Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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Os 10 melhores poemas de Canções de Inocência e Canções de Experiência, de William Blake

17 de novembro de 2017

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Os 10 melhores poemas de Canções de Inocência e Canções de Experiência, de William Blake

Sendo a obra mais conhecida de William Blake, Canções de Inocência e Canções de Experiência nasce como dois estados contrários da alma humana, o da Inocência (infância) e o da Experiência (corrupção da infância pela política, religião e sociedade). Os poemas foram todos escritos e ilustrados por Blake, e apresentam uma musicalidade incrível (afinal, são canções).

Abaixo estão os 10 melhores poemas da obra, segundo a liberdade que eu tomei de selecionar 10 poemas que apresentassem temáticas aparentemente polêmicas e reflexões.

O LÍRIO

A Rosa frágil tem o espinho por defessa,
A humilde Ovelha exibe o chifre ameaçador;
Porém ao branco Lírio é suficiente o Amor –
Não há espinho ou ameaça a turvar-lhe a beleza.

 

O PEQUENO VAGABUNDO

Ó Mamãe, Mamãe, eis que a Igreja é tão fria,
E é bem mais quentinho na Cervejaria;
Tu sabes que a isso já me acostumei,
Embora tal uso não seja de lei.

Mas se fogo e assento nos dessem na Igreja
E a beber um gole da boa Cerveja,
Era canto e reza todo santo dia,
E ninguém da Igreja se escafederia.

E o pastor pregava, bebendo e cantando,
E todos alegres, quais aves em bando;
E dona Abandono, que a igreja não deixa
Não teria filhos, nem jejum, nem queixa.

E Deus, como um pai, bem contente vendo
Seus filhos como Ele no prazer vivendo,
Não teria brigas com o Diabo e a Barrica,
Mas lhe dava um beijo, um trago e roupa rica.

 

A ESSÊNCIA HUMANA

Não era necessário haver, Piedade,
Se a Pobreza não fosse cultivada;
E se houvesse geral felicidade,
A Clemência seria aposentada.

A paz somente advém do mútuo medo,
Enquanto o amor egoísta é dominado;
E então a Crueldade trama o enredo
E lança suas iscas com cuidado.

Entre temores santos, senta e chora,
De lágrimas regando a terra inteira;
E a raiz da Humildade se elabora
Debaixo de seus pés, em meio à poeira.

Em torno à sua fronte uma penumbra
De Mistério começa a se espalhar;
E a Lagarta e o Mosquito se deslumbram,
E do Mistério vêm se alimentar.

E então produz do Engodo a grande fruta,
Bem doce ao paladar e bem rosada;
E o Corvo ali constrói sua casa, oculta
Em meio à sombra mais fechada.

Quando os Deuses da terra e mar buscaram
Tal árvore por toda a Natureza,
Foi em vão que por ela
procuraram: Na mente do Homem uma se enraiza.

 

O LIMPADOR DE CHAMINÉS

Eu era bem novo e minha mãe morria,
E meu pai vendeu-me quando eu mal sabia Balbuciar,
chorando limpa-dor dor dor dor,
Assim sujo e escuro sou o limpador.

Aquele é Tom Dracre, que chorou na vez
Em que lhe rasparam a cabeça: Vês – Consolei-o –
Tom que é bom não ter cabelo,
Pos assim fuligem não te suja o pêlo.

Assim se acalmou. E numa noite escura
Tom dormindo teve esta visão futura,
Que mil limpadores Josés Chicos Joões
Foram confinados em negros caixões.

E então veio um Ano com uma chave branca
E os tirou do escuro destravando a tranca
E então entre risos ao campo saíram
E entraram num rio ao Sol reluziram.

Sem sacos às costas, despida a camisa
Voaram nas nuvens, brincaram na brisa;
Disse o Anjo a Tom que, se fosse bonzinho,
Deus feliz tomava-o como seu filhinho.

E Tom despertando foi na escuridão
Apanhar seu saco mais seu esfregão,
E saiu alegre na manhã gelada.
Quem seu dever cumpre não receia nada.

 

QUINTA-FEIRA SANTA

Foi numa Quinta-feira Santa, iam com as faces bem lavadas,
Duas a duas, as crianças, em roupas de cores variadas;
Mãos brancas e brancos cabelos, à frente os bedéis caminhavam;
E, entrando a abóbada de Paulo, como a água do Tâmisa escoavam.

Que grande multidão somava de Londres essa floração!
Em companhias assentadas, com brilho próprio e irradiação.
Rumor de multidão lá havia, porém multidão de ovelhinhas,
Mil meninos e mil meninas a erguer inocentes mãozinhas.

Agora, como um vento forte, sobem ao Céu suas canções,
Como entre os bancos celestiais o som de harmônicos trovões.
Sábios guardiões dos pobres, foram entre eles os velhos sentar.
Sê pois piedoso e não expulses um anjo de teu limiar.

 

PARA TIRZAH

Tudo o que Provém de Geração
Há de a escura Terra consumir,
Para vir de novo e ressurgir:
Que devo fazer contigo então?

Os Sexos, do Orgulho originados
E do Erro, perduram só um dia;
Mas da Morte a Graça os alivia;
Dores e fadigas são seus fardos.

E tu, Mãe de minha Mortal sina,
Que de maldade me fizeste o Peito
E só com lágrimas de despeito
Me trancaste Ouvido, Olho, Narina;

Me selaste a Língua em barro vão,
Para à Mortal Vida me entregar;
Mas Jesus morto vem me livrar;
Que devo fazer contigo então?
O ESCOLAR

É bom sair de
manhãzinha,
Ouvindo as aves a cantar
E ao longe a trombeta de caça
E ver a cotovia no ar
Que cedo vem me acompanhar.

Mas ir à escola de manhã,
Como destrói minha alegria;
Sob um olhar cruel, aceso,
Passam os novos todo dia
Em desgosto e melancolia.

Passar às vezes longo tempo
Sentado, ouvindo, aborrecido,
Indiferente à sala de aula
E indiferente ao livro lido
E ao quadro-negro tão comprido.

Como háde uma ave que nasceu
Para a alegria achar prazer
Numa gaiola, ou uma criança,
Baixando as asas, esquecer
Que é tempo só de florescer?

Ó pai, ó mãe, se for cortada
Logo em botão a jovem flor
E a planta nova desbastada
De seus brotos e seu vigor
Pelo desgosto e pela dor.

Como há de o tépido verão
Ter no prazer o seu momento?
Como na dor colher o fruto
Que nos trouxe o florescimento,
Quando chegar o inverno e o vento?

 

O MENININHO NEGRO

Minha mãe me gerou lá numa austral devesa,
E sou negro, mas – oh! – sei que minha alma é
clara. Clarinha como um anjo é uma criança
inglesa:
Mas negro sou, como se a luz não me tocara.

À sombra de um baobá minha mãe me educou
E sentada comigo ante o calor do dia.
Tomou-me certa vez ao colo e me beijou,
E indicando o nascente eis o que me dizia.

Olha o nascer dosol: lá Deus tem sua casa
De lá nos manda a luz e envia Seu calor,
Que a árvore e a flor e a fera e o homem tudo abrasa
Confortando a manhã alegrando o sol-pôr.

Nosso tempo na terra é só uma curta
estada. Para aprender a suportar o amor
radioso.
E este corpo tão negro e esta face queimada
É uma nuvem somente, e um bosque penumbroso.

Quando tiver nossa alma esse ensino
aprendido A nuvem se esvairá e uma voz há
de soar. Dizendo: o bosque abandonai gado
querido.
E vinde em torno à Minha tenda festejar.

Minha mãe disse assim e me beijou a
face. E ao menininho inglês assim
também falei.
Que quando a nuvem negra e a nuvem branca
passe, E em torno à tenda se ajuntar a sua grei,

Vou guardá-lo do sol que ele há de suportar
Quando feliz ao pé de nosso pai ajoelhe.
Quando ao seu lado as alvas mechas lhe
afagar, E ele então me amará e eu serei
como ele.

 

UMA ÁRVORE DE VENENO

Tive ódio ao meu amigo:
Disse-lhe, e o ódio
findou. Tive ódio ao meu
inimigo:
Não lhe disse, e o ódio aumentou.

Dia e noite lhe dei a água,
Do medo e de minha
mágoa; Dei-lhe o sol do
riso claro,
Que é só do engodo e anteparo.

E a árvore cresceu noite e
dia, E produziu grande pera;
Meu inimigo, que a
via, Soube de quem
ela era;

E entrou pelo meu pomar,
Na hora em que o dia se vela;
E na aurora o fui achar
Bem estirado sobre ela.

 

A VOZ DO BARDO ANTIGO

Vinde, juvenil prazer,
E vede a manhã nascer
Como um reflexo
luzente da Verdade
transparente. Foge
dúvida e cisão,
Disputa e os véus da
razão. É labirinto a
loucura
Que entre brenhas se
procura. Quantos tombaram
por lá!
A noite toda a pisar
Pilhas de ossos, vão buscar
O que na noite não está;
E acham seus próprios
cuidados. Querem os outros
guiar,
Quando deviam ser guiados.