A poesia do Natal

A poesia do Natal

O poeta e crítico anglo-americano T.S. Eliot, em “Virgílio e o mundo cristão” compilou ideias valiosas para esta quadra da celebração do Advento de Jesus – o Natal – sobretudo a estima que o poeta romano angariou e que o tornou “singularmente simpático à mentalidade cristã” – seu foco inicial é a famosa quarta Écloga:

“Terá a vida dos deuses o menino, que os verá
no meio dos heróis, e será visto em meio a eles,
regendo com as virtudes de seu pai um mundo em paz .”

Este “querido rebento dos deuses, grande descendente de Júpiter” é “aquele que receberá o dom da vida divina, verá os heróis” – poderia apenas ser uma profecia do nascimento do próprio Cristo, acreditamos os Cristãos, desde Santo Agostinho.

A “profecia poética” que descobrimos em Virgílio se repetiu nesses mais de dois mil anos de história do Cristianismo, na reescrita do mito por excelência – aquele do renascimento.

O mito do “Deus-menino”, a visão do Deus Encarnado transfigura-se no Natal, a maior festa do Ocidente Cristão, sempre de ouvidos na lição do poeta Friedrich Hölderlin: “non coerceri maximo, contineri tamen a minimo, divinum est” (não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino”); ou: na lição de teologia do papa Bento XVI (Joseph Ratzinger):

“(…) os poetas de Deus são aqueles que, por suas obras, mostram ao mundo que “o amor é mais sublime do que o mero pensamento. O pensamento absoluto é amar; ele não é um pensamento insensível e sim criativo, porque é amor”.

“Mito e religião são revestidos pela linguagem poética; a ciência, a ética, a filosofia e a estatística, pela prosa” – afirma Robert Graves (1895-1985) em seu “A Deusa Branca” que tem como subtítulo: “Uma gramática histórica do mito poético”.

O poeta britânico nos legou essas quase seiscentas páginas eruditas em defesa da Poesia, banhada pelos mitos, Poesia que foi sua paixão dominante nos noventa anos de sua prodigiosa aventura intelectual, iniciada aos 15 anos e encerrada em Deià, Maiorca, Espanha, onde passou seus últimos e produtivos dias.

Nestes últimos dias de 2019, reabro o livro de Graves, em busca daquela concordância que ele assinalava – com os poetas galenses –  que afirmam “a primeira riqueza do poeta é o conhecimento e o entendimento dos mitos” – matéria na qual Graves e o romeno Mircea Eliade se destacam entre os escritores que leio para me polir, civilizar.

Vem de Eliade o conhecimento de que o Cristianismo se apropriou de mitos pagãos, criando “simbioses e sincretismos religiosos que, com muita frequência, ilustram brilhantemente a criatividade própria das culturas ´populares`, agrárias ou pastoris”.

O pensador romeno afirma que  “certos mitos e cultos referentes às deusas passaram a fazer parte do folclore religioso da Virgem Maria. Em suma, as inúmeras formas e variantes do legado pagão foram sistematizadas num mesmo corpus mítico-ritual externamente cristianizado” .

Assim também acontece na celebração do maior evento da Cristandade – o Natal.

Com a cristianização de Roma, à época de Constantino, no século III – e fundamentada no relacionamento entre o sagrado e o profano, a Igreja estabeleceu o “Ciclo do Natal”, tendo como ponto máximo e o foco central o que para os fiéis é o maior evento histórico: o nascimento de Jesus.

Com o ciclo do Natal, na verdade se inicia o Ano Litúrgico para a Igreja,  que vai do 1º Domingo do Advento (cerca de quatro semanas antes do Natal) e termina no sábado anterior a ele.

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“Adoración de los pastores”. Bartolomé Esteban Murillo (1617–1682)

Com isso, as origens pagãs – desde as celebrações das Saturnálias romanas, do culto a Cronos ou ao Sol ganham outra dimensão para o crente.

Todas as definições do fenômeno religioso mostram uma característica comum: “à sua maneira, cada uma dessas definições opõe o sagrado e a vida religiosa ao profano e à vida secular” – ensina Eliade, usando o conceito de hierofania.

Uma hierofania significa “algo sagrado que nos é revelado”.

“A partir da mais elementar hierofania – por exemplo, a manifestação do sagrado num objeto qualquer, uma pedra ou uma árvore – e até a hierofania suprema, que é, para um cristão, a encarnação de Deus em Jesus Cristo, não existe continuidade. Encontramo-nos diante do mesmo ato misterioso: a manifestação de algo ‘de ordem diferente’ – de uma realidade que não pertence ao nosso mundo – em objetos que fazem parte integrante do nosso mundo ‘natural’, ‘profano’”.

Através do cristianismo, o Natal ganhou um “religioso valor mundial”, embora celebrado em diferentes datas pelos católicos Ortodoxos (no Oriente) no 7 de janeiro; e pelos Romanos, no 25 de dezembro. Pode-se afirmar, seguindo o raciocínio de Eliade que este evento tornou-se uma “hierofania universalista”.

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Nativity with St. Francis and St. Lawrence. Caravaggio (1571 1610)

Os ritos, os cultos, as formas divinas, os símbolos etc. são, pois, herdados e adaptados pelos fiéis, não sem alguma oposição das autoridades religiosas. E o exemplo mais candente vindo da história do catolicismo ortodoxo, donde Eliade pinçou o exemplo dos cantos rituais de Natal chamados “colinde” (ou as colindă) são canções de Natal tradicionais romenas e moldavas que foram proibidas durante séculos e depois cristianizadas, ou seja, passaram a utilizar as personagens e os temas mitológicos do cristianismo popular.

Não foram poucos os poetas que se dedicaram ao tema. Abaixo, reproduzo alguns dos meus poemas de Natal favoritos em língua portuguesa. Uns são clássicos, dois de jovens poetas que ouviram a Tradição e sabem, por certo, que a linguagem poética exige um olhar especial para os Mitos e dentre todos a Encarnação de Deus – o nascimento de Jesus Cristo em Belém, há tantos séculos é um dos mitos do Mito maior que são as Sagradas Escrituras.


Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje, a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

[…]


Poema de Natal – Jorge de Lima

ERA UM NATAL.  E um poema de alegria
escrito pela mão de quem se iludia

E nele havia as dádivas do dia,
e nele havia sinos acordados;

e havia nele tudo o que se espera
com seus anseios sempre contrariados;

só lhe faltava o que ninguém sabia
porque ficara n’alma que o fizera.

– Jorge de Lima. “Obra completa”, vol. I, pág. 982. Poema publicado originalmente em Jornal de Letras, Rio de Janeiro, dezembro de 1950.

Manuel Bandeira 610x350 1 - A poesia do Natal


Natal – Manuel Bandeira

Penso em Natal. No teu Natal. Para a bondade
A minh’alma se volta. Uma grande saudade
Cresce em todo o meu ser magoado pela ausência.

Tudo é saudade… A voz dos sinos… A cadência
Do rio… E esta saudade é boa como um sonho!
E esta saudade é um sonho… Evoco-te… Componho
O ambiente cuja luz os teus cabelos douram.

Figuro os olhos teus, tristes como eles foram
No momento final de nossa despedida…
O teu busto pendeu como um lírio sem vida,
E tu sonhas, na paz divina do Natal…

Ó minha amiga, aceita a carícia filial
De minhalma a teus pés humilhada de rastos.
Seca o pranto feliz sobre os meus olhos castos…

Ampara a minha fronte, e que a minha ternura
Se torne insexual, mais do que humana, – pura
Como aquela fervente e benfazeja luz

Que Madalena viu nos olhos de Jesus…

– Manuel Bandeira, em “A cinza das horas”, 1917.

NO PRESÉPIO – Adélia Prado

Minha alma debate-se, tentada à tristeza e seus requintes. Meu pai morto não vai repetir este ano: “Nada como um frango com arroz depois da missa”. Minha irmã chora porque seu marido é amarradinho com dinheiro e ela queria muito comprar uns festões, uns presentinhos mais regalados, ô vida, e ele acha tudo bobagem e só quer saber de encher a geladeira com mortadela e cerveja. Talvez, por isto, ou porque me achei velha demais no espelho da loja, sinto dificuldades em ajudar Corália. Queria muito chorar, deveras estou chorando, às vésperas do nascimento do Senhor, eu que estremeço recém-nascidos. Estou achando o mundo triste, querendo pai e mãe, eu também. Corália disse: você é tão criativa! E sou mesmo, poderia inventar agora um sofrimento tão insuportável que murcharia tudo à minha volta. Mas não quero. E ainda que quisesse, por destino, não posso. Este musgo entre as pedras não consente, é muito verde. E esta areia. São bonitos demais! À meia-noite o Menino vem, à meia-noite em ponto. Forro o cocho de palha. Ele vem, as coisas sabem, pois estão pulsando, os carneiros de gesso, a estrela de purpurina, a lagoa feita de espelhos. Vou fazer as guirlandas para Corália enfeitar sua loja. A radiação da “luz que não fere os olhos” abre caminho entre escombros, avança imperceptível e os brutos, até os brutos, banhados. Desfoco um pouco o olhar e lá está o halo, a expectante claridade, em Corália, em Joana com seu marido e em mim, também em mim que escolho beber o vinho da alegria, porque deste lugar, onde “o leão come a palha com o boi”, esta certeza me toma: “um menino pequeno nos conduzirá”.

– Adélia Prado, do livro “Filandras”. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001.

Pietà – Igor Barbosa

Dorme o menino Jesus com abandono

no colo de Maria.

Ela observa
os braços dele, tesos, rente ao corpo,
os cabelos colados
na testa suadinha. Brinca e dorme!

De seus lábios
escapa um som pequeno como o brilho
sob a porta da rua,
um mínimo ronquinho…

E esta mulher
por instantes contempla
a panelinha

em que o jantar espera.

Ouve distante
os sons que da oficina
José manda como mensageiros:
Diz que a ama.
Que os ama aos dois até a morte e docemente.
Maria olha o menino, e não vê
seu sono, sua fome, suas corridas.
Vê só o menino e a cor

de pão da sua pele.

E toca a testa dele, em que parece –
num susto –

sentir que espinhos furam os seus dedos.

– Igor Barbosa em “Poemas de Natal acrescidos de um ensaio sobre a dor, a cura e a Vida” (Editora ViV, 2019)

De CINCO ESTUDOS DEZEMBRINOS (5) – Wladimir Saldanha

Sou dos que sofrem a súbita
contemporaneidade de dezembro.
Mas não me advirtam do solstício
que eclipsaram no Natal.

Os celtas em círculo, seus hinos,

volvem todos para o Menino.
Ignorá-Lo, mudá-Lo em duende,
nada disso abrevia ou consome.

Dezembro se impõem no dia, em pleno abril.
Atravanca fevereiro, acende fogueiras
de São João. Já vai muito distante

quando se deixa ver, definitivo,
para que digam: foi tudo tão rápido!
Dezembro se desmembra: é sempre.

– Wladimir Saldanha, “Natal de Herodes”, Itabuna (BA): Mondrongo, 2016.

NATAL – Murilo Mendes

Meu ser é uma vasta estrebaria onde se vêm abrigar todas as impurezas da terra desde os meus mais remotos ascendentes. O esterco de múltiplos erros, de todas as iniquidades, de todas as más inclinações, de todas as covardias, de todas as blasfêmias, ajuntou-se em mim desde o instante em que foi cometido o pecado original, até que a semente nascida ao pé da Cruz atravessando os séculos germinou ali e fez crescer o trigo que se transformou em mim mesmo que me ofereço em sofrimentos e poemas pelo resgate dos poetas cuja fé vacila, em união com todas as hóstias que se elevam diariamente nos altares de todos os recantos da terra, apresentados a Ti, ó Deus, para honra e glória do teu nome, e para utilidade de todos os fiéis, pelo teu Filho unigênito Jesus Cristo, grande e eterno Sacramento da humanidade.

– Murilo Mendes em “Poesia completa & Prosa”, pág. 764, Dispersos/O Sinal de Deus.

E assim me despeço de meus seis leitores com os melhores votos de um Feliz e Santo Natal.

Adalberto De Queiroz

Adalberto De Queiroz

Adalberto de Queiroz, 65, natural de Goiânia, é empresário e jornalista por formação (UFG), Bacharel em Comunicação Social (pela UFRGS - onde também estudou Física, sem concluir o curso). Autor de "O rio incontornável" (Poemas), Edit. Mondrongo, 2017, entre outros títulos. É membro da Academia Goiana de Letras. E-mail.: betoq55@gmail.com

8 comentários sobre “A poesia do Natal

  1. Vou deixar aqui minha resposta, e não lá do outro lado, como é o meu costume, e minha resposta é simples, mas cheia de amor e admiração por seu trabalho e seu texto, por sua poesia, pela poesia desses homens e mulheres sensíveis que habitam nosso planeta. Meu amor pelo Natal, por Jesus menino, que renasce em todos os dezembros, nunca há de acabar. Obrigada, Beto. Um abraço natalino. Essa minha resposta cabe em qualquer lugar, penso.

    1. Dileta amiga Professora Maria Helena:
      Seu comentário me deixa muito feliz.
      Sim, sua resposta cabe em todos os grupos e hei de postá-lo lá, com muita honra.
      Um Feliz e Santo Natal pra você e todos os seus amados.
      Beto & Helenir.

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