primeva deu ao sexagenário a inspiração destes versos:

Certidão[i]* (“O brilho do segredo não aclara apenas o próprio segredo,/aclara-nos a nós com ele…” Jean-Louis Chrétien

No primeiro ato, surge menino,

à mão da avó atado, que a mãe

ausente, o abandonara ao destino.

– Feia! – atira à face da mãe –

só; do cordão umbilical desatado.

Um Hefesto com sua bigorna e tenaz.

Feito Nabucodonosor, 

o pasto foi meu lar, meu bem…

Infinda mágoa do abandonado

num cesto sobre um rio tortuoso.

Não se é Moisés por mero acaso,

difícil ser um José do poço alçado.

Mais tarde fugi para o pasto imenso

ao fundo do quintal do abrigo –

desejava ser passarinho infenso

bando cercado em campo de trigo.

O pasto era meu lar, meu bem…

[…]

“O rio incontornável, Adalberto de Queiroz. (Imagem: Editora Mondrongo)

[i] Trecho do poema “Certidão”, do meu livro “O rio incontornável” (poemas, 2017).

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Álvaro Catelan
Álvaro Catelan
6 anos atrás

Parabéns meu amigo pela iniciativa e pela tão profunda, lírica e humana narrativa.

ADALBERTO DE QUEIROZ
Responder para  Álvaro Catelan
6 anos atrás

Obrigado, professor Álvaro Catelan.

Joaquim de Azevedo Machado
Joaquim de Azevedo Machado
6 anos atrás

A minha mais remota lembrança foi terem me aproximado bem perto da face de um cavalo. Até então só conhecia a expressão materna e delicada.

Giro Recorte Lírico

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