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O público: Espectador e personagem na obra de Nelson Rodrigues – por Verônica Daniel Kobs

Profa. Dra. Verônica Daniel Kobs** O erotismo, na obra de Nelson Rodrigues, funcionava como principal agente da quebra de tabus, necessária para a transgressão das

Profa. Dra. Verônica Daniel Kobs**
O erotismo, na obra de Nelson Rodrigues, funcionava como principal agente da quebra de tabus, necessária para a transgressão das normas sociais, instalando, assim, o conflito que essas travam com o instinto: 
As opções de Nelson Rodrigues não foram as que então se esperavam. Crítica e público desapontavam-se com o clima crescentemente mórbido de sua dramaturgia, com o acúmulo de situações anômalas e de pormenores desagradáveis, com as quebras cada vez mais freqüentes da lógica e da verossimilhança. Ele parecia ferir de propósito, pelo prazer de quebrar barreiras morais e estéticas, tanto o bom senso quanto o bom gosto. (PRADO, 1996, p. 53)
  
No fragmento transcrito, o crítico refere-se à dramaturgia, o que não impede que sua observação seja aplicada ao universo romanesco de Nelson, que se aproxima muito das suas peças teatrais. O mais importante, porém, é a associação que Décio de Almeida Prado estabelece entre o desagradável e a ruptura da “lógica e da verossimilhança”, do que se pode depreender que o lógico e o verossímil eram qualidades apenas das coisas que obedeciam ao “bom senso” e aos bons costumes.  Dessa forma, a posição do público e da crítica retratada pelo autor encerrava em si mesma a hipocrisia, já que qualquer desvio de comportamento não era encarado como realidade, parecendo que a sociedade era formada apenas por pessoas de bom caráter, sem o antagonismo entre o bem e o mal.

Nelson Rodrigues em rara participação como ator. (Foto: Reprodução)

Em vários textos, do próprio dramaturgo e de Sábato Magaldi, um dos principais estudiosos da obra de Nelson Rodrigues, há referência ao tenaz julgamento do público e da crítica, alertando para o fato de a repulsa ser motivada não por questões estéticas, mas éticas, ou seja, a sociedade, sentindo-se afrontada pelo erotismo e pela profundidade dos temas propostos pelo autor, não conseguia ver no texto qualidades, porque já estava predisposta pelo incômodo que a violência dos textos lhe impunha.

Em A cabra vadia, há uma passagem que comprova essa postura do público, em relação aos textos rodrigueanos: “As senhoras me diziam: ‘Eu queria que seus personagens fossem como todo mundo’. E não ocorria a ninguém que, justamente, meus personagens são como todo mundo: e daí a repulsa que provocam. Todo mundo não gosta de ver no palco suas íntimas chagas, suas inconfessas abjeções.” (RODRIGUES, 1995, p. 155). Tal comportamento prova que um dos intentos do autor, a promoção da identificação entre público e texto, foi alcançado. Entretanto, o cumprimento dessa meta custou caro ao autor. Interferindo psicologicamente junto ao leitor/espectador, Nelson Rodrigues representa a sociedade brasileira cruamente, sem adornos, de modo exemplar, mas, paradoxalmente, é taxado de obsceno, amoral, algo facilmente explicado a partir do processo de projeção. O público reconhecia-se nos personagens rodrigueanos, mas, em vez de julgar a si próprio, assumindo seus erros, julgava o autor, isentando-se de qualquer falta e também da punição que essa implicava. 
Com a aproximação entre palco e público, Nelson pretendia descobrir a máscara social que moldava uma sociedade preocupada em se adequar aos rótulos impostos pelo modelo burguês. Essa aproximação fez com que o público se visse representado no palco, ou seja, o texto rodrigueano funcionava como um espelho, refletindo o caráter humano encoberto por máscaras impostas pela sociedade e condenada pela religião, revelando, dessa maneira, o inconsciente primitivo do homem. (BURLIM, 2008, p. 2)
  
O ato de revelar “a vida como ela é” e a consequência disso, que era a criação de um mundo incômodo para o leitor/espectador, embora reconhecidos, inconscientemente, pelos espectadores, como válidos e presentes em suas vidas, passavam a ser conscientemente recusados, através de um processo de autodefesa, pois não é fácil reconhecer e assumir os erros, ainda mais quando esses fazem parte das emoções e fantasias mais íntimas e, portanto, inconfessáveis. Claro que a reação do público não poderia ser prevista pelo autor com exatidão, mas podia-se aventar a hipótese da recusa, já que o desagradável fazia parte do projeto estético e ideológico de Nelson Rodrigues, evidência percebida pela insistência do escritor, que não mudou seu estilo, mesmo com as críticas negativas e constantes que recebia, e, de modo mais direto, pelos seus depoimentos em relação à sua obra e aos seus objetivos.

Foto: Reprodução
Em 1974, Nelson declarava que “teatro não tem que ser bombom com licor. Teatro tem que humilhar, ofender o espectador” (BURLIM, 2008, p. 1). A partir dessa afirmação, fica fácil relacionar o autor ao ideal dos modernistas, tanto na literatura como no cinema, pois o foco é a desalienação, alcançada através do “choque do real”, afinal, nos textos de Nelson, “o mundo aparece como pura degradação, e as personagens, os heróis, enfim, representam um mundo corroído, subvertido e corrompido, se percebido sob uma perspectiva da ‘normalidade’, do ‘aceitável’ [grifo nosso]” (FRANÇA, 2008, p. 14). Nesse trecho, a ressalva do autor, colocada em destaque, na citação, ajuda a entender a posição de Décio de Almeida Prado, transcrita anteriormente, no tocante à ruptura da “lógica” e da “verossimilhança”, operada pelos textos rodrigueanos, nos quais é indissolúvel a relação entre o desagradável e o erotismo, que serve de instrumento para a desestabilização do leitor/espectador, além de se revelar uma característica muito associada à brasilidade.
Dessa forma, o erótico propicia o cumprimento de duas funções: ao mesmo tempo em que instala o confronto necessário para o desmascaramento social, o erotismo simboliza o brasileiro, mesmo que metonimicamente (importa ressaltar que o recorte, necessário, opta por um traço extremamente marcante na construção e na repercussão de uma “imagem nacional”). Associando essas duas funções, chega-se à desmedida ou ao excesso, característica que, aos poucos, foi sendo aceita e mesmo entendida como parte da realidade brasileira. Ismail Xavier refere-se a essa postura mencionando o principal resultado dela:
[…] um debate que criou um novo ambiente para a recepção da obra de Nelson Rodrigues. A discussão em torno da desmedida como forma de colocar em discussão certos traços da vida nacional ganha espaço, e a paródia do kitsch torna-se ingrediente legítimo na reflexão sobre a experiência nacional, inclusive em sua dimensão política. (XAVIER, 2003, p. 183-4)
  
O erotismo, principal instrumento de Nelson Rodrigues para o descomedimento de sua obra, também é analisado por Christian Dunker, em artigo publicado na revista Interações. O crítico considera o elemento erótico como um dos estereótipos criados (e perpetuados, a posteriori) para representar a brasilidade***. Considerando o impacto dos estereótipos na repercussão do país junto aos estrangeiros, Dunker associa erotismo e exotismo, já que o processo de estereotipia surge, comumente, com a tentativa de ressaltar os diferenciais de um país em relação aos demais. Sendo assim, essas características, que são vistas como típicas ou peculiares, passam a ser vistas como elemento exótico e, segundo o crítico, provocam o “gozo estrangeiro”, metáfora que traz à tona o erotismo:
O erotismo é uma das esferas mais fortes de representação do Brasil. Ele se manifesta nos principais estereótipos que temos sobre nós mesmos, e também na forma como nos imaginamos sendo imaginados pelo outro. O samba, o futebol e as nossas paisagens paradisíacas distinguem-se justamente por esse toque de erotismo deslocado. Mais recentemente, na música, na moda e até mesmo no turismo, encontramos sinais claros de como nosso erotismo pode se conjugar com a lógica cultural do capitalismo tardio. Ao que tudo indica, a idéia de que erotismo faz parte do “nome da marca”, e que a partir disso devemos, com o cinismo que for necessário, explorar tal produto, foi plenamente incorporada ao projeto político nacional. (DUNKER, 2008, p. 2)

Referências
BURLIM, L. A. O teatro desagradável de Nelson Rodrigues. Disponível em: http://www.abralic.org.br/enc2007/anais/23/1575.pdf. Acesso em: 08 mai. 2008.
DUNKER, C. I. L. O declínio do erotismo no cinema nacional. Disponível em: http://64.233.169.104/search. Acesso em: 03 mai. 2008.
FRANÇA, R. G. da. Nelson Rodrigues: uma poética da aniquilação. Disponível em: http://www.letras.ufrj.br/posverna/mestrado/FrancaRG.pdf. Acesso em: 03 mai. 2008.
PRADO, D. de A. O teatro brasileiro moderno. São Paulo: Perspectiva, 1996.
RODRIGUES, N. A cabra vadia. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
XAVIER, I. O olhar e a cena — Melodrama, Hollywood, Cinema Novo, Nelson Rodrigues. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
———————
* Excerto do artigo intitulado Asfalto selvagem: uma narrativa em crise, publicado na revista Guavira (UFMS), em 2012.
** Professora do Mestrado em Teoria Literária da UNIANDRADE. Professora do Curso de Graduação de Letras da FAE. Doutora em Estudos Literários pela UFPR. E-mail: verô[email protected]
*** No caso específico da obra de Nelson Rodrigues, cabe destacar que também o futebol tem esse propósito, embora desencadeie efeitos diversos.

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Por: Profa. Dra. Verônica Daniel Kobs 


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